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Mais do que uma questão estética, a escolha de um soutien deve obedecer a requisitos muito precisos. Longe das lojas e do marketing da roupa íntima e desportiva, médica cirurgiã plástica explica o que deve ser observado quando se compra um soutien, o que deve ser eviitado e quais os riscos de uma má escolha.
É tempo de por ideias feitas e esterótipos bem longe desta conversa. A escolha de um soutien é muito mais do que apenas um bonito decote, mama mais empinada ou uma estrutura à prova de impacto. "O soutien certo não se sente, e se se sente durante todo o dia, provavelmente não é o adequado", afirma, de forma inequívoca, a cirurgiã plástica Carolina Andresen. E acrescenta: "um bom soutien não é necessariamente o que levanta mais, mas sim o que respeita melhor a anatomia."
Atualmente, o erro mais comum é, segundo a médica, "a utilização continuada do tamanho errado de soutien", o que se pode materializar em casos diversos como peças "apertadas com aro mal adaptado, alças demasiado apertadas, soutiens sem elasticidade ou capacidade de suporte ou banda inferior demasiado larga". Causas que arriscam provocar "desconforto", mas que podem ir mais além e trazer "dores musculares, irritações cutâneas ou mesmo ptose (queda) precoce da mama".
Andresen sublinha ainda que "dormir com soutien de forma habitual, sobretudo com estrutura rígida, pode associar-se àquelas mesmas complicações, e a ideia de que previne a ptose da mama não tem evidência científica robusta".
Uma vez esclarecidos estes pontos, é tempo de olhar para os critérios prioritários que devem orientar a escolha e, mais importante, a compra do soutien certo. A especialista destaca quatro prioridades tendo em vista o correto suporte da mama, acomodando as necessidades de anatomia e postura.
Cirurgiã Carolina Andresen [Foto: DR]
"Grande parte das mulheres usa o tamanho errado e não tem consciência disso", avisa a especialista da Allure Clinica, referindo, aliás, que "mais de 70% das mulheres usam um tamanho inadequado, normalmente com a circunferência - o número - demasiado grande e a copa - a letra - demasiado pequena, o que leva a que o peso fique concentrado nas alças", o que é um erro.
Carolina Andresen alerta também para a importância do "suporte adequado", devendo "vir principalmente da banda inferior, a parte que envolve o tronco e não das alças". Para que não restem dúvidas, a cirurgiã plástica deixa a dica: se o soutien "deixa marcas profundas nos ombros ou cria dor ao fim de algumas horas, é porque o tamanho da banda deve ser menor". Deve ser também dada prioridade a materiais que permitam a transpiração, evitando riscos de "irritações cutâneas, micoses e dermatites, sobretudo na prega inframamária". Por fim, a médica alerta para o erro de uma "compressão intensa e prolongada, que pode causar sulcos na pele, dores musculares, restringir movimentos naturais da coluna e da caixa torácica e até alterar a circulação linfática local".
Soutien desportivo? Sim, mas com regras
Na verdade, no que ao desporto diz respeito, a questão do apoio mamário adequado ganha ainda maior importância. Estudo preliminar publicado em abril do ano passado no European Journal of Sport Science questionou o que estava, até aí, dado por garantido e vinha dizer que quanto maior fosse o suporte mamário, maior o risco para a coluna. Carolina Andresen diz tratar-se de "um tema que merece especial atenção por parte das mulheres que praticam exercício físico intenso regularmente" porque "um soutien desportivo bem escolhido protege a coluna, um mal escolhido pode sobrecarregá-la".
"Os soutiens desportivos de alto suporte funcionam por compressão: achatam e imobilizam o tecido mamário para reduzir o movimento durante o exercício. O problema não é o alto suporte em si, mas sim a compressão excessiva e prolongada sobre o tórax, que pode trazer alterações posturais e limitar a mobilidade natural da caixa torácica, alterando a mecânica respiratória", alerta.
Um risco que cresce quando se opta pelo uso deste tipo de possibilidades no dia a dia. Este mau uso "pode contribuir para tensão muscular crónica nas costas", avisa Carolina Andresen, que acrescenta que "a imobilização total da mama impede o seu movimento natural, que os músculos grande peitoral e grande dorsal estão habituados a compensar, e isso pode paradoxalmente criar tensões na coluna".
A recomendação é, por isso, clara: "um soutien desportivo de alto suporte, ajustado e adequado, deve ser usado durante o exercício e trocado por um soutien de suporte moderado, não compressivo, no resto do dia."
Mais do que estética, prioridade à função e saúde
Para lá da estrutura, a tipologia de tecidos usada, um mercado com cada vez mais inovação e tecnologia, deve também fazer parte dos elementos a ponderar quando se compra uma peça desta natureza. A médica elege possibilidades feitas em "materiais como microfibra, bambu, ou fibras com tecnologia antibacteriana, que vão reduzir o risco de irritações cutâneas e infeções fúngicas e são especialmente recomendados para mulheres com tendência para dermatites ou que transpiram muito".
Peças sem costuras devem ser um fator a considerar no caso de "peles sensíveis ou para uso prolongado". A especialista adianta que, atualmente, existem já "alguns modelos desenhados com base em estudos biomecânicos, com um design mais ergonómico que distribui melhor o peso, respeita a anatomia da mama e reduz a tensão muscular".
À saúde de uma boa ou má escolha soma-se o impacto na autoestima, pelo que a médica reitera que "um bom soutien é um investimento na saúde postural, cutânea e mamária". E salvaguarda: "Quando deixa de ser suficiente - como nos casos de hipertrofia mamária severa - a cirurgia plástica pode ser a solução que devolve qualidade de vida". "Nos casos de mama muito grande (gigantomastia), nenhum soutien comercial consegue, por si só, eliminar os sintomas", lamenta a especialista, pelo que a intervenção se afigura como o caminho possível.
No caso das mulheres com mama grande, o "suporte não é apenas estético, é estrutural" uma vez que "o peso mamário excessivo sem suporte adequado pode originar dores crónicas nas costas, pescoço e ombros, má postura com hipercifose dorsal (costas curvadas), sulcos profundos nas alças, dermatite e maceração na prega inframamária". Nestes casos, Carolina Andresen recomenda a escolha de uma peça "com banda larga e firme, copas bem estruturadas, preferencialmente com aro, alças largas e acolchoadas e fecho de múltiplos ganchos".
Para as que têm a mama mais pequena, a liberdade de escolha é maior, mas não total. "Do ponto de vista médico, o importante é o conforto e a ausência de compressão desnecessária. Estruturas rígidas ou enchimento excessivo podem gerar desconforto, pelo que a escolha de soutiens sem armação pode ser perfeitamente adequada", sugere.

