
"Um autor não enfiou uma máscara de ferro que o obriga a ser epígono de si mesmo"
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Na segunda e última parte da entrevista ao "Jornal de Notícias", José Emílio-Nelson reforça a sua intenção de "desafiar o cânone, numa negação, num "devir permanente" através de uma poesia na qual a designada "Estética do feio" é um dos eixos centrais.
Com um novo livro prestes a ser lançado na Feira do Livro de Lisboa, José Emílio-Nelson olha para o seu longo percurso poético, iniciado ainda na década de 1970, com um estado de espírito que, convocando a estranheza e a familiaridade, resume a "um processo contínuo de interpelação".
Atento "à extraordinária presença da poesia portuguesa nos catálogos editoriais", afirma-se indiferente à maior representatividade da "sua "Estética do Feio" na poesia contemporânea e afirma que mantém firma a vontade de "desafiar o cânone".
O que acredita que os anos trouxeram à sua escrita e sobretudo à sua poesia?
Sobre o que os anos me trouxeram e o que me retiraram, lembrado de Montaigne, diria que a experiência tardia trouxe o maior domínio filológico, mas não corrigiu, nem desmerece a desmesura dos primeiros livros feros. Não será de estranhar que um poema acabe por ser um corpo estranho comparando-o com o que se leu no passado, com o que já foi dito pelo autor, num processo contínuo de interpelação, de forçoso acabamento, mantendo a toda a diferença como uma semelhança que surpreenda, de acordo com a estética barroca. Neste contexto, cumpri, o que Pedro Serra designou como "poesia cum filologia", e Hugo Pinto Santos como "lugar de reposição, de releitura e de rejeição".
O que vê quando olha para a poesia portuguesa de hoje?
Verifica-se, atualmente, uma extraordinária presença da poesia portuguesa nos catálogos editoriais, que edita, indiscriminadamente, poetas e versejadores. Há leitores mais resistentes à estranheza observada no poema, outros haverá mais sensíveis, mais propensos a confrontarem-se com aparecimento da fascinação. Neste contexto, torna-se evidente que a poesia editada não se concretiza em maneiras únicas de escrita, antes num processo criativo plural que, por vezes, revela a ostentação de uma ausência de toda a espécie de tensões, de hostilidade com o bom senso e o bom gosto, digamos assim. Nota-se nuns poetas a subjetividade mais acentuada, anti-dionísiaca, noutros a personalização da poesia, ao contrário de Baudelaire, e há quem não privilegie a imaginação, em ignorância a Rimbaud. Noutros poemas lemos o acentuar da poesia de circunstâncias, poesia do real, e simultaneamente casos híbridos, com enfoques emaranhados que não escapam à matriz de influências as mais diversas.
Tem estado particularmente ativos em termos de publicação nos últimos anos. O impulso criativo está mais ativo do que nunca?
O triunfo do tempo é uma evidência em todas as etapas da nossa vida. Vivemos um tempo normal e corrente ou num tempo linear, sem atividade, entrópico. Temos momentos de um estado de inércia e, raramente, demasiadamente raro, um tempo especial, de epifania, com o fulgor que se deseja que ocorra.
A escrita surge muitas vezes no "momento abandonado dentro e fora do tempo", se bem me lembro, na expressão de T.S.Eliot. Esse momento abandonado que dispus mais vezes nos últimos anos proporcionou-me escrever mais.
Vários dos seus livros mais recentes estão a ser publicados fora do circuito livreiro tradicional. O meio editorial e livreiro tem dificuldades em lidar com propostas que fujam ao convencional?
As edições dos meus livros a seguir à edição de "Polifonia", edição de autor, em 1979, foram sempre publicadas no circuito comercial, mas sempre em círculos restritos e sem que eu pensasse escrever para esse mercado de escaparates expositores pagos a alto preço, pelo que me dizem. Apesar disso, divulgaram os meus livros editoras de culto (Gota de Água, Abysmo, Nova Mymosa) e editoras profissionais (Afrontamento e presentemente as Edições Esgotadas). Não posso arranjar desculpas com a censura de editores ou livreiros para não ser um poeta laureado como a maioria dos poetas que conheço.
É lícito dizer-se que, depois da reunião em "Beleza tocada", a sua poesia entrou numa fase diferente?
Num escrito de João Albuquerque para a edição de "Então Assim Falo", o ensaísta refere que se verifica uma "importante inflexão" nesse livro, acentuando que embora se mantenham os temas recorrentes, nele acentua-se um pendor metapoético. É uma constatação indiscutível que continuo a prosseguir.
Não me competirá avaliar-me, mas reconheço que há nestes livros diferenças que se notarão a partir de "Caridade Romana" e do díptico: "Putrefação e Fósforo" - "Coração Cru", e do inédito "Antão ou a Prótese de Nazareno". Escrevo outra coisa que não a repetição da que reuni em "Beleza Tocada Obra Poética 19979-2015". Outra coisa, não para que o que escrevo seja menos incómodo, ou que o pareça, mas assim é comum acontecer num progresso de escrita que é, como ensina Julia Kristeva, um processo de absorção e transformação do texto.
Para quem apresenta um percurso literário já tão longo, a figura do(s) mestre(s) continua a fazer sentido?
Sim. Repito-me a responder à questão que alude. Conto, sempre que me entrevistam, que desde miúdo visitei anualmente o Museo Del Prado e menciono "mestres", como Bosch e Goya, da Quinta del Sordo, em Manzanares, e dou ênfase à vinculação a um repertório imagético que contaminou irremediavelmente a minha escrita. Pinturas escatológicas que me deram a lupa para ler outros "mestres" na Música, no Cinema, na Fotografia, na Filosofia, numa genealogia, o ante-texto que a crítica tem assinalado.
A designada "estética do feio", habitualmente subrepresentada, tem ganho maior protagonismo na poesia recente, até através de autores mais "mainstream". Como vê este improvável reconhecimento de uma corrente que tanto lhe diz?
Um autor não enfiou uma máscara de ferro que o obriga a ser epígono de si mesmo. Neste recente "Então Assim Falo" escrevi um poema intitulado "para me purgar [de Karl Rosenkranz] , autor da Estética do Feio, mas porque continuo a desafiar o Cânone, numa negação, num "devir" permanente, continuarei próximo de um conceito alargado da estética do feio que seduz como diz, até os autores mais mainstream.
Quem opta por uma abordagem mais crua da poesia está condenado a uma posição de uma certa marginalidade?
A questão da marginalidade, da sua problemática, é uma interessante questão que muito foi debatida entre nós, nomeadamente por Arnaldo Saraiva. Hoje são outros problemas que pouco se vão debatendo. Sem ser exaustivo, lembro as tentativas de exclusão de autores clássicos nos programas escolares, as edições escandalosamente não acessíveis da Imprensa Nacional, nomeadamente dos clássicos. Veja-se o Camões quanto custa na editora estatal! Em Itália, há anos, comprei a "Divina Comédia" por uma lira. A Imprensa Nacional, segundo a minha opinião, não cumpre políticas de incentivo à leitura. Para responder diretamente à sua pergunta, com algum humor, a minha poesia não está na bolsa, está disponível, pesquise quem a merecer.
