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O estranho caso do desaparecimento da tenista chinesa Peng Shuai

O estranho caso do desaparecimento da tenista chinesa Peng Shuai

Peng Shuai esteve desaparecida depois de acusar o antigo vice-primeiro-ministro da China, Zhang Gaoli, de abusos sexuais. WTA, ONU e atletas uniram-se na luta por informações pelo paradeiro da ex-número um mundial de ténis em pares e há novas informações.

Para quem acompanha o ténis, Peng Shuai é tudo menos um nome estranho na modalidade. A tenista chinesa, que nasceu em 1986, chegou a ser número 1 mundial na categoria de pares - dois dos 23 títulos são de "Grand Slam" (Wimbledon em 2013 e Roland Garros, em 2014) - e, individualmente, chegou a uma semifinal do Open dos Estados Unidos, em 2014. Quem não acompanha a modalidade, terá ficado a conhecer o nome da tenista chinesa, que ecoou em todo o mundo depois de ter sido dada como desaparecida.

A 3 de novembro, Peng Shuai, de 35 anos, acusou o antigo vice-primeiro-ministro da China, Zhang Gaoli, de abusos sexuais. A denúncia foi feita através das redes sociais, no Weibo (site chinês semelhante ao Twitter), na qual a atleta admitiu ter tido um caso extraconjugal intermitente com Gaoli, atualmente com 75 anos, durante alguns anos, que a própria tentou manter em segredo. Segundo a atleta, o governante, um dos políticos chineses mais importantes entre 2013 e 2018, deixou de entrar em contacto com ela depois de ter subido de hierarquia no partido até que, em 2018, Zhang e a mulher terão convidado Peng Shuai para um jogo de ténis na habitação do casal. Após o encontro, o ex-vice-primeiro-ministro terá violado Peng na casa.

"Nunca consenti naquela tarde. Chorei o tempo todo", escreveu. Peng afirmou, ainda, não ter provas, mas acrescentou que a esposa de Zhang sabia. "Mesmo que não seja mais do que atirar um ovo contra uma parede, explicarei os factos sobre o que aconteceu", referiu. A mensagem nas redes sociais acabou por desaparecer 20 minutos depois de ter sido publicada e o jornal francês "Le Monde" deu conta do desaparecimento da atleta.

E-mail a desmentir o desaparecimento

Dez dias depois do desaparecimento que a imprensa chinesa não noticiou - todas as referências a uma mensagem atribuída à tenista Peng Shuai foram bloqueadas pelos responsáveis pela censura na internet chinesa mas o dados do Weibo indicam que Peng publicou algo dia 3 de novembro e que a mensagem teve mais de 100 mil visualizações - a comunidade do ténis, sob a hashtag #WhereIsPengShuai, mostrou preocupação com a atleta. Atletas como Naomi Osaka, Serena Williams ou Novak Djokovic apelaram por informações e a investigações sobre o paradeiro de Shuai. Até que, a 18 de novembro, Steve Simon, presidente da Women"s Tennis Association (WTA), órgão que regula o ténis feminino a nível mundial, recebeu um alegado e-mail da tenista a garantir que está bem.

"Não estou desaparecida. As alegações de abusos sexuais não são verdadeiras. Estou a descansar em casa e estou bem. Obrigado pela sua preocupação", podia ler-se no alegado e-mail, posto a circular pelo recetor e que foi reproduzido pelos meios de comunicação estatais da China.

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"É difícil acreditar que Peng Shuai escreveu aquela mensagem que recebemos ou que lhe pode ser atribuída. Peng revelou grande coragem ao descrever as alegações de abuso sexual contra um alto quadro do Governo chinês. A WTA e o resto do mundo precisam de obter prova verificável de que ela está segura. Tentei contactá-la de várias maneiras, mas sem sucesso", reagiu Simon. A WTA, ONU e ATP pediram mesmo provas e admitiram mesmo retirar os torneios organizados na China.

Novas imagens mas não suficientes para descansar

Este fim de semana, houve novidades. O diretor de um jornal chinês ligado ao Governo afirmou, sábado, que Peng Shuai está em casa e aparecerá brevemente em público - só não prestou declarações por não querer ser incomodada - depois de terem surgido algumas fotografias da atleta rodeada de peluches e alegadamente em casa com a legenda "Happy Weekend", Bom fim de semana, atribuída a Shuai.

No mesmo dia, surgiram vídeos da tenista, também partilhados por jornalistas, a dar autógrafos num torneio de ténis e a jantar com amigos num restaurante.

Presidente do Comité Olímpico Internacional fez videochamada mas dúvidas continuam

O presidente do Comité Olímpico Internacional, bem como a líder da Comissão de Atletas e um membro do Comité Olímpico chinês falaram este domingo, por videochamada, com a tenista Peng Shuai, desaparecida desde que denunciou um ex-alto funcionário do governo. Segundo o COI, Thomas Bach, Emma Terho e Li Lingwei conversaram "durante 30 minutos" com a tenista, desaparecida após acusar um ex-vice-primeiro-ministro da China de violação.

Em comunicado, dão conta de que Shuai estará "sã e salva em casa, em Pequim, e quer que a sua privacidade seja respeitada". "Fiquei aliviada de ver que Peng Shuai estava bem, porque era a nossa principal preocupação. Parecia relaxada, e ofereci-lhe apoio", declarou Emma Terho, citada em comunicado. Mas ainda assim, quer-se mais.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês pediu, este domingo, que a tenista chinesa Peng Shuai, que reapareceu num torneio após semanas de mistério sobre o seu destino, seja autorizada a "falar livremente" para esclarecer a sua situação.

"Acho este caso muito preocupante", disse Jean-Yves Le Drian à estação de televisão privada LCI, sublinhando: "Estou apenas à espera de que Peng Shuai fale. E se as autoridades chinesas quiserem esclarecer, devem permitir a Peng Shuai falar, dizer onde ela está, como vive, o que faz, como se prepara para os Jogos Olímpicos".

O líder da diplomacia francesa foi ainda mais longe nas declarações e considerou que a tenista chinesa "obviamente desapareceu" e deixou transparecer o incómodo francês com Pequim em relação a este caso. "Se não for verdade, então deixem-na falar. Se por acaso ela fosse proibida, se houvesse um desaparecimento óbvio, teríamos de tirar as consequências diplomáticas", acrescentou, sem mais esclarecimentos.

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