Reportagem

O aumento dos combustíveis e a corrida aos postos. "Quando descem, não se nota logo"

O aumento dos combustíveis e a corrida aos postos. "Quando descem, não se nota logo"

A subida da cotação do petróleo e dos produtos refinados dita o maior aumento de sempre dos combustíveis, com a gasolina e o gasóleo a subirem, respetivamente, oito e 14 cêntimos a partir da próxima segunda-feira. A notícia desta sexta-feira já motivou uma corrida aos postos e o JN testemunhou o lamento de alguns dos muitos automobilistas que aproveitaram o início do fim de semana para poupar enquanto é possível.

A instabilidade dos mercados, criada pela invasão da Ucrânia por parte da Rússia, fez disparar o preço do barril de Brent e o barril de petróleo do Mar do Norte, que serve como referência aos preços na Europa, seguiu a tendência, fechando sexta-feira a custar qualquer coisa como 113 dólares. Os efeitos não são imediatos, mas quase, e a partir da próxima semana a ida aos postos vai custar ainda mais à carteira dos portugueses.

"É verdade, só vim atestar por causa do aumento. Ainda tenho gasóleo no carro, mas já fica", partilha, com o JN, Alberto Bernardo, enquanto aguarda pela sua vez no posto da Galp situado na Estrada Nacional 222, em Vila Nova de Gaia. Com pouco mais de uma dezena de carros no posto não será preciso esperar muito, mas o tempo é suficiente para deixar uma questão no ar. "O preço do petróleo começa a subir e o reflexo no preço ao consumidor é imediato. Quando desce não se nota logo, demora muito mais, não acha?".

Mesmo sem resposta, é tempo de seguir, mas não é preciso andar muito. Poucos quilómetros mais à frente na 222, que liga Vila Nova de Gaia a Vila Nova de Foz Côa, o movimento no posto da Prio é um pouco maior. Afinal, ali a gasolina (entre 1,81 e 1,87 euros por litro) e o gasóleo (1,68 e 1,72) são um pouco mais baratos do que nas bombas da Galp (gasolina de 1,91€ a 1,96€/litro e gasóleo a 1,78€ e 1,83€), o que também justifica a presença de mais veículos pesados.

Enquanto o camião TIR que conduz engole litros e litros de diesel, o motorista prefere não falar com o nosso jornal. "Vou dizer asneiras e é melhor não", justifica, com cara fechada, algo que, poucos minutos depois, não é assim tão difícil de compreender. Uma olhadela ao mostrador da bomba mostra bem a diferença entre um ligeiro e um pesado. Os 430 litros que entraram nos tanques custaram 726 euros, uma pequena fortuna que, a partir de segunda-feira, perde o adjetivo.

E nem sequer é preciso ser um especialista em matemática para tirar essa conclusão. Basta uma regra de três simples para perceber que, na próxima semana, esses mesmos 430 litros de diesel passam dos 726 para os 799 euros. Um duro golpe em empresas de camionagem, de entregas e similares, mas que também toca o comum dos mortais, que apenas usa automóvel para ir trabalhar ou para dar um simples passeio.

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É preciso ajudar quem trabalha

Depois do jantar, Adelino Monteiro, de 81 anos, não se sentou a descansar no sofá como é costume. Foi ao posto abastecer o carro e, depois, voltou com o da filha para fazer exatamente o mesmo. "Já falamos, deixe-me ir só pagar. Já falamos", promete. E cumpre. "Claro que vim por causa do aumento. Isto só é bom para o Estado, tal a carga de impostos nos combustíveis", diz, antes de pedir medidas excecionais para tempos excecionais.

"Isto é um esforço muito grande para o povo. E aquelas empresas que todos os dias têm de fazer centenas de quilómetros? Como vão fazer frente a isto? Não é admissível. Acho que o Governo devia baixar já os impostos nos combustíveis. É preciso ajudar quem trabalha", pede antes de entrar no carro, onde deixa mais uma pergunta que não tem resposta fácil.

"Um homem só mete medo ao Mundo todo! Onde é que isto vai parar?", questiona e não é preciso aprofundar a conversa para saber que se refere a Vladimir Putin e à invasão da Ucrânia.

"Ui, isto está cheio a esta hora, mano?"

Do outro lado do Rio Douro, em plena Circunvalação, a fila de carros para entrar no posto da Auchan é bem maior que as anteriores e já ocupa a faixa direita da estrada. Um grupo de adolescentes passa a pé e não esconde a surpresa. "Ui, isto está cheio a esta hora, mano?". "Sim, a 'gota' vai subir", explica uma jovem, enquanto os condutores aguardam a vez de vidros fechados.

"Tenho o carro na reserva. Só por isso é que estou aqui à espera", diz-nos Elisabete Braga, enfermeira de 44 anos. Já com o motor desligado e a pistola encostada ao bocal do depósito, explica o que sentiu quando ouviu que o gasóleo ia aumentar 14 cêntimos.

"Pensei logo: estou feita. Faço mais ou menos 30 quilómetros por dia e gasto, por mês, dois depósitos, que me custam cerca de 150 euros. Quer dizer, custavam 150 euros. Agora vai ser mais, não vai". A retórica é óbvia, tal como a conclusão. "Vão ser as famílias e as empresas a pagar isto".

"Será a guerra assim tão determinante?"

O Governo anunciou que o desconto no Autovoucher vai subir de cinco para 20 euros e passa a ser aplicado a 200 litros de combustível por mês. A medida "não vai ser suficiente", defende Elisabete Braga, antes de recuar no tempo para criticar os efeitos práticos das oscilações do mercado do petróleo.

"Não foi assim há tanto tempo. Durante a pandemia, o petróleo chegou a ser negociado a preços negativos e os combustíveis baixaram de uma forma totalmente residual para o consumidor. Há um aproveitamento, claro que há um aproveitamento", diz a enfermeira, antes de deixar uma última pergunta de difícil resposta, algo tão comum nos dias que correm.

"Será que a guerra é assim tão determinante para esta subida de preços? Não sou especialista, muito longe disso, mas sempre achei que a Rússia era mais importante como distribuidora de gás do que de petróleo. Eu sei que está tudo ligado, mas também há muitos interesses à volta. Cá estaremos para enfrentar mais este desafio", promete.

O depósito está cheio e a carteira mais leve. Esta sexta-feira, Elisabete Oliveira pagou 89 euros, mas, a partir de segunda-feira, os mesmos 53 litros passam a representar um rombo de quase 96 euros. E a carteira, essa, é a mesma.

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