Um abalo sísmico que não mereceu notícia teria precipitado o que já se sabe que pode acontecer: as arribas algarvias são zonas de risco por definição. Os pontos negros cobrem quase um terço da costa e têm exigido grandes obras.
Há uma semana, uma equipa da Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Algarve esteve no local da derrocada de ontem na Praia Maria Luísa, Albufeira, e nada detectou, assegurou ao JN o secretário de Estado do Ordenamento do Território, João Ferrão.
O que aconteceu entretanto? A presidente da ARH, Valentina Calisto, admitiu aos jornalistas que um sismo registado há quatro dias poderia ter sido a causa próxima. Teria acontecido, assim, uma rotura por fissuração de um sistema geológico que a literatura sobre erosão costeira define como frágil por definição.
Mas poderia ter sido por outras razões: a erosão da base da arriba, até que parte superior se desprende; um forte ataque do mar; chuvas intensas; sobrecarga do topo com construções e impermeablização.
É assim em boa parte da costa algarvia, cujo risco está avaliado e cartografado. Há uma década que a carta de risco do litoral elaborada pelo Instituto da Água, tida em conta no plano de intervenção no litoral 2007-21013 através de grandes obras e nos planos de ordenamento da orla costeira, identificou os pontos negros.
Da foz do Minho à do Guadiana, 28,5% dos 1187 quilómetros de linha de costa, segundo uns autores, e 32% segundo outros, estão atingidos de forma significativa pela erosão. Um problema que também aflige a Europa, onde um quinto da fronteira com o mar (dados de 2004, com 25 membros) estava acometido pelo fenómeno, que avançava à razão de 0,5 a dois metros por ano em média.
O processo atingia mais profundamente os troços arenosos do Norte e Centro do país, com recuos da linha de costa da ordem de um metro por ano, chegando aos 20 metros por ano em Esposende. Previu-se mesmo um avanço do mar de 250 metros numa década entre Vagueira e Mira.
Nos troços rochosos, até em formações mais frágeis como os arenitos algarvios o recuo é menor. Uma "reflexão" do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável cita um estudo de 2000 que refere uma taxa de recuo de 17 centímetros por ano na linha do topo das arribas entre Olhos de Água e Quarteira. Mas se a arriba desliza ou cai, o recuo é pior.
Esposende, Esmoriz, Mira, Nazaré, Costa da Caparica, Sesimbra, Santo André, Azambujeira do Mar, Odeceixe, Burgau, Lagos, Albufeira, Falésia, Vale do Lobo, Fuseta e Barril estão na geografia do risco (infografia) que implica vultuosos investimentos. Só em 2008, foram investidos 7,57 milhões de euros.
