Arte do Dia

Eunice Muñoz: 80 anos de Teatro, a panaceia da Diva

Eunice Muñoz: 80 anos de Teatro, a panaceia da Diva

Há histórias que começam com um golpe de sorte. Em 1941, Amélia Rey Colaço, diva do teatro, fez saber na capital que precisava de uma miúda para contracenar com ela em"O Vendaval", no Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa. A miúda escolhida tinha apenas 13 anos e chamava-se Eunice Muñoz. A atriz subiria pela primeira vez ao palco no dia 28 de novembro de 1941. No mesmo dia, 80 depois, a atriz regressou ao mesmo palco.

"A Margem do Tempo", um texto escrito pelo alemão Franz Xaver Kroetz e encenado por Sérgio Moura, tem como protagonista Eunice Muñoz acompanhada pela neta Lídia Muñoz a testemunhar a passagem do tempo. Ontem esteve no Teatro Nacional Dona Maria II, mas a digressão do espetáculo continua com datas em janeiro e em abril.

"Esta homenagem deixa-me muito feliz. Faz-me sentir que tudo o que passei valeu muito a pena", afirma a atriz ao JN, agora no alto dos seus 93 anos. Apesar de, como explica, "o teatro ser a sua vida", quando começou a atuar, aos cinco anos, nos espetáculos dos seus pais, Mimi Muñoz e Hernâni Cardinali Muñoz, fazia-o "contrariada".

No Dona Maria aprendeu a ser atriz com os grandes nomes do teatro português: Francisco Ribeiro, o "Ribeirinho", um "mestre inimitável", e Amélia Rey Colaço, com quem também "aprendeu a andar com vestidos compridos". Seguiu-se o Conservatório Nacional, que terminou com 18 valores.

Aos 23 anos decidiu parar, entendia que "já tinha muitos anos de teatro". Foi trabalhar para uma empresa de cabos de telefone. Nessa época já era "figura de cartaz", já tinha trabalhado em cinema e já tinha ganho o prémio do Secretariado Nacional de Informação para a Melhor Atriz de Cinema, com o filme "Camões" (1946), de Leitão de Barros.

Quatro anos depois, regressa aos palcos com "Joana D" Arc", de Jean Anouilh, no Teatro Avenida. "Sempre fui muito estimada pelo público", orgulha-se. Viveu a censura nos tempos da ditadura e diz ter tido a vida "manietada" com papéis que não lhe foi permitido "realizar no tempo certo". Só depois da revolução do 25 de abril de 1974 regressa ao Teatro Nacional.

Mas nunca deixou de ser notícia, sobretudo por causa do salário, "o mais alto de uma atriz dramática: ganhava 30 contos por mês".

FINTAR O TEMPO

PUB

De todas as peças que representou ao longo da vida, "Mãe Coragem" de Bertolt Brecht, encenada por João Lourenço em 1986, é a sua favorita. Contracenava com Ruy de Carvalho. A criação venceu, nesse ano, os prémios Secretaria de Estado da Cultura para melhor espetáculo, melhor produção, melhor encenador, melhor cenógrafo e melhor atriz. No "Diário de Notícias" foi publica uma recensão que deixava um aviso sobre a prestação de Eunice Muñoz: "é um pecado cultural não ir vê-la".

Outra papel marcante foi "Zerlina" do austríaco Hermann Broch, com encenação de João Perry. A encenação foi uma das escolhidas por Eduardo Paz Barroso, ex-diretor da Teatro Nacional São João na exposição 100 anos, 100 atos.

Na vida real, teve três maridos: um arquiteto de quem teve uma filha; um engenheiro de quem teve quatro filhos e um poeta de quem teve outra filha. Sempre fui mulher de paixões".

Aos 65 anos, o que seria uma idade de reforma estreou-se nas telenovelas, com"A banqueira do povo". Seguiu-se uma carreira fulgurante, também na televisão.

"Muito mudou no teatro desde o tempo em que fiz o meu repertório. Não é mau, é o progresso."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG