Entrevista

Recreio: "O filme é uma metáfora do mundo dos adultos"

Recreio: "O filme é uma metáfora do mundo dos adultos"

"Recreio" é uma esplendorosa, mas altamente perturbadora, primeira obra. O JN entrevistou a sua realizadora, a belga Laura Wandel.

Venceu o Prémio da Crítica de Cannes, onde estreou mundialmente na secção Un Certain Regard e foi o pré-candidato belga aos Oscars. É a primeira longa-metragem de Laura Wandel e vai direitinha para as grandes obras cinematográficas sobre a infância.

"Recreio" ("Un monde", no original) acompanha Nora, uma menina de sete anos, que vai para a escola com o irmão mais velho. Mas quando parecia ser este a tomar conta dela, é Nora quem vai ter de proteger o irmão de um grupo de rapazes que o assediam.

O filme estreou esta semana em Portugal e o JN falou com a realizadora.

O seu filme é sobre a infância, mas parece querer falar-nos do mundo adulto. É assim?

De uma certa forma, é uma metáfora do mundo dos adultos: há o jogo dos territórios, a necessidade de se integrar, de ser reconhecido. Problemáticas que afligem os humanos, crianças ou adultos. Queria que o meu filme fosse um espelho do mundo, de uma forma global.

Foi por isso que chamou ao filme "Un Monde"?

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Não era esse o título inicial, que era mais abstrato. O filme evoluiu, durante a montagem, e fui sentindo que o título não era bom. Mas não conseguia encontrar o título certo, até que me apareceu num sonho. Tornou-se evidente. Mas é verdade que tive alguma dificuldade em convencer o meu produtor e o meu distribuidor.

O que é que questionavam?

Perguntavam-me: um mundo de quê? Mas é precisamente isso que é belo. Pode ser tantas coisas. É tão vasto, é o nosso mundo. Apesar de estarmos sempre fechados naquela escola.

Está de acordo com o título português, "Recreio"?

É pena, é como o título inglês, "Playground". Mas compete aos distribuidores saber o que é melhor para dialogar com o seu público. A certo ponto é preciso deixar o filme viver a sua própria vida.

O seu filme mostra alguns jovens que, apesar da idade que têm, demonstram já alguma forma de crueldade...

Para escrever o filme passei bastante tempo no recreio de escolas e a falar com professores. E com um psiquiatra, especialista em violência na escola, que afirma que uma criança que é violenta é uma criança em sofrimento. Que a sua violência é sempre uma reação a qualquer coisa. Que tem uma ferida ainda não foi reconhecida e que a violência é a única maneira de manifestar qualquer coisa que não está bem consigo.

Concorda com essa teoria?

Tenho a impressão que é a mesma coisa para os adultos. Mas penso que a bondade é instintiva. E o que se passa no filme é um regresso a essa bondade instintiva que temos dentro de nós. Todas aquelas crianças estão ligadas pelo mesmo medo, o da exclusão.

No filme há também o grupo dos rapazes e o grupo das raparigas, bem separados.

Tentei mostrar a violência física mas também a violência verbal, mental. Mas fiquei com a impressão de que só mostrei a violência física nos rapazes. De qualquer forma, não quis categorizar claramente rapazes e raparigas. As raparigas também podem ser tão violentas como os rapazes.

A personagem do pai é muito interessante, mas não sabemos muito bem o que se passa com ele...

Quis mostrar um pai inquieto, o que é normal, que não sabe como agir com os seus filhos. A situação escapa-lhe completamente, porque os filhos não lhe contam nada, têm medo da reação dele. Mas não sabemos se está desempregado, são as outras crianças que dizem a Nora que o pai não trabalha, porque está a aparecer a toda a hora.

A mãe é uma personagem completamente ausente...

Não se sabe, pode estar desempregada, pode estar em casa. Mas não quis dar respostas. Detesto dar respostas, gosto que o espectador possa construir a trama que lhe apetece. E que possa participar na narração, é muito importante para mim. Quando não sabemos as coisas vamos mais rapidamente aos estereótipos. As coisas são muito mais complexas do que pensamos.

Para filmar sempre à altura do olhar de Nora utilizou um dispositivo fílmico que deve ter sido complicado de pôr em prática.

Desde o início que decidi que a câmara deveria manter-se sempre à altura das crianças. Queria transportar o espectador para o olhar das crianças, o que é ver o mundo a essa altura. O diretor de fotografia tinha a câmara à altura da cintura e era ele que acompanhava a Maya, era ele que se tinha de adaptar à atriz. Não eram eles que se tinham de adaptar a nós, mas nós a eles. O dispositivo era simples, mas o trabalho complicado, por exemplo ao nível do foco. Foi uma proeza impressionante.

Não se pode falar do filme sem falar de Maya. Como é que a descobriu?

Pusemos um anúncio na internet. Vimos 200 crianças. Quando ela chegou, tinha sete anos, disse-me que ia dar toda a sua força ao filme. Creio que ela tinha vontade de defender qualquer coisa também. No casting não pedi para fazer nenhuma cena, apenas lhe pedi para me mostrar como é que brincava no recreio. Queria ver como é que funcionava com a câmara e é verdade que tem uma fotogenia impressionante.

Em que período do ano filmou?

Filmei nas férias de verão, durante 25 dias. Filmei numa escola secundária, fizemos vir crianças de várias escolas, muitas das quais nem sequer se conheciam.

Dizem que trabalhar com crianças é sempre complicado. Como é que trabalhou com este grupo?

Começámos a trabalhar muito antes com as personagens principais. Não lhes dei o guião a ler, não queria que fosse uma coisa recitada, queria que se apropriassem do filme. Trabalhámos todos os fins de semana durante quatro meses antes de filmar, Como nunca tinham representado, o que lhes pedi para começar foi criar a marioneta das suas personagens. Para que compreendessem que não eram eles, mas sim personagens.

Incluiu no guião muitas das propostas deles?

Fui-me apropriando de muitas coisas que eles propuseram para a escrita do guião final, sim. Dávamos-lhes o início da cena e perguntávamos o que pensavam que as suas personagens fariam. Isso permitiu que falássemos da violência na escola, da relação com os outros. E propus-lhe que desenhassem todas as cenas num caderno. Na rodagem permitia-lhes recordar o que tinham feito, mas de forma lúdica.

Em que filmes se inspirou para criar a sua história?

O "Ponette", do Jacques Doillon, era evidente. Aliás, mostrei-o à Maya. Também mostrei "O Miúdo da Bicicleta", dos irmãos Dardenne. É claro que há "Os 400 Golpes", mesmo que a personagem seja mais velha. E também me lembre de "O Balão Branco", do Jafar Panahi, todo sobre o ponto de vista de uma criança. É verdade que há filmes extraordinários sobre o universo das crianças.

Como é que foi passar da curta à longa-metragem?

Não foi fácil. Demorei sete anos a fazer o filme. O que foi complicado foi o financiamento, o que é normal e compreendo, era um filme sobre o ponto de vista de uma criança e de onde nunca se sai de uma escola. E sem estrelas. Pode fazer medo. Mas ou era assim ou não era. Não podia ser de outra maneira. Tivemos um orçamento minúsculo, tivemos de alterar datas de rodagem, mas o importante é que o fizemos.

Como foi a estreia em Cannes?.

Sinceramente, a primeira projeção em Cannes foi o momento mais bonito da minha vida. Ainda por cima tivemos de esperar um ano, porque o confinamento veio logo a seguir ao último dia da pós-produção. Pensei que este filme nunca ia ser visto, depois de sete anos de batalha.

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