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Guerra castiga criptomoedas e ouro pode ganhar terreno

Guerra castiga criptomoedas e ouro pode ganhar terreno

Com perda de 2,8 mil milhões de euros numa cripto da moda e perspectivas de recessão económica, os investigadores estão a regressar a ativos mais seguros.

A guerra na Ucrânia tem afetado o valor das criptomoedas e até houve uma, a luna, que perdeu três mil milhões de dólares (2,8 mil milhões de euros) em poucas horas. A bitcoin, a mais valiosa e famosa das criptomoedas, desvalorizou-se 21% no último mês, ao passo que o ouro, a valer cerca de 1846 dólares, praticamente não desceu e há previsões de poder subir acima dos 2000 dólares nos próximos meses. Quem investiu há pelo menos dois anos, ainda está a ganhar 6,6% no ouro e 226,7% na bitcoin (BTC). Mas a antecipação da subida dos juros e a possível recessão económica estão a levar os investidores a procurar outros ativos de refúgio.

Depois de ter batido recordes históricos em novembro do ano passado, a bitcoin tem estado sempre a perder valor, desde que começou a guerra na Ucrânia, tal como outras criptomoedas. O ouro valorizou-se, desceu e parece ter estabilizado, havendo perspetivas de poder aumentar quase 10% este ano. "Recomendamos entradas longas no ouro ao preço de mercado com dois targets: 1895 e 2027 dólares e stop loss a 1750 dólares", aconselhou, esta semana, a corretora online XTB.

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Mas o investimento nestes ativos é muito volátil, avisam os analistas. "Não é porque a cotação está a subir que se deve investir em qualquer coisa", alertou Emília Vieira, fundadora e CEO da Casa de Investimentos, acrescentando que, "por essa lógica, o gás natural é o que mais sobe este ano".

Emília Vieira acredita apenas em "investir em valor, seja em ações de empresas com um histórico de lucros consistente, seja em imobiliário". Mesmo assim, contabilizou, "nos últimos 140 anos, o imobiliário só conseguiu bater a inflação em 0,3%, enquanto as ações a ultrapassaram em 6,5%".

fim do lucro rápido

Desde que a guerra na Ucrânia começou, a volatilidade acentuou-se e o investimento a curto prazo é cada vez menos rentável. A evolução da cotação da BTC nos últimos meses não tem sido favorável (-21,19% no último mês), porém, olhando a prazos superiores a dois anos a valorização é imbatível.

"A guerra induziu incerteza e volatilidade nos mercados financeiros", reconheceu Filipe Garcia, considerando que "a evolução das criptomoedas tem tido maior correlação com os ativos de risco, como as bolsas, do que com o ouro". O presidente da Informação de Mercados Financeiros (IMF) diz que "as cripto não vão desaparecer, haverá muito processo de seleção natural, mas não desempenharão o principal papel como moeda no sistema financeiro mundial". Sobre se ainda vale a pena entrar na montanha-russa deste tipo de investimento, Filipe Garcia recomenda que "quem entender que não pode ficar de fora, poderá investir, mas não o deve fazer de forma alavancada e terá de ter consciência de que é um investimento de alto risco".

Juros enfraquecem bitcoin

"As expectativas de uma significativa subida dos juros pelos bancos centrais para travar a escalada da inflação tem diminuído a atratividade do ouro que apenas gera ganhos de capital", explicou Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, sobre o motivo pelo qual o ouro não se valorizou tanto como noutras crises.

No caso da BTC, adiantou o analista, "à medida que os juros sobem, o interesse pelas principais moedas fiduciárias regressa, como o dólar norte-americano". Paulo Rosa acrescentou que a BTC é "mais sensível aos movimentos das taxas de juro tal como as ações, nomeadamente as tecnológicas".

"Com ativos tão sensíveis ao pânico dos investidores, não é nada aconselhável arriscar", rematou Emília Vieira.

6,6%

Alta do ouro nos últimos dois anos, que chega a perto de 50% desde 2017 e a 541% desde o ano 2000. O ativo é encarado como refúgio em tempo de crise, porém também sofreu com a guerra na Ucrânia. Pode subir até ao final do ano.

227%

Valorização da bitcoin nos últimos dois anos, apesar de já ter perdido 51% desde novembro, altura em que atingiu o valor histórico de 68 mil dólares. A moeda também chamada "ouro digital" cotava-se ontem a 28,8 mil dólares.

A bitcoin está a desvalorizar-se, mas subiu 227% nos últimos dois anos. Ainda vale a pena?

Filipe Garcia, presidente da Informação de Mercados Financeiros, aconselha quem quer estar nesse mercado a ter consciência que "é de alto risco", ou seja, pode perder tudo a qualquer momento.

Qual a probabilidade de outras criptomoedas desaparecerem de um dia para o outro?

Se já aconteceu com a luna, pode acontecer com qualquer outra cripto. Emília Vieira, CEO da Casa de Investimentos, desaconselha colocar valores "nesse mercado altamente especulativo e volátil, em que os investidores se assustam muito facilmente".

E o mercado de ações, compensa?

As ações e os principais fundos não têm tido valorizações este ano, no entanto, os analistas recomendam que se invista em empresas dos setores de utilities (serviços públicos como fornecimento de água, eletricidade, telecomunicações), banca, retalho.

Se os juros vão subir, será que os depósitos a prazo vão voltar a ficar interessantes?

Os juros não vão subir tanto assim. O Banco Central Europeu está a equacionar a subida de 0,25% em julho, podendo chegar a 0,5% se a inflação continuar a escalar. Com essa subida máxima, passarão a ser de 0%. Nos EUA, a Reserva Federal (Fed) anunciou que vai subir as taxas de juro em 50 pontos base, colocando-a entre os 0,75% e 1%. Os norte-americanos admitem aumentos maiores para estabilizar a inflação.

Para investir em ouro, compra-se barras?

Paulo Rosa explica que "o ouro físico fornece uma exposição mais direta", mas tem custos elevados em "comissões de revendedores, impostos sobre vendas em alguns casos, custos de armazenamento e de segurança". O trader sugere que "os Exchange Traded Funds [que investem em ouro] podem ser negociados numa bolsa de valores, logo a liquidez é muito maior".

Quais são afinal melhores investimentos?

Os melhores investimentos são os que vão de encontro ao que o investidor pode e precisa, segundo a tolerância que tiver ao risco. As maiores remunerações estão geralmente em ativos arriscados onde pode perder grande parte ou todo o capital. Já os depósitos a prazo não conseguem sequer vencer a corrosão da inflação (só em abril, foi de 7,2%).

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