
"Fugacidade", o álbum vindouro de Janeiro, contará com vários convidados e inclui uma versão de "Estou na lua"
Daniela Gandra
"Oh meu amor" mostra a nova disposição do cantor: sem compromissos com a indústria e apostado em sorver um caldeirão de influências.
Janeiro quis quebrar todos os loops da sua vida e, no início do ano, trocou Lisboa por Melides, os ciclos previsíveis pela incerteza, e todas as amarras profissionais pelo "poder de falar livremente". O primeiro resultado desse grito do Ipiranga é "Oh meu amor", tema onde convoca uma miríade de interesses musicais e que antecipa o seu terceiro álbum de originais, "Fugacidade", que será lançado em 2022.
"Sentia-me com as asas cortadas, sem poder estabelecer trocas energéticas com o público", começa por explicar o cantor, para quem os confinamentos serviram também para concluir que estava farto de cidades: "Tornaram-se antros de frequência baixa, onde existe um movimento perpétuo com que já não me identifico". Janeiro está também numa idade - 26 - em que começa a adivinhar outro ciclo: "Sair de casa dos pais, pedir um empréstimo, comprar casa, casar, ter filhos, divorciar-me, etc.". E de tudo isso se quis livrar: "É importante ter consciência de que há várias formas de viver, não somos obrigados a seguir nenhum padrão". Para completar a libertação, o cantor desfez-se de todos os compromissos com editora e manager e lançou-se, com total independência, ao seu desejo de "expandir processos e formas de expressão".
Liberdade e partilha
Para realizar esse desejo escolheu Melides e as suas paisagens de dunas, lagoas e pinhais, onde tinha já produzido, em 2020, o álbum "Com tempo, sem tempo", que se divide em duas abordagens - uma acústica, outra eletrónica - ao mesmo lote de canções. Instalou o estúdio em casa e fundou a produtora Dali2 com a companheira Daniela Gandra, fotógrafa e videógrafa: "O nome remete para a ideia de sermos uma potência ao quadrado, mas também para o interesse pelo surrealismo e abstracionismo", diz o cantor. Que assegura agora um controlo (quase) total sobre a sua arte - "ninguém controla totalmente", reconhece -, podendo assumir uma diversidade de gostos e registos que eram contrariados por uma tendência à "standardização que o mercado impõe": "É preciso desconstruir certos modelos e encarar a arte como ato transformador. Porque é que um cantor não pode rapar e estar no meio de uma orquestra no mesmo tema? Artistas como Frank Ocean ou Tyler, The Creator já mostraram que não existem barreiras, o importante é o que se sente e encontrar o melhor recurso para o exprimir".
Em "Oh meu amor", tema que poderá ser um belo sorvete para este verão, Janeiro preenche o que era a habitual ossatura acústica dos seus temas com camadas de bossa nova, jazz e sons da lusofonia, num embrulho que dedicou à companheira. Daniela realizou o vídeo onde se alude à passagem de Janeiro pelo Festival da Canção, em 2018, como compositor convidado por Salvador Sobral. Na época ficou famosa a banana que mastigava durante uma entrevista, agora veem-se cachos a boiar numa piscina.
Outro aspeto que irá marcar "Fugacidade", que se encontra adiantado a 70%, será a partilha com outros músicos, "de modo a contrariar o espírito competitivo que é também criado pelo mercado". Haverá colaborações de André Viamonte, Artéria FM, Edu Mundo ou Cauê Nardi. E versões de temas como "Pequena flor", dos Entre Aspas, e "Estou na lua", d"Os Lunáticos. Janeiro considera a sua música "frontalmente pop" e não vê contradição entre o desejo de ascender ao mainstream e a possibilidade de uma "carga lírica, harmónica e melódica sem concessões".
