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Mais de seis em cada dez portuguesas recorre à automedicação assente na experiência prévia de doenças. Esta é uma das conclusões do relatório que revela também que se está diante de uma prática mais disseminada do que se pensa.
Quase 2/3 das mulheres portuguesas (61,3%) pratica automedicação assente na experiência prévia face às doenças e mais de 1/3 pratica-a de forma regular. Os resultados fazem parte do relatório Automedicação em Portugal e que conclui que esta prática de toma de medicação por iniciativa própria e sem aconselhamento médico é mais disseminada do que o que se poderia pensar. Um gesto que se alarga à saúde mental e que nem sempre é comunicado ao clínico.
O estudo levado a cabo pelos investigadores Pedro Pita Barros e Carolina Santos, divulgado esta terça-feira, 13 de janeiro, faz parte da Cátedra em Economia da Saúde, enquadrada na Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação "la Caixa", o BPI e a Nova SBE.
Os pesquisadores reconhecem que o sistema deve ter um apoio estruturado à automedicação, que quando usada da melhor forma pode aliviar os serviços de saúde de casos que não precisam de cuidados médicos específicos. Contudo, alertam, também para a necessidade de garantir que a automedicação seja parte da integração de cuidados e defendem que, para isso acontecer, as pessoas devem ter acesso a informação clara e acessível, para saber quando podem tratar um problema por si, e deve haver estruturas de proximidade que consigam avaliar a necessidade e orientar o utente e uma comunicação entre os prestadores.
"Compreender as circunstâncias em que a automedicação é percecionada como bem-sucedida, e aquelas em que falha, é essencial para desenvolver estratégias de saúde pública que promovam um autocuidado seguro", consideram os autores em declarações à agência Lusa.
Para lá das mulheres, o fenómeno da automedicação é mais prevalente em grupos etários mais jovens (entre os 25 e 34 anos), com 66,26% destes a confessarem ter-se automedicado pelo menos uma vez. Por oposição, entre as pessoas com 85 ou mais anos, foram 39,62% os que afirmaram nunca ter recorrido à automedicação. Níveis mais elevados de rendimento e de escolaridade estão também associados a uma maior frequência de automedicação. Quanto à escolaridade, enquanto 60,77% dos inquiridos com ensino superior disseram ter recorrido à automedicação no passado, essa proporção desce para 47,64% entre os que têm níveis de escolaridade inferiores.
O trabalho, que resultou de inquéritos feitos em 2025 a mais de 1.600 pessoas em Portugal - de várias geografias, condição social e económica faixas etárias - mostra que mais de metade dos inquiridos (51,85%) disse já ter recorrido à automedicação em algum momento, indicando "uma prática muito mais disseminada do que habitualmente se reconhece".
Nos casos em que as pessoas optam por se automedicar, as farmácias continuam a ser o local privilegiado para obter medicamentos, um resultado que os investigadores dizem evidenciar uma "fronteira difusa" entre o autocuidado e a "automedicação orientada". Ainda assim, entre os que já se automedicaram, mais de um terço (38,2%) disse ter usado medicamentos que já tinha em casa devido a episódio anterior de doença.
As pessoas recorrem mais frequentemente à automedicação para sintomas de gripe ou constipação (53,05%) ou dores de cabeça (21,12%), mas também o fazem - embora com menos frequência - para casos de dores musculares (10,70%), tosse (7,77%) e problemas digestivos (4,44%).
Entre os outros motivos apontados estão o alívio geral da dor e situações mais graves, incluindo ansiedade, depressão, doença renal, infeções urinárias, artrose e asma.
Os investigadores avisam que a automedicação também se estende a áreas como a saúde mental e as doenças crónicas, em que o autodiagnóstico incorreto, o adiamento do recurso a cuidados profissionais, as interações medicamentosas ou o uso inadequado podem representar riscos acrescidos.

