Justiça

Dono do açúcar que GNR disse ser cocaína não vai ser julgado

Resultado de teste rápido da GNR foi contrariado pelo teste feito no Laboratório da PJ Arquivo

Juiz de instrução rejeita pedido do Ministério Público e não leva a julgamento homem que esteve em prisão preventiva durante oito meses.

O Tribunal de Torre de Moncorvo decidiu, na quinta-feira, não mandar para julgamento o arguido Manuel Lourenço Gomes, de 46 anos, que esteve preso preventivamente entre 31 de maio do ano passado e 27 de janeiro deste ano, por ter sido apanhado pela GNR com um pó branco que os militares julgaram tratar-se de cocaína. Mais tarde, as análises laboratoriais da Polícia Judiciária (PJ) indicaram que o pó branco era, afinal, açúcar.

A decisão do debate instrutório foi conhecida ontem, tendo a juíza decidido pronunciar os restantes sete arguidos envolvidos no processo, por um crime de tráfico de estupefacientes, mas deixando de fora Manuel Lourenço, face aos resultados das perícias e análises que afastaram completamente a teoria de que os pacotes com 40 gramas de pó eram de açúcar, que o homem transportava no porta-luvas por ser diabético.

Durante a instrução foi ouvida uma perita, do Laboratório de Polícia Científica da PJ, que confirmou ter recebido o pó branco a 8 de julho, mais de um mês depois da detenção de Manuel Lourenço. A especialista disse que "não encontrou nenhuma anomalia" quando o produto lhe chegou" e que este não estava alterado. Também salientou que o teste usado pela GNR "é fiável", mas é meramente indicativo, porque se baseia na mudança de cor e não tem a mesma sensibilidade que os testes periciais.

A especialista afirmou ainda que é comum os resultados dos testes rápidos e os laboratoriais serem diferentes. Os testes usados no laboratório da PJ identificam a substância em causa.

MP e juiz não desarmaram

João Peres, o advogado do arguido Lourenço Gomes, comentou que o desfecho só podia ser a não pronúncia do cliente, uma vez que as "análises comprovaram que [o pó branco] não era droga e uma perita explicou isso em tribunal". Manuel Lourenço, residente em Verín, Espanha, foi intercetado pela GNR em Torre de Moncorvo, no dia 31 de maio de 2022, tendo-lhe sido apreendido um pó branco que tinha no porta-luvas do carro. Os militares suspeitaram que era estupefaciente e, para confirmar esta hipótese, submeteram o condutor a um teste rápido, comprado numa farmácia, que reagiu positivamente, mudando de cor.

Os militares acreditaram estar na presença de cocaína e Lourenço Gomes, ouvido por um juiz, foi sujeito à mais pesada das medidas de coação. Só seis meses depois, a 11 de novembro, o Laboratório da PJ revelou que, afinal, era só açúcar. Apesar disso, tanto o Ministério Público (MP) como o juiz de instrução criminal de Torre de Moncorvo negaram a libertação de Manuel Lourenço, que continuaram a considerar suspeito de integrar a rede de tráfico transmontana, juntamente com os restantes arguidos, cinco homens e duas mulheres.

De resto, no debate instrutório, o Ministério Público pediu, sem sucesso, que fossem pronunciados, para julgamento, os oitos arguidos acusados de tráfico.

Glória Lopes