
S. João já mexe na cidade que prepara a grande noite
Pedro Granadeiro / Global Imagens
A menos de uma semana da grande noitada de São João, o Porto já está preparado para receber os milhares de foliões.
Conscientes de que "o dinheiro não chega para tudo", os comerciantes preferem não aumentar os preços para "não espantar a clientela". A exceção poderá acontecer com as sardinhas, que está dependente do valor a que chegar à lota. Mas a festa já tomou conta da cidade e atravessou o rio Douro, para Gaia, onde o São João vai conviver com o São Pedro da Afurada.
Praça da República
Manjericos chegam até ao Natal
Há duas semanas que Maria Silva, 68 anos, chega à Praça da República, no Porto, por volta das 6.30 horas, e ali fica com a banca dos manjericos e alhos-porros até por volta das nove da noite. Há 20 anos que, por esta altura, aquele é o seu poiso, onde já passou diversas noitadas de São João. A vendedora diz, sem rodeios, que "até as pernas aguentarem" vai manter "o bichinho" da banca, onde os manjericos mais pequenos podem ser comprados a três euros e os maiores, frondosos, de encher o olho, que é preciso braços bem abertos para os abraçar, podem chegar aos 40. "Mas se me derem 35 euros também o levam", diz a comerciante, ciente que "as vendas estão fraquinhas" e daí ter optado por não subir os preços.
Dona de uma simpatia que esboça no sorriso com que atende cada pessoa, Maria desabafa que está "sempre na expectativa de o negócio correr melhor" e, talvez por isso, vai conquistando clientes ano após ano. "Pois claro que tenho clientes fixos, que me enchem a alma, e que me gabam que os meus manjericos chegam até ao Natal", respondeu, orgulhosa.
Menu sem sardinha e barcos e hotéis lotados
Enquanto alguns restaurantes da Ribeira optam por fechar na noite de São João, "para evitar a confusão", o Chez Lapin, debaixo das arcadas, vai manter-se de portas abertas, ainda que não tenha sardinha assada no menu. "Teremos polvo assado (29,50 euros) e bacalhau assado (22)", contou Paula Cruz, responsável pela casa, convicta que "o turista não vem pelas sardinhas, mas pelo convívio e pela noite de festa". E o facto é que o espaço "fica sempre cheio".
O caldo verde, as bifanas e o chouriço assado serão, ainda assim, servidos nos barcos rabelos da Douro Acima, empresa do grupo, que na noite de São João fará o Cruzeiro das Pontes. Alexandra Almeida, responsável da empresa, confirmou que os seis barcos estão "praticamente todos vendidos", explicando que as reservas ficam feitas "com um ano de antecedência". "São barcos que costumam ser reservados na íntegra por grupos de amigos", referiu Alexandra, sem revelar valores. Também lotados estão os hotéis na cidade e nesta zona em particular, ou não fosse camarote privilegiado para o fogo de artifício.
rotunda da boavista
Dinheiro dos pais não chega para tudo
Por estes dias, a rotunda da Boavista está transformada num verdadeiro parque de diversões e entrar no jardim de manhã, com os negócios ainda adormecidos, faz acreditar que as noites têm sido animadas. Rosa Rodrigues, 65 anos, de Barcelos, chegou há quatro semanas com o carrossel e confirma: "Vai-se trabalhando".
Um pouco antes das 11 horas, aquele divertimento é o único que está a funcionar, ainda que a uma rotação mais lenta. "Ainda estamos fechados", solta o neto de Rosa, de olhar lúzio. No fosso, por baixo das traves de madeira, anda Rosa a "lubrificar" o equipamento "para que nada falhe".
Na cabina da bilheteira, pode ler-se : "Uma ficha 3 euros, duas fichas 5 euros e cinco fichas 10 euros". Valores que, segundo a comerciante, se mantêm "desde a pandemia", porque "com as coisas a ficarem mais caras, o dinheiro dos pais não chega para tudo". E, assim, sempre pode "ficar a contar" receber uma enchente no dia grande da festa. Até porque, junto aos carrosséis, há espaços para matar a fome e a sede.
Fontainhas
Fila até à Ponte do Infante
No Passeio das Fontainhas, todas as mãos parecem poucas para fazer erguer a estrutura do Restaurante Romeiro Lavrador. Chegados do Senhor de Matosinhos, onde todos os dias "a sala esteve cheia", dois camiões surgem "carregados até à rolha", diz, Francisco Lopes, 68 anos, ciente que o seu espaço, a pouco mais de uma semana do S. João, "já devia estar quase pronto".
Com menos "oito metros" do espaço que teve em Matosinhos, Francisco e o resto da equipa manobravam as peças, tentando levantar a estrutura com o máximo de cuidado. "Só aqui é que temos de trabalhar com uma espécie de avançado, porque não há mais espaço", referiu o comerciante que assumirá as rédeas do assador, com a ajuda da mulher, Joaquina.
"Tudo se mantém: a dose (com dez sardinhas e batata a murro ou cozida) está a 20 euros, e o resto é à parte, como o caldo verde (a três euros) ou os pimentos (cada um a dois euros e meio). Em princípio, só na noitada de São João e no próprio dia 24 é que poderá haver um ligeiro aumento, porque tudo depende do valor a que esteja a sardinha na lota nesse dia", explicou.
Atendendo ao que acontece todos os anos - a fila de clientes chega até à Ponte do Infante - a expetativa é "vender-se muito". Já quando é questionado a que horas acaba por comer na noite de S. João, a resposta de Francisco sai pronta: "Vai-se comendo..."
afurada, Gaia
Sala de jantar à espera de enchente
A previsível enchente de São João não vai ficar-se pelo Porto. Com a festa de S. Pedro a começar precisamente a 23, Daniela Antunes, da Casa Moreira, na Afurada, Gaia, conta que "se trabalhasse por reserva já tinha enchido o restaurante para esse dia três vezes". Daí que já esteja a contar "com um dia de muito trabalho e stresse", até porque é expectável que "as pessoas venham comer as sardinhas assadas à Afurada e depois regressem ao Porto a tempo de ver o fogo-de-artifício". Com as brasas acesas a partir das 19 horas, Daniela salienta que para a noitada de 23 para 24 conta vender "entre 20 a 30 cabazes de sardinha, cuja dose será a 14 euros", ou seja, o preço praticado "no ano todo".
Outros destaques
S. João da Madeira
Quinta-feira à noite há marchas populares com crianças e jovens. No dia 23, no jardim municipal, toca a banda Brasil à Mil. No dia 24, às 19 horas, haverá missa em honra de S. João, na igreja matriz, e, no domingo, às 21.30 horas, a procissão das velas.
Valongo
Tony Carreira canta na sexta-feira, pelas 22 horas, no Largo do Passal, em Sobrado, Valongo. No sábado, há Bugiada e Mouriscada.
Almada
Com as marchas populares a atuarem na sexta-feira, a partir das 20.30 horas, no centro de Almada, a noitada acaba com a banda Sense. No sábado, atuam Carlão e Da Weasel junto à Fragata D. Fernando II, e Glória, em Cacilhas.
