
Foto: Ernesto Mastrascusa/EPA
Decisões da administração americana parecem ter sido a estocada final na economia de um país que há décadas enfrenta dificuldades. Entre a fome e a falência dos hospitais, presidente cubano pede resistência.
Fome alastra como praga
Há uma espécie de tempestade perfeita a pairar sobre Cuba, que está a deixar o país entregue a uma crise humanitária profunda. Num território em que a escassez de combustível é, há décadas, um problema crónico, a política hostil de Donald Trump - que, após a detenção de Nicolás Maduro, fechou a torneira do petróleo venezuelano - veio exponenciar o problema, deixando o território à beira do colapso. Face à falta de eletricidade, o funcionamento das bombas de água e a refrigeração de alimentos estão ameaçados, os transportes começam a parar, os serviços de saúde estão mergulhados num perfeito caos, os aviões estão com dificuldades em garantir o reabastecimento (muitos já deixaram de voar para Havana), o turismo caiu a pique, as empresas têm-se visto e desejado para manter a sua atividade comercial, a fome alastra como praga. Uma espiral catastrófica, que leva vários analistas internacionais a antever o fim do regime. Com a população entregue ao caos, o presidente Miguel Díaz-Canel tem pedido aos cubanos uma "resistência criativa".
Sanções, sistema elétrico envelhecido, economia débil
Para lá do petróleo venezuelano, há outros fatores que explicam a crise. Desde logo, a ameaça de Trump em impor sanções a quem venda hidrocarbonetos a Havana. Mas também o facto de o país ter um sistema elétrico envelhecido, de o turismo nunca ter voltado aos níveis pré-covid, de a economia ser tendencialmente débil, com baixa produtividade, inflação elevada e êxodo migratório crescente.
O que pretende a administração americana?
Oficialmente, Donald Trump tem dito que Cuba representa "uma ameaça extraordinária à segurança dos EUA", devido às relações que mantém com Rússia, China e Irão. Já Marco Rubio, secretário de Estado americano, assumiu que gostaria de ver uma mudança de regime. Ao intensificar a pressão económica e diplomática, a administração Trump parece querer forçar Havana a liberalizar a economia e a negociar condições mais favoráveis para os EUA.
Relações tensas remontam à revolução comunista de 1959
Para se perceber a génese da tensão entre os dois países, há que recuar até 1959, ano em que Fidel Castro liderou uma revolução e instaurou em Cuba um regime comunista. Na resposta, os EUA impuseram embargos e apoiaram tentativas de derrubar o regime, como a fracassada invasão da Baía dos Porcos. Sentindo-se ameaçado, Fidel aceitou a instalação de mísseis nucleares soviéticos na ilha, abrindo caminho à crise dos mísseis de Cuba (1962), um momentos crítico da Guerra Fria.
2,1M
Estima-se que, para suprir todas as suas necessidades energéticas, Cuba precise de importar perto de dois milhões de barris de petróleo por mês (cerca de 70 mil por dia). Isto porque o país produz, de forma autónoma, cerca de 40 mil barris por dia, mas as necessidades diárias rondam os 110 mil.
"O bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba, que se intensificou nas últimas semanas, é criminoso e um ataque aos direitos humanos de todo um povo"
Gabriel Boric, presidente do Chile

