
"Magnificat" da Cie Marie Chouinard
Foto: Direitos Reservados
O Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, esgotou sábado à noite para receber o programa duplo da companhia canadiana de Marie Chouinard, no GUIdance.
O díptico "Magnificat" / "Body Remix Remix", de Marie Chouinard, coloca em fricção duas estratégias coreográficas distintas que, no entanto, partilham uma mesma obsessão: a reinscrição do corpo como território, sensorial e técnico. Se "Magnificat" opera por acumulação, verticalidade e expansão coletiva, "Body Remix Remix" trabalha pela fragmentação, pelo artifício e pela instabilidade do gesto.
Em "Magnificat", a partitura de Bach funciona como matriz estrutural e não como simples acompanhamento. A coreografia organiza-se em grandes massas corais, alternando uníssonos compactos com dissociações internas subtis, onde braços, troncos e cabeças parecem seguir tempos distintos dentro do mesmo compasso musical. A distribuição espacial privilegia eixos frontais e diagonais longas, criando imagens de monumentalidade que evocam tanto a arquitetura sacra como a lógica processional. O vocabulário coreográfico oscila entre extensões amplas, torções abruptas do eixo vertebral e deslocações rápidas que interrompem qualquer ideia de solenidade contínua.
O desenho de luz recorrendo a cicloramas de uma só cor parece relembrar uma estética muito anos 1990, ainda que profundize essa tensão entre o sublime e o terreno. Planos luminosos bem definidos recortam os corpos como volumes escultóricos, alternando zonas de exposição plena com sombras densas que achatam a profundidade do palco. A luz não ilustra a música, mas reage a ela, criando pulsos visuais que amplificam a fisicalidade da partitura. Os figurinos acentuam a leitura anatómica do movimento, permitindo que a atenção se concentre na articulação das linhas e na qualidade do peso, e as douradas espécies de aureólas que envergam na cabeça trazem um cómico efeito de santos aos bailarinos.
"Body Remix Remix" desloca radicalmente o foco. Aqui, o corpo surge como um sistema em permanente negociação com dispositivos externos: muletas, barras, próteses e sapatos de ponta operam como extensões que reconfiguram o centro de gravidade e produzem novas possibilidades, e limites de movimento. O vocabulário coreográfico é descontínuo, feito de impulsos quebrados, suspensões instáveis e trajetórias inesperadas. O gesto parece que nunca se resolve completamente; permanece em estado de ensaio, de tentativa.
A distribuição espacial abandona a frontalidade e explora múltiplos níveis e orientações, criando um palco densamente ocupado, onde diferentes ações coexistem sem hierarquia clara. A música, fragmentada entre Bach e intervenções eletrónicas, reforça essa lógica de colagem, instaurando um tempo não linear que desafia a perceção do espectador. O desenho de luz acompanha essa instabilidade, multiplicando sombras, recortes e zonas de penumbra que tornam o espaço quase táctil.
No conjunto, o espetáculo evidencia a coerência do projeto artístico de Chouinard: uma investigação persistente sobre o corpo como construção cultural e máquina sensível. Entre o ímpeto quase ritual de "Magnificat" e a desmontagem radical de "Body Remix Remix", emerge uma coreografia que não procura harmonia, mas fricção, entre música e movimento, entre técnica e desejo, entre disciplina e excesso.

