Meghan e Harry

A entrevista ainda não emitida que já abala a monarquia britânica

A entrevista ainda não emitida que já abala a monarquia britânica

A semana foi agitada para a família real britânica e para quem decidiu, por livre vontade, sair dela. A entrevista exclusiva dos duques de Sussex a Oprah Winfrey promete causar alvoroço. Muitos temem que as revelações possam manchar a imagem do casal e, principalmente, da realeza. O conteúdo está a ser comparado ao da entrevista feita a Diana nos anos 90. Um registo televisivo que marcou uma década e colocou uma sombra negra sobre a monarquia. Poderá repetir-se?

"Muito libertador". Foi assim que Meghan Markle, ex-atriz norte-americana de 39 anos, classificou a decisão de aceitar o pedido de entrevista a Oprah Winfrey, célebre apresentadora dos EUA e amiga pessoal da duquesa de Sussex. Meses antes do casamento com o príncipe Harry, em maio de 2018, Winfrey (que foi uma das convidadas) perguntou a Meghan se aceitaria dar-lhe uma entrevista. A então futura duquesa disse que o "momento não era o ideal". Em março de 2021, quase um ano após a se terem retirado de vida da monarquia, o casal coloca-se novamente nos holofotes. Decididos a contar a sua versão.

"Como uma adulta que viveu uma vida realmente independente e depois entrou nesta estrutura, que é diferente do que eu acho que as pessoas imaginam, é realmente libertador poder ter o direito, e de certo modo o privilégio, de poder dizer 'sim, estou pronta para falar'", afirma Meghan Markle a Oprah Winfrey, quando questionada do porquê de dar agora o exclusivo. A entrevista foi gravada na casa de Harry e Meghan na Califórnia, e será emitida pelo canal CBS este domingo à noite, nos Estados Unidos. Por essa altura, será madrugada em Portugal. Uma amiga de Winfrey, Gayle King, classificou-a como a "melhor entrevista" que a apresentadora já fez.

Na verdade, a emissora norte-americana apostou forte no programa. A entrevista, projetada para ter uma hora e meia, foi alargada para duas horas. O conteúdo foi amplamente vendido e vai ser reproduzido nos dias seguintes em vários países, como Austrália, Canadá e Brasil. No Reino Unido, a imprensa revela que o canal ITV terá pago mais de um milhão de euros pelos direitos de a exibir, na segunda-feira.

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As expectativas são muito elevadas e há razões para tal. Nos últimos clipes revelados pela CBS, à tradicional moda americana para ganhar audiências, são ditas várias frases que irremediavelmente captam a atenção até dos mais desatentos. "Ficaste em silêncio ou foste silenciada?", pergunta Winfrey à duquesa de Sussex a determinada altura. A apresentadora chega mesmo a afirmar noutro momento que "foram ditas coisas muito chocantes".

Não bastasse ser a primeira entrevista exclusiva do casal após a saída do Reino Unido, as primeiras declarações de Harry e Meghan denotam críticas claras ao Palácio de Buckingham e à forma como foram tratados pela imprensa. Especialmente Meghan Markle, que Harry defendeu perante comentários de teor racista e misógino. "Não sei como eles poderiam esperar que nós continuássemos calados, depois deste tempo todo, quando a Firma tem um papel ativo a perpetuar falsidades sobre nós", disse a ex-atriz.

O conceito de "Firma" é geralmente utilizado em tom depreciativo e crítico relativamente à família real: expõe a monarquia como um modelo de negócio assente na velha máxima de "nunca reclamar e nunca explicar". O facto de Meghan Markle utilizar sem qualquer pudor a expressão leva alguns especialistas a classificar a entrevista como de "alto risco". "Provocará com quase toda certeza uma situação embaraçosa", disse Richard Fitzwilliams, especialista em realeza britânica, à agência de notícias AFP.

Muitos dificilmente conseguem dissociar este momento de um outro em 1995, quando Diana dá a "entrevista do século" à BBC. Naquele registo, que foi transmitido apenas uma vez naquele canal, a princesa de Gales revela a falta de apoio da família real durante o casamento tumultuoso com Carlos e até a displicência com que a trataram perante o problema da bulimia. A mãe de Harry vai estar presente nas palavras do filho, na pulseira da nora e até na maquilhagem, dizem alguns.

"Não consigo nem imaginar como deve ter sido para ela passar por todo o processo sozinha há tantos anos. Porque tem sido incrivelmente difícil para nós os dois, mas pelo menos temo-nos um ao outro", disse Harry sobre a mãe, que morreu num acidente de viação em Paris, em 1997. O príncipe, sexto na linha de sucessão ao trono, sempre foi um ávido crítico da "perseguição" feita pela imprensa tabloide a Diana. Na entrevista a Oprah Winfrey, Harry volta a não deixar nada por dizer.

Ao lado do marido, Meghan, grávida do segundo filho, usa uma pulseira de diamantes da princesa de Gales. Nos olhos sobressai um eyeliner carregado, semelhante ao que Diana usou na entrevista de 1995. Myka Meier, especialista em etiqueta, conta à revista "Glamour" que a maquilhagem usada pela duquesa de Sussex está repleta de intenções: ser "ousada e poderosa". Tal como a mãe de Harry o foi há 26 anos no exclusivo mundial à BBC, explica.

Como em tudo na vida, há coincidências irrepetíveis e o momento das revelações de Harry e Meghan está a ser criticado. O príncipe Filipe, marido da rainha e avô de Harry, permanece hospitalizado após uma operação ao coração. A idade avançada do duque de Edimburgo, 99 anos, e a saúde débil levaram alguns especialistas a aconselhar o adiamento da transmissão. "Acho que seria uma reviravolta maravilhosa para a imagem de Harry se ele desse o passo corajoso de cancelar tudo neste fim de semana - ou, se isso não for prático, adiar pelo menos", disse Robert Lacey, consultor histórico da série da Netflix "The Crown", citado pelo jornal "The Independent".

Num outro prisma, na mesma semana em que foram revelados excertos "chocantes" da entrevista, Meghan Markle foi acusada de assédio moral por um antigo funcionário, durante o período em que foi membro da família real, em 2018. Numa postura surpreendente, o Palácio Buckingham emitiu uma declaração a dizer que estava "muito preocupado" e comprometeu-se a "examinar as circunstâncias" reveladas pelo jornal "The Times". A equipa da duquesa respondeu que Meghan estava "triste" com mais um ataque feito contra si.

O clima de "guerra aberta" não se esvaneceu. Se o visual da norte-americana deu nas vistas na entrevista com Oprah Winfrey, os brincos que usou em dois eventos há dois anos deram também que falar na última semana. A duquesa de Sussex terá utilizado joias oferecidas por Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, apontado num relatório da CIA como o responsável máximo do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. O debate voltou a recentrar-se em Meghan, cujos advogados explicaram que não tinha conhecimento do caso na altura, nem provavelmente saberia de quem era aquela prenda.

Mas, esta semana, houve uma vitória para a duquesa. Além de ganhar o caso em tribunal contra o "Mail on Sunday" em fevereiro, que publicou parte de uma carta que enviou ao pai em 2018, Meghan terá direito a uma referência na primeira página do jornal, provavelmente na próxima segunda-feira. A direção do periódico deverá retratar-se do caso. A ex-atriz recebeu ainda mais de 500 mil euros como pagamento provisório pelos custos judiciais com o processo.

Para o casal Sussex, o "timing" foi tudo nesta última semana, mas a prova dos nove deverá ser tirada na entrevista exclusiva de domingo a Oprah Winfrey. Os especialistas temem o pior. "O que eles revelarem vai definir a sua relação com a família real no futuro próximo", diz Richard Fitzwilliams ao "The Independent". Mas já há sentenças menos felizes: as entrevistas à realeza "muito raramente acabam bem", conclui.

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