Pedrógão Grande

No chamado pinhal interior quase só havia eucaliptos para arder

No chamado pinhal interior quase só havia eucaliptos para arder

A Quercus e o presidente da Liga dos Bombeiros criticam o ordenamento florestal português, das leis que não saem do papel à aposta no eucalipto, numa região conhecida ironicamente como pinhal interior.

A associação ambientalista Quercus lamentou o "total laxismo" das autoridades em relação à política florestal e considerou que são precisas tragédias como o incêndio de Pedrógão Grande para que os políticos se lembrem disso.

"O Governo promete uma reforma florestal e a revogação da chamada lei do eucalipto e continua na mesma, isso é triste", afirmou à Lusa João Branco, presidente da Quercus.

Engenheiro florestal de profissão, João Branco recordou que este ano foi aprovada uma reforma florestal, que "até teve um efeito perverso" com a promessa de o Governo acabar com a lei da liberalização do eucalipto, o que provocou "uma corrida" a esta espécie.

Segundo o dirigente ambientalista, só no passado inverno foram vendidas mais de três milhões destas plantas, que são altamente inflamáveis e combustíveis, e cujas folhas e cascas podem ser projetadas em condições de incêndio e iniciar novas ignições a centenas de metros.

O presidente da Quercus destacou que o grande incêndio de Pedrógão Grande aconteceu justamente em grandes manchas de eucaliptal desordenado, numa região conhecida ironicamente como pinhal interior, e de fraca gestão, em que os proprietários só lá voltam basicamente para cortar.

O "emparcelamento" da floresta pode ser uma forma de evitar situações como esta no futuro, defendeu o presidente da Liga Portuguesa de Bombeiros, Jaime Marta Soares. "Para prepararmos uma floresta, com um mosaico florestal, com espécies autóctones, com linhas corta-fogo, temos de emparcelar", afirmou, em declarações à agência Lusa.

Antigo presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares, Marta Soares salientou que os problemas da floresta estão a montante e que não se trata de "pôr em causa a propriedade privada, que essa é sagrada na Constituição Portuguesa", mas que é preciso "fazer ver às pessoas que o coletivo tem de se sobrepor ao individual, doa a que doer".

"Isto é um problema cultural, há que criar uma nova cultura que leve as pessoas a entender que isto não pode acontecer, porque agora não são só os bens materiais, perderam-se vidas humanas, o país está mais pobre, o país está a chorar, o país está a sofrer", frisou Marta Soares.

Para Jaime Marta Soares será, no entanto, indispensável fazer uma "profunda reflexão" sobre o estado da floresta, deixando o desafio para que, após o período de combate às chamas e de assistência às populações, se pare "para pensar".

Outra associação ambientalista, a Zero, também lamentou a tragédia de Pedrógão Grande, alertando que fenómenos como aqueles que parecem ter contribuído para este incêndio terão mais condições de se replicar no futuro.

"Num período de alterações climáticas, que tende a propiciar estas ondas de calor, estes fenómenos vão ser mais frequentes", referiu Paulo Lucas, dirigente da Zero, assinalando igualmente que se trata de uma região acidentada e de floresta desordenada, maioritariamente de eucalipto, à semelhança de muitas outras no interior do país.

A Zero defende, no entanto, que a maioria dos mecanismos de política florestal já existem, embora se pudesse ter ido mais longe na última reforma, nomeadamente na gestão comum da propriedade, ou na capacidade de resposta de pequenas aldeias, isoladas em manchas florestais, através da instalação de bocas de incêndio, "porque os bombeiros não conseguem estar em todo o lado".

"Uma reforma florestal não se faz de um momento para o outro, leva tempo, mas há medidas simples que podem ser adotadas", segundo Paulo Lucas, a propósito de "imagens de pessoas a fazer frente a fogos com mangueirinhas e que acabam por perder os seus bens, o que é perfeitamente lamentável nos tempos que correm".

A questão não é nova, assinala, e já no ano passado se discutiu a política florestal no seguimento dos incêndios do Caramulo e Funchal, e também com vítimas mortais.

João Branco disse, ainda, desconhecer o número de municípios que adotaram a legislação da defesa da floresta contra incêndios e, desses, quantos a cumprem, observando que a Quercus apresentou uma queixa à Procuradoria-Geral da República em 2013 sobre este assunto, que foi arquivada.

Recomendadas

Conteúdo Patrocinado

Outros conteúdos GM