1938-2021

O adeus esperado a Raoul Cauvin

O adeus esperado a Raoul Cauvin

Autor criou dezenas de séries para a revista "Spirou", entre as quais "Os Túnicas Azuis"

O argumentista belga Raoul Cauvin morreu aos 82 anos. A notícia foi divulgada pela editora: "É com enorme emoção que comunicamos o falecimento, a 19 de agosto, de um dos maiores homens do mundo da banda desenhada".

Um anúncio que chegou sem surpresa, pois o autor belga tinha anunciado em Maio último que lhe tinha sido diagnosticado um cancro incurável: "Mais alguns meses de vida, antes de me reunir, lá em cima, com aqueles que me precederam", escreveu então no seu blogue.

Nasceu a 26 de Setembro de 1938, em Antoing, na Bélgica, cidade que em abril último
inaugurou uma praça em sua honra, decorada com alguns dos seus heróis, estudou durante cinco anos litografia publicitária no Institut Saint-Luc de Tournai, para depois descobrir que essa profissão já não existia, o que parecia um dos seus futuros gags em banda desenhada.

Entre diversas profissões, trabalhou numa fábrica de bolas de bilhar, o que lhe deixou para sempre uma paixão por este jogo, acabando por ser contratado pelas edições Dupuis em 1960, não ainda como autor de BD, mas sim para desenhar as grelhas de palavras cruzadas e legendar as obras dos seus futuros colegas e, mais tarde, como cameraman no estúdio de animação da editora.

Após diversas tentativas, em 1964 viu aprovados os seus primeiros argumentos para histórias curtas, mas foi só em 1968 que deu os primeiros passos que fizeram dele o grande sustentáculo da revista "Spirou" ao longo das últimas décadas.

Depois de escrever gags para autores como Ryssack, Serge Gennaux, Claire Bretécher (que haveria de receber muitos anos depois o Grande Prémio de Angoulême) ou até o português Carlos Roque (como quem assinou "Angélique" e "Vlaimyr"), nesse mesmo ano criaria a sua série mais famosa: "Os Túnicas Azuis", desenhada por Salvérius que, falecido em 1973, foi substituído por Willy Lambil.

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Ambientada na Guerra da Secessão norte-americana, aborda o conflito e muitos dos seus acontecimentos históricos sob o ponto de vista do humor, não esquecendo nunca o seu lado trágico. "Os Túnicas Azuis", com cerca de 20 álbuns editados em português, pela Edinter e a ASA, é a sua série mais divulgada entre nós. O último álbum assinado por Cauvin, o 64.º, "Oú est donc Arabesque", foi lançado em Abril último.

Conhecido pelo "senhor sofá", pois considerava esta peça de mobiliário, que tinha em
diversas divisões da sua casa, como "um instrumento de trabalho" em que dava livre curso à sua imaginação, desenvolvendo e escrevendo as suas ideias, uma vez que era "incapaz de pensar sem estar estendido", teve também publicados no nosso país, em álbum e/ou revista, episódios de "Cédric" (sobre as peripécias familiares e escolares de um miúdo de 6 anos, desenhado por Laudec), "Agente 212" (sobre um polícia desajeitado, com Daniel Kox), "Cupido" (que versa sobre os êxitos e fracassos do arqueiro do amor, com Malik), "Sammy" (um gangster no tempo da Lei Seca, com arte de Berck), "Pedro Campas" (acerca do quotidiano de um...coveiro!, com Marc Hardy), "Os Batas Brancos" (em ambiente hospitalar, com Bercovici), "Os Toiotes" (reflexão sobre uma sociedade de ratos, pós-tragédia nuclear, com Carpentier), "Os Psicos" (nos meandros da psicologia, com Bédu) e até "Spirou e Fantásio" (com Cauvin).

Esta imensa heterogeneidade temática, onde se poderiam incluir igualmente séries como "CRS = Détresse" (sobre elementos da polícia de choque, com Achdé) ou participações em"Boule e Bill", "Natacha" ou "Jess Long", entre outros, valeram-lhe uma carreira longa de quase 60 anos de escrita para banda desenhada e centenas de álbuns publicados com vendas superiores a 15 milhões de exemplares, sendo que muitas das suas séries têm já ou terão continuidade por outros autores.

Entre as suas criações, especialmente agora, ganha relevo "Pauvre Lampil", uma genial
reflexão sobre a criação de banda desenhada e a incompreensão generalizada sobre as vicissitudes do meio, em gags protagonizados por ele próprio e pelo desenhador Willy Lambil.

Seria na última página desta série, há alguns anos, que assinaria um gag premonitório, ao afirmar que os fãs que se amontoavam à sua frente em busca de autógrafos um dia iriam atrás do seu carro funerário.

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