Violência. Jovens legitimam controlo no namoro e insultos nas redes quando o amor acaba, diz estudo

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Quase sete em cada dez jovens portugueses dos 12 aos 21 anos 'permitem' violência no namoro, considerando legítimos comportamentos abusivos como perseguição e violência psicológica, sendo o controlo o mais tolerado. Depois do namoro acabar, crescem os insultos e partilha de conteúdos íntimos nas redes sociais, diz estudo realizado em escolas nacionais.
"Quando uma relação de namoro abusiva termina, a violência aumenta. Um indicador no nosso estudo revela que, depois do fim da relação, aumentam os comportamentos nas redes sociais como insulto, dizer mal publicamente da outra pessoa e a partilha de conteúdos íntimos". A análise é feita pela investigadora Margarida Pacheco no âmbito do estudo da Arthémis, da União de Mulheres Alternativa e Resposta, que pretende aferir anualmente a legitimação e vitimação dos jovens em contexto de violência no namoro.
No estudo apresentado esta sexta-feira, 13 de fevereiro, a propósito do dias dos Namorados, que se assinala este sábado, 14, fica em evidência que quase sete em cada dez jovens inquiridos (68,2%, ou seja, 5454 participantes) legitimam a agressão nos primeiros amores, aceitando como legítimos comportamentos abusivos como o controlo, a perseguição e violência psicológica.
No que diz respeito à prática abusiva mais tolerada entre os jovens casais, o controlo das redes é o que predomina, estando presente em mais de metade (53,4%) das repostas dos 8080 estudantes de 3º ciclo e secundário, dos 12 aos 21 anos, que responderam ao estudo. "A legitimação (de comportamentos violentos) não mudou muito nos últimos anos, ronda sempre os 68% e o controlo como forma de violência predominante é a mesma, também, com o sexo masculino a legitimar mais do que o sexo feminino", destaca Margarida Pacheco, que lembra que o controlo é aqui definido como "a roupa que se usa, o acesso a telemóvel do parceiro, a vigilância nas redes sociais, saídas à noite e até falar com outras pessoas".
A perseguição (presencial e digital) com 40,9% (3.268), a violência psicológica com 27,6% (2.199), a violência através das redes sociais com 18,1% (1.448 alunos), violência sexual com 15,1% (1.209 alunos) e a violência física com 5,9% (476 alunos), são outros dos comportamentos mais legitimados entre os estudantes que participaram no inquérito, cuja média de idades é de 15 anos.
Com tantas campanhas de sensibilização e tratando-se de um tema que tem estado na ordem do dia, porque é que estes comportamentos de permissividade à violência no namoro e exercício de agressão, ainda perpetrado na maioria sobre as raparigas, não descem? Para a investigadora, "temos mais campanhas, falamos mais com os jovens, mas também estamos a viver um contexto mais complicado de uma realidade digital marcada pelo crescimento do discurso de ódio, machismo e misoginia".
Realidades que ameaçam puxar para trás as conquistas em matéria de sensibilização dos mais novos para o combate à violência no namoro, mas que não podem ser interrompidas. "Não falar de consentimento, não explicar as crianças o que é um "não" e quão importante é saberem dizer "não" quando se sentem desconfortáveis" são matérias que, no entender de Margarida Pacheco, devem continuar a ser frisadas junto dos adolescentes, procurando acabar com uma "ideia de amor romântico" no qual ainda subsiste a violência para "os jovens e em pessoas adultas". "Os programas de prevenção nas escolas e em contexto escolar são essenciais para prevenir estes comportamentos", avisa a investigadora.

