Mariana Mortágua

Terapia de choque

A Turquia não será a mesma depois deste referendo. Quem o disse foi Erdogan, que agora verá os seus poderes reforçados. Com uma margem mínima, e sob a sombra de várias irregularidades, o presidente ganha agora poder sobre o Exército e os tribunais e reduz o Parlamento a um acessório. Tudo em nome da estabilidade e do combate ao terrorismo. Argumentos também utilizados para justificar a vaga de prisões e perseguições depois da tentativa de golpe militar em 2016.

Mariana Mortágua

O direito à reforma para quem não teve infância

Dijsselbloem não compreende porque se ofendeu tanto Portugal com as suas considerações preconceituosas sobre "copos e mulheres". Não compreende porque não lhe interessa a história da nossa gente. Porque ignora que, em Portugal, a pobreza sempre foi o produto de longas jornadas de trabalho por muito pouco salário. Não sabe nem quer saber que já em 1964 um operário do fabrico de telhas ganhava em Portugal seis vezes menos que na Holanda.

Mariana Mortágua

Se o Novo Banco fosse um telemóvel

Imagine que tem um telemóvel sem saldo e neste momento não quer gastar dinheiro a carregá-lo. Imagine que aparece alguém e lhe propõe o seguinte: "Olhe, eu faço um carregamento de 100euro, mas fico com o aparelho para mim. Você terá ainda de carregar com mais 300euro quando estes 100euro se gastarem. Em troca, fica com o direito de controlar algumas das minhas chamadas, para saber que eu não gastei tudo muito depressa". Parece-lhe um bom negócio? Pois foi, grosso modo, o negócio que o Lone Star fechou com o Governo para a compra do Novo Banco.

Mariana Mortágua

Insuficiências

Queriam que ficássemos mais pobres, e o país empobreceu. Queriam-nos mais flexíveis, mais baratos, e o país criou o seu batalhão de precários quinhentos-euristas. Queriam-nos mais dóceis, e o país aguentou. Aguentou a troika e o Governo Passos/Portas. Aguentou o ataque aos salários, os impostos e a humilhação. Porque em terra de cristãos a culpa não morre solteira, a preguiça é um pecado e os povos honrados pagam sempre as suas dívidas. Ou assim nos foi dito.

Mariana Mortágua

Rendas da energia mais garantidas que a primavera

É março. E todos os anos, por volta desta altura, ficamos a saber quanto lucrou a EDP e ainda quanto deu a ganhar ao seu presidente, António Mexia. Apesar da indignação, também há quem sempre se apresse a justificar os valores absurdos: Mexia merece ganhar mais de 2 milhões de euros porque a EDP lucrou 961 milhões em 2016 e distribuiu, em dividendos, 670 milhões. Tudo corre bem. Porque havemos nós de embirrar com o salário de um gestor tão bem sucedido?