Aldeia de Casal Diz: retrato de um Interior perdido no tempo
Este é o trabalho vencedor da Bolsa JN da Academia de Notícias na categoria "Coesão territorial e assimetrias regionais". A autoria da reportagem é de Ana Francisca Costa e Mariana Gomes, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH).
"Aqui está tudo vazio. Só nesta rua, fez três anos em março, morreram cinco pessoas, na aldeia, ao todo, morreram onze." O número não vem de um registo oficial, mas da memória de quem ficou, e basta para medir o esvaziamento que atravessa a Aldeia de Casal Diz. A morte sucede-se depressa, enquanto a vida não chega para ocupar os lugares que ficam.
Resistem às memórias, entre as paredes que cedem
"Nem tenho luz, nem água, nem casa de banho, nada. Aquela casa não presta para nada." Alzira do Regato, 90 anos, vive agora com a irmã Lucinda, na casa do sobrinho, depois de uma vida numa casa sem condições básicas. A idade avançada, a doença e a morte do marido de Lucinda tornaram insustentável a permanência na antiga habitação, mas a nova realidade é difícil de aceitar. "Punham lá água, luz e tudo, mas eu não tinha dinheiro para isso", explica Alzira, confessando também um medo antigo da eletricidade, "porque aquilo um dia rebenta e ninguém dá por ela". Na Aldeia de Casal Diz, há quem resista por falta de meios e há quem o faça por convicção. Entre paredes que cedem ao tempo e rotinas moldadas pela escassez, a vida segue num compasso feito de silêncios, de lembranças e de uma permanência quase teimosa. Como se ficar fosse um ato de coragem.

Alzira, na casa do sobrinho
Situado na freguesia de Pindo, concelho de Penalva do Castelo, distrito de Viseu, este é um lugar escondido entre vales e vinhas, onde o tempo corre lentamente e as rotinas permanecem fiéis a um passado que resiste.
Logo pelas primeiras horas do dia, antes mesmo do sol romper completamente, os sinos da igreja de São Simão quebram o silêncio da noite com as badaladas das Ave-Marias. São seis da manhã e a aldeia desperta numa sucessão de rotinas.
Na Rua da Saudade - o nome parece ter sido escolhido com precisão quase profética-, num banco à sombra, onde em tempos se reuniam vizinhos para conversar, contar histórias ou simplesmente ver a vida passar, agora reina o vazio. A sombra, que antes abrigava vozes e memórias, hoje apenas espelha a ausência. O envelhecimento galopante e o despovoamento deixaram marcas profundas. Há poucos meses, era ali que Conceição, figura bem conhecida na aldeia, contava histórias de gerações inteiras. O Zé, que montava a televisão na rua para ver a bola ou o telejornal com quem passasse, também já não aparece. Morreu pouco tempo depois. A perda dos símbolos da aldeia deixou o dia a dia ainda mais vazio.
Rua da Saudade
Quando a juventude parte, o silêncio impera
À medida que a paisagem envelhece e os campos se tornam silenciosos, surgem vozes que ajudam a enquadrar a realidade das aldeias no país. Francesca Poggi, urbanista, arquiteta e investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, caracteriza a Aldeia de Casal Diz como um caso peculiar no panorama nacional. "Em termos gerais, as áreas rurais têm vindo a perder população por causa da atração que as cidades exercem - há mais oportunidades de emprego, educação, mobilidade". Esta dinâmica gera uma mudança estrutural: os mais velhos ficam, os mais novos partem, criando um vazio geracional.
O lugar é, para a investigadora, uma "ilha muito interessante". Apesar da existência de infraestruturas básicas, muitos dos habitantes optam por não aderir a certos recursos como a água canalizada ou a rede elétrica. "São pessoas quase de outro tempo, que se recusam a utilizar os serviços da forma como toda a sociedade à sua volta faz. Isso é um traço de cultura, de identidade muito forte."
Sobre a aparente resistência ao desenvolvimento, ressalva que não é apenas uma questão de vontade. "Há aqui também pobreza económica. As redes de luz, água e comunicações têm custos."
Valores que nem todos conseguem suportar. Entre campos cultivados, o som das enxadas e das vozes trocadas ao longe quebra o silêncio reinante. Os campos, afastados do centro da aldeia, são o destino de quem ainda tem forças para a terra e faz dela meio de subsistência.
No coração da povoação, as casas, envelhecidas e de estrutura frágil, parecem resistir mais por teimosia do que por solidez. Algumas estão vazias, outras ainda abrigam vidas discretas, com rugas. Patrocínia da Silva Nunes, 88 anos, partilha os dias com a solidão. Vive sozinha, mas tem a ajuda regular dos filhos, espalhados entre Mangualde, Viseu, Lisboa e França. Viveu para cuidar deles, trabalhava nos campos e cuidava dos animais, com o marido, que morreu há mais de 25 anos. Sempre a casa e o campo. "Tive onze filhos. A gente andava aí nas terras, não tinha vagar de andar na rua". Hoje, apesar de continuar independente, pesa-lhe o corpo e a distância. "Chega o domingo à tarde, a casa fica vazia. Olhe que não há aqui ninguém. É uma aldeia muito triste, não há cá nada. Se eu der uma pancada e aleijar-me, não há quem me socorra." Quando precisa, recorre à linha da Saúde 24 e espera por uma ambulância que a transporte até Viseu. As deslocações custam, os exames são caros, a reforma é curta. A vida mudou, mas o peso do passado continua a condicionar o presente.

Patrocínia da Silva Nunes
Ao fim de semana, a casa de Patrocínia ganha movimento. Isabel Silva, 64 anos, uma das filhas, educadora na Casa Pia, em Lisboa, vem para "matar saudades". "Saí daqui com a quarta classe e hoje sou técnica superior. Fiz tudo sozinha, fui trabalhar, depois voltei a estudar, formei-me, casei-me, divorciei-me, arranjei as oportunidades para me instruir."
Tal como Isabel, outros tantos partiram. Saíram para estudar, para trabalhar, para procurar outro futuro. "Antigamente, as pessoas ficavam na aldeia e viviam da agricultura, agora, não se encontra uma alma", sublinha Isabel, que fala da terra como quem conhece o chão, mas já não o pisa. "A minha infância foi aqui, é a minha aldeia. Tenho grandes memórias deste sítio, mas, ao mesmo tempo, não tenho. Vim de Lisboa para aqui e não tenho cá nada, as minhas raízes estão em Lisboa."
Longe do caos das grandes cidades, a vida na Aldeia Casal Diz é um conjunto de retratos: no quintal de uma casa, uma mulher cozinha em panelas de ferro sobre lume aceso, enquanto o marido faz a barba diante de um espelho pendurado num galho de árvore.
Mas nem todos têm cabelos brancos, nas ruas da aldeia há dois novos moradores, dois adolescentes. Chegaram há pouco tempo, viviam na Inglaterra, onde nasceram. Falam português com sotaque estrangeiro, mas os olhos curiosos tentam decifrar as raízes dos pais. A presença traz um sopro de juventude a um lugar onde o tempo parece estagnado.
Na Rua dos Cravos - o nome da artéria evoca revoluções - , por entre muros de granito e hortas alinhadas, a mudança tarda em chegar. O cravo, aqui, não floresceu. A revolução passou ao lado. As fachadas mostram sinais de abandono, o silêncio denuncia uma ausência prolongada.

Rua dos Cravos
Manuel Ferreira emigrou para a Suíça aos 17 anos, empurrado pela "falta de perspetivas". Hoje, com convicção, lamenta, numa conversa à distância, que o cenário se mantenha. "Pouco mudou. Ainda não há qualquer investimento que proporcione, efetivamente, crescimento profissional aos jovens. Nada."
Encontrou no estrangeiro uma vida dura, feita de exploração e adaptação, mas também das oportunidades que na aldeia não teve. Lá, construiu uma família, educou os filhos, ganhou estabilidade, mas nunca perdeu o olhar de quem pertence a outro lugar. "Não vi evolução alguma para os que lá ficaram. Estagnou, ou mesmo piorou", desabafa com tristeza. Através do jornal local, acompanha a mais de dois mil quilómetros o que descreve como "abandono completo das aldeias portuguesas". Apesar da saudade, não volta. Sabe que a aldeia que guarda na memória não é a mesma que encontraria hoje.
Nas manhãs silenciosas, apenas um som ecoa pelas ruas estreitas. Ao aproximar-se, as portas abrem-se, começam a surgir mulheres de andar apressado, com lenços na cabeça e aventais. Avançam em direção ao largo, onde uma carrinha branca está parada. "Ó vizinha, olhe o padeiro!". "Então, como é que iam ao pão? Mais de 80% não têm carro, nem carta", observa.
Rotinas que ainda mantêm a aldeia viva
Enquanto Manuel partiu em busca de oportunidades, há quem tenha regressado pela tranquilidade. "Eu, por exemplo, sou uma exceção, sou do Seixal. Vim para cá a seguir à pandemia, mas tinha aqui família." Depois de dez anos na Suíça, onde conheceu a mulher, natural do lugar vizinho, Roriz, decidiu regressar por ser "mais calminho e mais seguro". Hoje, conduz pelas mesmas estradas todos os dias, faz as mesmas paragens, troca duas ou três palavras com quem ainda espera à porta. A chegada do padeiro espelha uma das poucas rotinas que ainda impõem um ritmo fixo à aldeia.
Sérgio Macário, presidente da Junta de Freguesia de Pindo, reconhece a estagnação que se instalou e os desafios estruturais que há muito se arrastam. "As aldeias estão quase todas iguais", admite. Políticas públicas específicas para o desenvolvimento destas áreas têm sido escassas, sobretudo no que diz respeito ao turismo ou ao alojamento local. "Tem havido incentivo à natalidade, a ver se conseguimos... Mas de resto, políticas de repovoamento são muito poucas. Estamos agora a estudar candidaturas ao PR-2030 para recuperar casas devolutas e criar algum alojamento local".
No entanto, o futuro da aldeia parece depender sobretudo da relação que os moradores têm com o lugar. "Aqui as pessoas são um bocado pacatas. Foram habituadas de uma forma: a rua limpa, o caminho limpo, e não se importam que as coisas fiquem como estão."
Segundo o autarca, existe uma certa tranquilidade no modo como os habitantes encaram a evolução ou a falta dela. A resistência à mudança é discreta, não se traduz em protestos ou reivindicações, mas antes numa continuidade silenciosa que acompanha o passar dos anos. No entanto, embora não expressem abertamente a insatisfação com essa estagnação, sentem a perda gradual de serviços, apoios e da presença humana, que vai tornando o lugar cada vez mais vazio.
A única pizaria da zona, situada num pequeno largo do lugar contíguo à aldeia, é uma exceção curiosa num cenário de encerramentos. A antiga mercearia, que funcionava anexa ao café, fechou portas. O café da aldeia, outrora ponto de encontro diário, mudou de mãos. Hoje, mantém-se aberto, mas sem produtos à vista, sem movimento, longe da vivacidade de outros tempos.

Café Caty e minimercado
Os transportes públicos também não ajudam. Os autocarros para Penalva do Castelo e Viseu ainda funcionam, mas com horários reduzidos; para Mangualde, já não há ligação direta. As escolas ficam deslocadas do lugar, havendo apenas duas a funcionar nas imediações, em Roriz e na Corga, desde que a da aldeia encerrou. Já não há crianças suficientes para mantê-la aberta.
Fontes isoladas marcam o percurso, escondidas entre a vegetação, ladeadas por muros gastos. Junto a um antigo lagar de azeite, o tanque comunitário ainda é usado. Em redor, há roupa lavada estendida ao sol, como se o tempo parasse ali para secar também a rotina. Adivinha-se um passado de colheitas fartas, de azeite espremido com esforço e precisão.
Fonte de São José
A terra que sustenta quem não faz parte
Em redor, os campos de vinha desenham a paisagem. Extensos, alinhados. É nesta zona que a terra ganha expressão: ainda há quem ali encontre sustento ou, pelo menos, um pretexto para continuar. A produção de vinho é uma das atividades que resiste, passada de geração em geração, quase sempre para consumo próprio, por vezes como fonte de rendimento.

António e a mulher são produtores de vinho e conhecedores das castas mais representativas da região: touriga nacional, tinta roriz, jaen e tinta pinheira nos tintos; malvasia-fina, encruzado, barcelo e bical nos brancos. "A freguesia de Pindo é a que mais uvas produz em todo o concelho", destaca com orgulho. Algumas uvas seguem para a adega, outras transformam-se em pipas que servem vizinhos e pequenos comerciantes. É o vinho que, ano após ano, continua a ser colhido, pisado, engarrafado.
Ao cair da tarde, a aldeia ganha vida por instantes. Regressam os que ainda trabalham, vindos dos campos próximos ou das fábricas de Mangualde, com os rostos marcados pelo cansaço. Há passos ligeiros nas ruas, vozes que se cruzam depressa, motores desligados à pressa, portas que se abrem e fecham num ritual repetido.
Mas esse movimento desaparece tão depressa quanto surgiu. Em poucos minutos, o burburinho desvanece-se, as luzes apagam-se uma a uma, e a aldeia volta ao seu estado mais habitual, o silêncio. Um silêncio pesado, de ausência de gente. Dorme-se cedo. Fica tudo quieto, imóvel.
Entre vinhas e casas vazias, a aldeia resiste com a presença dos que ainda a visitam, mesmo que de passagem. Carlos é uma presença habitual. Chega todos os sábados às nove da noite, já depois do jantar, com a carrinha carregada de bens essenciais: azeite, arroz, enlatados, fruta, produtos para a casa. "Já há vinte anos que venho cá. Conheço esta gente toda. Muitas vezes, sou a única alternativa, porque não têm onde ir buscar o que precisam para se remediar."
Carlos leva os bens essenciais à população envelhecida da aldeia
É vendedor ambulante, mas para muitos é também a ponte com o exterior. Não traz apenas o que a ausência de comércio local e transportes torna inacessível. Traz também notícias frescas e conversas, como quem acende luz num lugar esquecido. Enquanto a aldeia adormece cedo, Carlos é dos poucos que ainda chega.
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