Uma montanha de lixo junto à A4, máquinas retroescavadoras a revolver os detritos e muita gente, lá no alto, a catar, em busca de peças para vender, levar para casa ou de alimentos para comer. Parece uma cena de um documentário qualquer sobre um país do Terceiro Mundo, mas era este o cenário do espaço que é agora ocupado pela Lipor, o Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto que está a comemorar 40 anos.
O característico cheiro nauseabundo, conhecido de todos que por ali passavam nas décadas de 80 e 90 e que derivava da deposição do lixo a céu aberto e da produção do fertilizante agrícola Fertor, há muito desapareceu mas os trabalhadores que transitaram para o novo serviço intermunicipalizado lembram-se bem desses tempos e ainda recordam o cheiro da fedorenta central de compostagem impregnado nas suas roupas e que provocava o afastamento dos outros passageiros nos comboios no regresso a casa após um dia de trabalho.
O sucesso do Nutrimais
O trabalho desenvolvido por todos os municípios Lipor (Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde) na área do tratamento e valorização de resíduos e, sobretudo, na recolha seletiva levaram aos parâmetros atuais, de apenas dois por cento de toda a produção ser depositada em aterro.
Uma evolução acompanhada sempre de perto por Fernando Leite, CEO da empresa, e onde a inovadora unidade de valorização orgânica dedicada aos biorresíduos (resíduos alimentares e resíduos verdes) resulta num dos produtos/imagem de marca da Lipor: o adubo biológico Nutrimais resultante do sistema de recolha seletiva em grandes produtores e no setor da restauração. Este adubo é já utilizado na produção dos melhores e mais premiados vinhos portugueses, do Norte ao Sul do país.
Abastecer a aviação
Um dos desafios do futuro e dos que mais agradam a José Manuel Ribeiro, autarca de Valongo e presidente do Conselho de Administração da Lipor, é o projeto de captação de carbono, que vai permitir um combustível verde sintético (eFuel) a ser utilizado pela indústria da aviação, no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, resultante da combinação de CO2 (dióxido de carbono), capturado do processo da Central, e hidrogénio com origem nas energias renováveis.
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Sensores e robôs
Em construção está a nova linha automática de triagem de embalagens e que entrará em funcionamento em abril de 2023. Será a maior estrutura do género da Península Ibérica com uma capacidade de oito toneladas por hora na triagem de embalagens. O atual tapete onde os resíduos são lançados e separados manualmente por uma dezena de trabalhadores será complementado por inovadores equipamentos, como sensores, separadores óticos e robôs, entre outras tecnologias.
Os próximos investimentos incluem ainda uma nova central de digestão anaeróbica, com capacidade para processar 60 mil toneladas de resíduos alimentares e que produzirá biometano para injeção na rede de gás natural nacional, e um hub de economia circular a criar na Póvoa de Varzim.
Valorização energética
O projeto mais ambicioso será, contudo, a criação da terceira linha de valorização energética, em Crestins, na Maia, com vista a tratar a totalidade de resíduos de toda a zona Norte que vão para aterro, proposta já entregue ao Governo.
