
Eleições presidenciais terão segunda volta a 8 de fevereiro
Foto: Estela Silva/Lusa
Com a campanha da segunda volta às Presidenciais a caminhar para o fim e com as posições pessoais e parecerem extermar-se, como lidar com a diferença de opiniões dos que nos são mais próximos e quais as fronteiras a estabelecer para manter a saúde mental, família e amigos num momento decisivo. Duas psicólogas explicam caminhos, limites, linhas vermelhas e consequências.
A poucos dias das eleições presidenciais que vão eleger o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, marcadas para este domingo, 8 de fevereiro, avolumam-se argumentos, antagonizam-se posições e crescem incompatibilidades entre os apoiantes de cada candidato.
Com uma corrida que se trava a duas frentes - entre André Ventura e António José Seguro -, com posições bastante balizadas sobre o que defendem cada um deles, como manter família, amigos, colegas de trabalho quando estes pensam e veem o mundo de forma diferente àquela que defendemos?
"A segunda volta [das Presidenciais], tal como outros momentos políticos, não tem que criar divisões do nada, ela pode é expor fragilidades que já existiam nas relações", avisa Teresa Feijão. Para a psicóloga, o perigo está "quando a identidade política passa a ser vivida como identidade pessoal ("quem pensa diferente é uma ameaça")" nomento em que "o espaço para o diálogo diminui drasticamente".
Psicóloga Teresa Feijão [Foto: Divulgação]
Ângela Rodrigues admite que se está diante a possibilidade de "conversas que se tornam mais acesas e em que, por vezes, as relações mais próximas são postas à prova". Lembrando que o sufrágio é "um evento temporário", ele "pode abrir feridas permanentes". "Quando a discussão política deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre valores fundamentais e identidade, o risco de rutura é real", acrescenta a psicóloga da Clínica da Mente.
Afinal, argumenta, "o que vemos hoje não é apenas uma discordância sobre economia ou políticas sociais, é um choque entre visões de mundo. Se uma pessoa sente que a escolha política de um amigo ou familiar ameaça valores que considera fundamentais ou a sua própria segurança. O distanciamento torna-se, para muitos, uma forma de autoproteção".
Mas pode ser temporário ou não. "Quando surgem ataques pessoais, desrespeito ou desvalorização das escolhas e valores do outro, podem deixar marcas duradouras", avisa Teresa Feijão, sublinhando que "não é a política em si que afasta 'para sempre', mas a incapacidade de lidar com a diferença de forma madura e empática".
Evitar os "bons" e os "maus", o "nós" e o "eles"
A simplificação do mundo por via do radicalismo, a divisão do que conhecemos em apenas dois eixos, o 'nós' e o 'eles', os 'bons' e os 'maus', tal não ajuda. "Quando alguém entra nesta lógica, deixa de ver o outro como pessoa e passa a vê-lo como símbolo de tudo aquilo que não concorda e que rejeita. Isso mina relações próximas, porque desaparece a curiosidade, a empatia, a escuta e o respeito", avisa Teresa Feijão.
Mas como gerir? As duas psicólogas ouvidas pela Delas.pt elencam estratégias para lidar com este novo mundo que parece, subitamente, ter apenas duas perspetivas. "Estabeleça limites claros", rcomendam Âgela Rodrigues e Teresa Feijão. "Defina o que é e o que não é aceitável. Pode dizer: 'Gosto muito de ti, mas não vou discutir política contigo' ou 'Não aceito que uses esse tipo de linguagem desrespeitosa na minha presença', indica a primeira. A segunda destaca a importância do timing. "Escolher quando vale a pena conversar e quando é melhor não entrar em confronto e conflito", afirma, alertando para o facto de que "discordar não é o mesmo que desrespeitar".
Selecionar as batalhas é, por isso essencial, para Ângela Rodrigues. "Nem todas as discussões precisam de ser tidas. Se a conversa está a escalar, por vezes o melhor é recuar e dizer: ´'Acho que não vamos chegar a um consenso sobre isto, vamos mudar de assunto'". Em contrapartida, afirma a especialista, é tempo de focar no que une as pessoas. "Tentem encontrar interesses e atividades em comum que não envolvam política. Relembrem os momentos bons e os valores que partilham para além das urnas".
Psicóloga Ângela Rodrigues (Foto: Divulgação)
Teresa Fejão vinca que não se é "obrigado a tolerar tudo em nome da harmonia". E se assim for, quando é que tempo de 'deixar ir'? "Quando a relação se torna sistematicamente tóxica, quando há impacto negativo no nosso bem-estar emocional ou quando o outro não demonstra qualquer abertura para o diálogo ou para a mudança. Às vezes, afastar-se não é desistir da relação, é proteger a nossa saúde mental", responde.
Ângela concorda, embora reconheça que a "decisão de se afastar é profundamente pessoal e dolorosa". Contudo, se esse for o único caminho, "se a outra pessoa se recusa a respeitar os seus limites, se os ataques são constantes, se a sua segurança emocional ou física está em causa, ou se a relação lhe causa mais dor do que alegria, afastar-se pode ser o maior ato de autocuidado que pode ter".
Impacto da radicalização na saúde mental
Seja de forma gradual ou veloz, a radicalização de posições acarreta impactos na saúde mental que vão da ansiedade à irritabilidade e exaustão emocional. "O mundo passa a ser percebido como perigoso e instável, a desconfiança, mesmo em relações próximas, cria climas de vigilância e hostilidade, há um estado constante de alerta e, em alguns casos, isolamento social, porque a pessoa sente que só pode estar com quem pensa de forma igual", alerta Teresa Feijão.
Ângela Rodrigues fala em processos que se podem "transformar em insónias, pensamentos obsessivos e numa vigilância constante das notícias". Uma "hipervigilância exaustiva que alimenta ainda mais a ansiedade", justifica. E avisa: "O medo pode tornar-se uma presença constante, especialmente quando os discursos políticos se tornam mais agressivos ou excludentes. É um ciclo que se auto-alimenta e que pode corroer tanto a saúde mental individual como o tecido social."

