
Após uma carreira de 44 anos ao serviço da Polícia Judiciária, Carlos Farinha prepara-se para assumir a presidência da Comissão de Proteção às Vítimas de Crimes. Por ele passaram grandes casos das últimas décadas.
Na longínqua reta final da década de 1970, Carlos Farinha cumpriu o serviço militar obrigatório na então Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Um ano e meio que podia bem ser mera nota de rodapé no trajeto do homem que, nas palavras da ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, se tornou "uma referência incontornável da Polícia Judiciária e da Justiça em Portugal". Mas, de alguma forma, aquele período fugaz acabou por ter relação direta com o que viria a ser o resto do seu percurso. Ali, teve a oportunidade de, pela primeira vez, frequentar aulas de investigação criminal. Entre os que o acompanharam na altura, há até quem se lembre de que era "particularmente interessado naquelas aulas". E, portanto, poucos terão ficado surpreendidos quando, meses depois, souberam que tinha concorrido a um anúncio para peritos de criminalística. Em setembro de 1981, ingressou então na Polícia Judiciária, onde passaria 44 dos seus 67 anos de vida, até se reformar, em setembro passado.
Até aí, dava aulas de Educação Física, sem habilitação própria. Mas não tardou a investir na formação. Cursou Direito na Universidade de Coimbra, aposta que seria decisiva para a progressão na PJ - 14 anos depois, em 1995, chegou ao primeiro cargo de chefia, tendo assumido funções de coordenador de investigação criminal. Antes, em 1989, tinha já sido promovido a inspetor. Depois, em 1998, aceitou o desafio de ir chefiar o departamento da PJ da Madeira, numa altura em que a região agonizava com um escândalo de abuso sexual de menores. Em março de 1999, foi até manchete do "Diário de Notícias" da Madeira, por acusar o Governo Regional, liderado por Alberto João Jardim, de desmentir a "realidade objetiva" da pedofilia na Madeira. Mais tarde, foi chefiar o departamento de Leiria. A disponibilidade permanente para "ir a jogo" e sair da zona de conforto, mesmo com prejuízo da vida familiar, é nota dominante na carreira.
Quem com ele privou, elenca outros predicados. Santos Cabral, antigo diretor nacional da PJ, que o conhece há mais de 30 anos, refere que "a forma como se move, sempre discreta, é inversamente proporcional à capacidade que tem e ao seu profissionalismo". "Foi sempre um profissional de excelência nas áreas que tutelou e tem essa característica de conseguir aliar o profissionalismo, o conhecimento, a discrição e, muito importante, a lealdade." Gil Carvalho, antigo inspetor que também foi diretor da PJ, admite que a relação entre ambos teve "altos e baixos", mas nem por isso deixa de exaltar as qualidades profissionais do ex-colega. "Bom profissional, muito empenhado e eficiente, perfecionista, por onde passou deixou a sua marca e fez uma carreira de reconhecido mérito." Já Ricardo Valadas, que foi presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária (ASFIC/PJ) entre 2015 e 2019, fala numa "pessoa muito metódica, muito racional e muito considerada dentro da polícia", que, tal como Luís Neves (atual diretor nacional da PJ), sempre se mostrou "aberto às preocupações da ASFIC" e com quem foi possível manter um diálogo aberto.
Voltando ao percurso de Carlos Farinha, em 2002 foi subdiretor de Maria José Morgado, na então Direção Central de Combate à Corrupção e Criminalidade Económico-Financeira. Mas a experiência durou pouco. Depois, em 2006, também pela mão de Maria José Morgado, integrou a equipa inicial de investigação do processo "Apito Dourado". Pelo meio, chegou a número um da Diretoria de Lisboa e a coordenador superior de investigação criminal. Ao longo de anos, passaram-lhe pelas mãos alguns dos grandes casos que abalaram o país, dos incêndios às cheias, da explosão de uma fábrica de pirotecnia em Lamego ao trágico acidente de autocarro na Madeira, que em 2009 ditou a morte de 29 pessoas. Nesse mesmo ano, Carlos Farinha foi chamado a liderar o Laboratório de Polícia Científica (LPC), onde teve um papel fundamental. Diz Gil Carvalho: "Talvez tenha sido aí que teve mais impacto. Foi graças a ele que o LPC deu o salto, em termos de capacitação, de inovação, de eficácia". Santos Cabral reforça a ideia. "O prestígio que o LPC tem hoje deve-o tanto à qualidade dos funcionários como ao trabalho que ele fez ao longo de anos."
Em 2018, chegou ao topo da pirâmide, tendo sido nomeado diretor nacional adjunto da PJ, função que assumiu até ao momento da reforma. No arranque do ano, sucede a Carlos Anjos na presidência da Comissão de Proteção às Vítimas de Crimes, um órgão administrativo independente que funciona junto do Ministério da Justiça e é responsável por receber, analisar e decidir os pedidos de indemnização a conceder a vítimas de crimes violentos ou de violência doméstica. Foi convidado pela ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, e, mais uma vez, escolheu ir a jogo. Tem ainda o objetivo de terminar, durante este ano, o doutoramento que está a fazer em Ciências Criminais.
Carlos Farinha
Cargo
Presidente da Comissão de Proteção às Vítimas de Crimes (toma posse em breve)
Nascimento
10/12/1958 (67 anos)
Nacionalidade
Portuguesa (Tomar)

