
Amaro Rodrigues faz a cascata de São João sozinho há dez anos
André Rolo / Global Imagens
"Passo o ano inteiro a brincar às casinhas" - a frase é de Amaro Rodrigues, que há oito anos faz a cascata da Rua dos Benguiados, em Vila do Conde. É uma das 11 espalhadas pela cidade e, em muitas ruas, continuam a ser feitas por moradores que, num espírito bairrista, rivalizam entre si.
Por ali, Amaro passa o ano a construir. Tudo em esferovite ou em roofmate e papelão, pintado à mão. Horas, dias, às vezes, semanas em cada peça, centenas de fotografias tiradas, para não falhar nenhum pormenor: há a Câmara, o Posto de Turismo, capelas e igrejas, a réplica da nau. De cada fonte brota água, o rio corre, o velhinho moinho gira, o rancho dança de verdade.
"Amazing [incrível]!", diz uma peregrina dos caminhos de Santiago, à passagem. Amaro não fala inglês, mas percebeu o elogio. Sorri. "Passam, tiram fotos, está sempre aqui gente", afirma, orgulhoso por manter viva uma das tradições do S. João de Vila do Conde.
"Tenho mais de 100 peças, mas não cabem todas", explica. Todos os anos, faz novas, há quem lhe peça uma de recordação. Amaro dá, que, por ali, "fazer casinhas" é paixão antiga. Já não consegue parar. Usa bocados de rede para fazer as janelas, pinta-os para imitar a pedra, arranja pedaços de corda e de arame para fazer pormenores. Depois, é cola e "muita paciência".
Dorme no carro
Dos monumentos , só ainda não fez a Igreja da Lapa. "Já estou a pensar o que vou fazer para o ano", frisa o antigo trabalhador da construção civil, agora reformado. Por esta altura, chega a dormir no carro, para guardar a cascata. Há dois anos, roubaram a Igreja do Senhor dos Navegantes. Já fez outra.
Espalhadas pela zona histórica, qual presépio, as 11 cascatas reproduzem, em miniatura, a vivência da cidade e da festa: os monumentos, as artes e ofícios, os carrosséis, os ranchos, os coretos e a banda de música, o santo padroeiro. A inauguração foi ontem. Agora, ficam até ao dia 24. Estão entre o que de mais tradicional há . Elas e a secular rivalidade entre os dois ranchos da terra, que, ontem à noite, já cantaram ao desafio no Monte do Mosteiro e no adro da igreja matriz. O grande momento, porém, é na noitada de sexta-feira.
