
Victoria Beckham com o marido David (à esquerda) e o filho mais velho Brooklyn, e que fez as denúncias contra a família, e a mullher dele, Nicola Peltz (à direita)
Henry Nicholls / AFP
O verniz estalou numa das famílias mais célebres e alegadamente mais perfeitas do mundo mediático: os Beckhams. Acusações de boicote, de controlo e de exposição pública sem controlo eclodiram com estrondo na voz de Brooklyn Beckham, filho mais velho da "designer" e do antigo internacional inglês. Psicóloga explica riscos de exposição mediática, de famílias que não travam quando os filhos crescem e o que pode a lei fazer no sentido de proteger menores e maiores em tempos de redes sociais e comercialização de imagem e narrativas públicas.
Entre acusações e memes, os Beckhams estão sob fogo cruzado após denúncias do filho mais velho, Brooklyn Beckham, de 26 anos, relativas aos pais. Acusações de que os pais Victoria e David tentaram "destruir" a relação com a mulher, Nicola Peltz, de 31 anos, ainda antes do casamento e de revelações de que viveu anos sob escrutínio e narrativas públicas, nem sempre felizes, nas redes sociais controladas pela família caíram no espaço público com estilhaços em todas as direções. "A minha família valoriza a promoção pública e os patrocínios acima de tudo. A marca Beckham vem em primeiro lugar", criticou o filho mais velho num longo post que publicou a 19 de janeiro.
Revelações que caíram que nem uma bomba, que não admitem, por parte do primogénito e nos tempos futuros, reconciliação e que destacam o papel dos pais com exposição mediática, na qual os filhos estão incluídos, e com implicações ao longo de toda uma vida.
A mãe, Victoria Beckham, é acusada, entre outras coisas, de boicotar o casamento e de "roubar" a primeira dança aos então noivos Brooklyn e Nicola. A empresária, designer e antiga estrela da música tem-se remitido ao silêncio, já o pai, antigo internacional inglês, David Beckham, veio a terreiro falar sobre as redes sociais, vincando: "Os maus exemplos existem, mas o que tento ensinar aos meus filhos é que é normal cometer erros. É assim que se aprende. Às vezes, é preciso deixá-los errar."
O embate vem relançar questões não só sobre a exposição pública de menores - crianças e adolescentes - e o lugar dos pais quando os filhos crescem. "Amar filhos adolescentes e adultos implica recuar fisicamente, de forma a respeitar e a permanecer emocionalmente", recomenda a psicóloga Teresa Feijão. Não se trata tando de "parar de amar os filhos", mas antes de transformar um laço que deve ter em consideração "o momento em que os filhos começam a pedir espaço, quando o corpo, a intimidade e a imagem passam a ser território individual e quando a proximidade já não é vivida com conforto, mas como invasão", enumera a terapeuta.
Psicóloga Teresa Feijão (Foto: DR)
Importa também analisar e eventual presença de uma "mãe com forte investimento emocional na maternidade como vertente de identidade", com "dificuldade em aceitar a separação psicológica natural da adolescência e da vida adulta" e com "medo da perda de ligação num contexto onde tudo é público e simbólico", diz a especialista, que alerta: "nem sempre é controlo, muitas vezes é ansiedade de separação parental mascarada de proteção."
Seis riscos de comercializar
sem consentimento a vida dos filhos
Entre as acusações de Brooklyn está o facto de ter alegado que os pais transformaram a família numa "marca comercial", arriscando ignorar desafios individuais e pessoais. Recusando fazer diagnósticos à distância ou simplificados, Teresa Feijão admite que, "no caso dos Beckham, estamos mais provavelmente perante um perfil parental moldado por décadas de exposição mediática, onde a identidade pública, a marca familiar e a vida privada tendem a confundir-se". "São pais que sempre viveram sob o olhar público e que podem ter dificuldade em reajustar limites quando os filhos crescem e deixam de ser extensões da imagem familiar. Não se trata tanto de um diagnóstico, mas de uma normalização da exposição e de uma dificuldade em redefinir limites entre família, imagem e a autonomia dos filhos", considera.
Mas quais os sinais de mercantilização da imagem de filhos menores e quando é que se tornam inequívocas? Teresa Feijão elenca gestos e atitudes em que "a imagem, intimidade, emoções ou rotinas são usadas de forma sistemática para gerar visibilidade, lucro, estatuto social ou capital simbólico para os pais". "Isto acontece quando os menores deixam de ser protegidos e passam a ser 'conteúdo': aparecem em campanhas, posts recorrentes, narrativas emocionais ou conflitos familiares expostos publicamente, sem possibilidade de consentimento", acrescenta a especialista.
Um modelo que traz riscos "múltiplos e muitas vezes silenciosos" para as crianças. Entre eles, a terapeuta enumera seis: "Violação da privacidade e da identidade em que a criança cresce com uma história pública e uma visibilidade que não escolheu, confusão entre amor e desempenho, podendo [a criança] interiorizar que é valorizada pelo que gera (likes, atenção, dinheiro) e não por quem é, pressão psicológica e ansiedade mediante a sensação de estar sempre a ser observada e avaliada, dificuldades na construção da autonomia e de identidade, risco de exploração emocional e até económica e, em alguns casos, vulnerabilidade acrescida a abusos, bullying ou humilhação futura".
O caminho passa por dar "prioridade ao interesse da criança, acima de qualquer benefício parental e limitar drasticamente a exposição pública, sobretudo de momentos íntimos, emocionais ou vulneráveis", sugere Teresa Feijão. Iniciativas que devem contemplar a distinção clara entre vida profissional e pessoal, o "respeito pelo direito da criança em dizer 'não', mesmo quando ainda não sabe explicar porquê" e a "promoção da educação parental sobre o impacto psicológico da hiperexposição digital".
Até onde deve ir a lei
na prevenção da saúde mental?
Já existem, a nível internacional, decisões judiciais em que filhos processaram os pais por exposição excessiva nas redes sociais. Por cá, são também já conhecidos acórdãos dos Tribunais da Relação que, em sede de acordo parental, são estabelecidas regras claras para a exposição de menores. "Passos que são importantes, mas não chegam", analisa a psicóloga, que fala em "medidas maioritariamente reativas, que surgem quando o conflito já existe ou quando o dano emocional pode já ter ocorrido".
A especialista pede "legislação mais clara e preventiva, que reconheça o direito à privacidade digital das crianças, limite a exposição da sua imagem e permita que, no futuro, os próprios jovens possam pedir a remoção de conteúdos que os expõem ou prejudicam".
De entre os pontos a requererem especial proteção, Teresa Feijão considera que é preciso "conhecer explicitamente o direito à privacidade digital das crianças, regular a exposição da imagem de menores, à semelhança do que já acontece em alguns países com crianças-atores, prever sanções claras em casos de exploração, criar mecanismos para que, no futuro, o próprio jovem possa exigir a remoção de conteúdos e incluir avaliação/análise técnica (psicológica e jurídica) quando há conflito parental sobre a exposição".

