
Olga Roriz
Foto: Direitos Reservados
O GUIdance, festival internacional de dança contemporânea de Guimarães, tem a capacidade de ir buscar os figurões da dança nacional e resgatá-los para o palco. Desta feita foi Olga Roriz, já depois de Rui Horta.
Chovia como se o céu estivesse a ensaiar também. O auditório do Centro Cultural Vila Flor, cheio, recebia cada gota como se fossem aplausos antecipados. Pessoas a pingar, olhos atentos, respirações contidas, prontas para um regresso que não era celebração, mas necessidade.
Doze anos passaram desde "A Sagração da primavera". Em "O salvado", Olga Roriz não volta para provar nada. Volta porque há perguntas que não se resolvem com o tempo, só se tornam mais audíveis. O título é claro e enigmático: "O salvado". O que ficou agarrado, o que se recusou a desaparecer, o que insiste em existir, mesmo quando tudo o resto muda.
No palco, Olga é simultaneamente "velhinha", como se autointitula, e tempestade de vigor. A meio do espetáculo, diz ser uma águia-real: asas invisíveis, olhos de falcão, uma autoridade silenciosa que domina o espaço. E, quando toca guitarra, a vulnerabilidade desfaz-se e sobra a rockstar. Não há contradição, só magia: memória, corpo e irreverência coexistem num mesmo gesto.
Há neste espetáculo referência direta a "Memória", de Apichatpong Weerasethakul. Não pela narrativa, mas pelo tempo escutado de forma radical. Tal como Tilda Swinton, Olga habita um estado de atenção extrema, sempre à espera de algo que pode ou não acontecer. O corpo é arquivo, mapa, campo de ruínas e, ao mesmo tempo, palco de pequenas travessuras.
"O Salvado" não procura novas linguagens nem se apresenta como rutura. É continuidade sem conforto. Um corpo que já atravessou muitas batalhas, interroga-se: o que se consegue salvar de uma vida inteira dedicada à dança? E a pergunta mais incómoda: do que ainda é possível libertar-se, sem dramatizar, mas com humor e ironia?
Silêncios quase infinitos alternam-se com gestos que são tentativas, insistências, vigilância ou pura brincadeira. Nada se fecha, tudo permanece em aberto. E, no meio dessa atenção, surge a leveza inesperada: uma velhinha que se transforma em águia, que toca guitarra como rockstar, que sorri com o tempo e brinca com ele, sem nunca perder o rigor. O rigor de um desenho diagonal de pernas e pés de quem dançou a vida toda.
Quando o espetáculo termina, a chuva continua lá fora. Mas dentro do auditório fica uma alegria estranha e contagiante: mesmo depois da tempestade, ainda há corpo, memória, dança... e uma rockstar que nos ensina que é possível ser, ao mesmo tempo, frágil, feroz e absolutamente viva. Longa vida a Olga Roriz.

