Triplo salto

Évora e Pichardo: as provocações constantes de uma "quezília" sobre ser português

Évora e Pichardo: as provocações constantes de uma "quezília" sobre ser português

Um conseguiu a nacionalidade portuguesa em poucos meses, o outro precisou de 11 anos e encarou-o como um "ataque pessoal". Estavam lançadas as bases para que dois dos maiores atletas do país seguissem caminho praticamente de costas voltadas.

Partilham a paixão pelo triplo salto, a dedicação à camisola verde e vermelha, de Portugal, e o peso do ouro olímpico, que lhes conferirá, enquanto houver memória, o mais desejado título em qualquer modalidade. São campeões.

Mas se há tanto que une Nelson Évora a Pedro Pichardo - que voou, esta quinta-feira, 17 metros e 98 centímetros em Tóquio 2020 - muito mais parece haver a separá-los.

A troca de "mimos" de hoje, a propósito da conquista de Pichardo, é apenas um exemplo. O campeão olímpico do triplo salto em Pequim 2008 felicitou o sucessor, no Instagram, mas o atleta do Benfica, que até costuma optar pelo silêncio, decidiu quebrá-lo.

A verdade é que a relação dos dois nunca foi boa. Na passada terça-feira, depois de se ter lesionado, ficando assim afastado da final, Évora garantiu, sem rodeios, que, caso se encontrasse com o colega na pista nipónica, não tomaria a iniciativa de o cumprimentar. "Não sei porquê, não por mim, mas não teria de ser eu a abraçá-lo. O Pichardo há-de aprender com a vida. Espero que tudo lhe corra muito bem", afirmou o antigo medalha de ouro.

A resposta só chegou hoje. Em conferência de imprensa, já depois do salto da vitória, Pedro não disfarçou o desconforto. "Não tenho falado mal do Nelson. Há pouco enviaram-me o link sobre o abraço. (...) Não falo mal do Nelson, não quero levar o assunto para problemas pessoais. Há anos que fala de mim e não respondo", sublinhou. "Já ganhou tudo, porque não me deixa a mim fazer a minha carreira?", atirou.

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Mas entender a génese das picardias constantes entre os dois atletas obriga-nos a recuar alguns anos. Em dezembro de 2017, Pichardo já tinha nacionalidade portuguesa (num processo que demorou apenas alguns meses, ao abrigo do estatuto de refugiado), mas teve de esperar quase ano e meio para poder competir com as cores nacionais. Nesse período, Évora conquistou os Europeus de atletismo e o luso-cubano brindou-o com uma mensagem irónica nas redes sociais. "Sem a minha presença é fácil", escreveu, na altura, em jeito de brincadeira.

Nelson Évora, hoje atleta do Barcelona, não gostou da provocação. "É frustração porque tudo foi tão fácil e chegou um momento em que ele não entendeu por que razão não aconteceu [estar nos Europeus]. Eu tive de esperar 11 anos pela nacionalidade. Quando cheguei a Portugal os meus pais já tinham posto os papéis. Para o meu pai foram 14 ou 15 anos. Para mim, foram 11. Podem comparar e falar de direitos, mas ignoro e não quero alimentar essa história. Estou tranquilo, fui ao Campeonato da Europa, ganhei e bato no peito. Estou aqui a dar a entrevista em português e não é preciso meter legendas, quando penso em comida penso em comida portuguesa e todas as minhas vivências são daqui. Sou filho de africanos, percebo crioulo, percebo francês, mas expresso-me é em português, escrevo e falo português, andei na escola portuguesa. Quem quiser comparar, que compare", respondeu.

Declarações que feriram Pichardo, levando-o a falar em "quebra de confiança". "Conheci-o em competições, até que, nos Mundiais de 2015, ele foi medalha de bronze e eu de prata. Nessa altura falámos muito, no pódio, na sala de imprensa e começámos uma boa amizade. Já em Portugal continuámos essa boa relação e falámos, mas quando tive a nacionalidade portuguesa, não sei o que se passou... de um momento para o outro ele bloqueou-me nas redes sociais. Não fiz mal a ninguém, não é ilegal, só faço triplo salto. Quebrou-se a confiança", garantiu.

Desentendimentos à parte, Évora e Pichardo fizeram história e terão de continuar lado a lado. Nem que seja apenas por fazerem parte dos cinco portugueses campeões olímpicos, juntamente com Carlos Lopes (1984), Rosa Mota (1988) e Fernanda Ribeiro (1996).

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