Opinião

Greta Thunberg e a política emotiva

Greta Thunberg e a política emotiva

Há anos que painéis de cientistas alertam para as alterações climáticas e os seus riscos. Mas foi necessário que o tema fosse suscitado por uma adolescente (Greta Thunberg) para a opinião pública se mobilizar.

Este texto não é sobre Greta Thunberg, mas sim sobre este paradoxo: uma adolescente conseguiu aquilo que os mais importantes cientistas não conseguiram. O tema das alterações climáticas é um dos temas mais importantes para o nosso futuro, mas é também um dos mais complexos em termos científicos e políticos e na relação entre ambos. O consenso científico existente quanto às alterações climáticas tem de ser o ponto de partida. Isto não significa que esse consenso não possa ser questionado (não há verdadeira ciência sem esse questionar permanente, desde que de forma científica). Mas as políticas públicas têm de partir daquilo que é o consenso científico num determinado momento. Por outro lado, as políticas públicas sofrem, nesta área, daquilo que é comum designar-se de dissonância cognitiva. Todos defendemos que deve ser feito algo para combater as alterações climáticas, mas não associamos isso à defesa de medidas que exigem alterar os nossos comportamentos de forma profunda e difícil.

O mérito de Greta Thunberg é ter desencadeado uma consciência global sobre este tema. O problema com a idolatração política de Greta Thunberg é transformar o reconhecimento por esse papel social no fio condutor de uma política ambiental: fazer de Greta Thunberg não apenas um símbolo do despertar social para as alterações climáticas, mas o guru político das alterações climáticas. Greta Thunberg não é uma especialista nos temas ambientais nem podia ser. Da mesma forma que me chocam os ataques pessoais violentos a uma adolescente, em razão do seu ativismo cívico, preocupa-me a importância e a unanimidade política em torno de tudo o que diz e sugere.

É um exemplo de que como a política hoje depende da capacidade de gerar uma relação emocional, mas também dos riscos que isso comporta. A primeira-ministra da Nova Zelândia tem liderado a defesa da necessidade de uma política mais suscetível de gerar empatia e emoção nos cidadãos e de incorporar esses conceitos no desenho das políticas públicas. Isso é crucial hoje. Mas é igualmente importante que essa emoção esteja ancorada na razão. Na "Divina comédia", o poema ético italiano, Dante é acolhido no paraíso por Beatriz, a paixão da sua vida, mas para lá chegar necessita da ajuda de Virgílio, o poeta da razão. Esta é uma metáfora da vida que é importante a política também preservar.

Professor universitário

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