1960-2020

Diego Maradona, o mito e a lenda que, agora sim, também é deus

Diego Maradona, o mito e a lenda que, agora sim, também é deus

Um ataque cardíaco provocou a morte a um dos melhores futebolistas de sempre e figura incomparável do desporto.

Dizem que Diego Maradona morreu. Que um ataque cardíaco deixou a Argentina lavada em lágrimas, órfã do maior, Nápoles completamente de rastos e o Mundo sem saber muito bem o que dizer nem o que fazer. É assim quando o impossível acontece. Aos 60 anos, "El Pibe" cansou-se e deixou para trás uma vida exageradamente vivida e dedicada a fazer o impensável com uma bola, mas também a ser ativista político, a juntar-se a causas humanitárias, a levantar a voz pelos desfavorecidos e oprimidos, a desafiar os poderosos. Diego foi tanta coisa... Para muita gente, foi tudo.

Ser Maradona era tão difícil e complexo, que mais ninguém o conseguiu. E tantos queriam e querem. Na Argentina, principalmente. Nos campos de futebol e também fora deles. Maradona era - sempre foi - especial sem querer. Único. Era dotado de uma imperfeição perfeita. Sim, também era contraditório, rebelde em muitos casos, conservador noutros, mas sempre autêntico. Teve direito a documentários e filmes, a textos escritos pelos melhores escritores, nomeadamente os sul-americanos, a canções, a estátuas, a murais, a declarações de amor, até a uma religião, a maradoniana, cujos fiéis, ao contrário dos de outros credos, só aumentaram com o tempo. Muitos dos que jogaram com ele dizem que nunca tiveram um companheiro tão amigo, tão sentimental, tão humano. Um deus humano, então.

A alegria de muitos

Maradona é, portanto, amor. Muito amor, doentio quase. Duas das mais belas histórias no futebol têm-no a ele como protagonista. Com a Argentina, onde passou a ser "Dios" em 1986, ligou-se desde sempre. Em Nápoles e com o clube napolitano, sete temporadas chegaram para fazer dele o maior ídolo que a região teve, tem e, possivelmente, terá. É impossível ter a verdadeira noção do impacto do dia de quarta-feira. Falar no melhor golo do século é recuar cerca de 34 anos e ver Maradona fintar meia Inglaterra e marcar. Falar no golo mais político de sempre é vê-lo ir aos céus, contra a mesma Inglaterra, "cabecear" com a mão e vingar a derrota argentina na Guerra das Malvinas. Falar na melhor prestação de um jogador em qualquer Mundial é voltar a esse México de 1986 e confirmar como ele, quase sozinho, levou a Argentina ao último título mundial.

PUB

Depois disso, dedicou-se a Nápoles, a cidade onde foi mais feliz e onde mais fez felizes os outros. Com ele, o clube conquistou os últimos dois campeonatos da sua história (1987 e 1990) e o último grande troféu internacional (a Taça UEFA, em 1989). Ali, era comum vê-lo nos bairros mais pobres, com as pessoas que mais precisavam. Ficou célebre o caso em que o clube e a FIFA lhe negaram fazer um jogo em que a receita seria para operar um rapaz; então, organizou-o ele mesmo num campo improvisado em frente à casa onde vivia. A única crise nesta relação, não fosse ela de amor, aconteceu no Mundial de 1990, quando a Argentina eliminou a Itália no San Paolo e alguns pecadores apedrejaram-lhe a casa.

Diego, o "pelusa", deu-se a conhecer no Argentinos Juniors, também passou por Boca Juniors, Barcelona, Sevilha e Newell"s, mas nesses casos as declarações de amor nunca foram tão sentidas e profundas.

"De que planeta vieste?"

É impossível tentar explicar o sucesso, o mediatismo, a aura e a personalidade de Maradona sem recorrer às origens e entrar no bairro pobre dos arredores de Buenos Aires onde cresceu. Foi nessas ruas de terra e ladeadas de casas a cair e sem o mínimo de condições que ele, pequeno e gordinho, se prolongou com um efeito esférico. E foi nessa vida, uma sobrevivência constante, que se construiu pessoalmente, sem eletricidade e muitas vezes sem sequer ter acesso a água potável. O futebol era o refúgio, a bola a melhor amiga. E isso era muito para quem não tinha nada. Aos 11 anos, apareceu pela primeira vez na televisão a dar toques na bola. Aos 15, disse, curiosamente ao mesmo canal, que tinha o sonho de jogar pela seleção e ganhar um Mundial. Desde então, as câmaras e os flashes foram parte do seu quotidiano, várias vezes para informar de alguma polémica, de alguma palavra fora de sítio, de algum gesto menos simpático, de algum ato reprovável ou de algum comportamento pouco católico. Basicamente, só para que o desculpassem e o perdoassem.

Diego Maradona foi tão bom que até jogava contra ele mesmo. No futebol, mas também na vida. E, normalmente, ganhava. Não se sabe sequer de que planeta veio e agora ainda dizem que ele morreu. Como se isso fosse possível.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG