Dieta e saúde: a iniciativa europeia para reduzir doenças cardiovasculares e obesidade

Foto: Towfiqu barbhuiya/Pexels
Desde óculos que contam calorias a videojogos sobre alimentação saudável para crianças, investigadores financiados pela União Europeia (UE) estão a desenvolver novas abordagens para apoiar estilos de vida e hábitos alimentares saudáveis.
Um dos maiores desafios no estudo do impacto da alimentação nas doenças é compreender o que as pessoas realmente comem. Os diários alimentares e os inquéritos continuam a ser as ferramentas padrão, mas muitas vezes são insuficientes, pois as pessoas esquecem-se, calculam mal as porções ou minimizam as escolhas menos saudáveis.
Para resolver este problema, investigadores financiados pela UE estão a testar algo novo: uma câmara discreta que pode ser usada em conjunto com IA. O sistema consegue detetar automaticamente os tipos de alimentos e estimar o tamanho das porções em tempo real, oferecendo uma imagem mais nítida e fiável dos hábitos alimentares diários.
Imagine uma rotina matinal. Abre o seu frigorífico para preparar o pequeno-almoço. Uma pequena câmara presa aos seus óculos grava discretamente o que vai para comer. Não há suposições nem possibilidade de encobrimento.
Estar atento ao que come
A tecnologia está a ser testada no CoDiet, uma colaboração de quatro anos financiada pela UE que decorrerá até ao final de 2026.
Reúne 17 instituições de oito países da UE e países associados, como o Reino Unido, para explorar como a alimentação contribui para doenças não transmissíveis, como diabetes, obesidade e doenças cardíacas.
Cerca de 200 voluntários em toda a Europa usaram as câmaras diariamente sob a supervisão de Aygul Dagbasi, nutricionista e investigadora de pós-doutoramento no Imperial College London, no Reino Unido.
"As pessoas ficaram motivadas a participar porque isso lhes proporcionou uma compreensão mais profunda da sua dieta e do impacto na sua saúde", disse Dagbasi.
A principal vantagem é a objetividade. "Quando perguntamos aos pacientes o que comem, a resposta que recebemos é apenas a sua percepção", explicou ela. "Se não soubermos o que as pessoas realmente comem, as nossas conclusões e recomendações serão imprecisas."
Uma imagem de saúde
Os investigadores do CoDiet estão a ir mais longe, combinando registos alimentares com análises de IA de biomarcadores a partir de amostras de sangue e urina. Ao levar em consideração a genética, o metabolismo e as bactérias intestinais, eles esperam explicar por que nem todas as pessoas respondem da mesma forma à mesma dieta.
O próximo passo é criar uma ferramenta que forneça conselhos personalizados sobre alimentação, com testes previstos na Grécia, Irlanda, Espanha e Reino Unido.
"Esperamos que isso torne as recomendações alimentares mais personalizadas e eficazes, mas também mais acessíveis", afirmou Dagbasi. "Em muitas partes do mundo, o acesso a um nutricionista qualificado é limitado." Isso significa que os grupos mais vulneráveis, como crianças, adolescentes e idosos, muitas vezes não recebem a ajuda de que precisam.
Não existe uma solução única para todos
No entanto, prevenir a obesidade envolve muito mais do que aquilo que aparece no prato.
"A relação entre alimentação e saúde é muito complexa", afirmou Itziar Tueros, diretora do Departamento de Alimentação e Saúde da AZTI, um importante centro de investigação no País Basco, Espanha, e coordenadora da equipa de investigação CoDiet.
"O metabolismo de cada pessoa é único, o que significa que as pessoas respondem de forma muito diferente à mesma dieta."
Além de aconselhamento personalizado, a equipa CoDiet está a analisar as políticas alimentares em seis países da UE. Estão a analisar como a regulamentação, a educação ou um maior acesso a alimentos saudáveis podem ajudar a reduzir as taxas de doença em comunidades inteiras.
"O nosso objetivo é desenvolver ferramentas que ajudem as pessoas a fazer escolhas mais saudáveis, ao mesmo tempo que moldamos políticas baseadas em evidências para apoiar a prevenção da obesidade e a redução de doenças crónicas", disse Tueros.
O impulso da Europa para a prevenção
A investigação CoDiet faz parte de um esforço europeu mais amplo para combater a obesidade e reforçar os cuidados de saúde preventivos.
Nas últimas décadas, a obesidade atingiu proporções epidémicas, afetando mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo. Na UE, mais de metade de todos os adultos estão acima do peso ou são obesos, e os números estão a aumentar rapidamente.
A obesidade infantil é particularmente preocupante, prevendo-se que os casos dupliquem entre 2020 e 2035, de acordo com aFederação Mundial da Obesidade.
"As taxas de obesidade estão muito altas no momento", alertou Dagbasi. "Vemos que as pessoas comem de forma diferente em diferentes países, mas todos temos os mesmos problemas de obesidade."
Em resposta, nove projetos apoiados pela UE, incluindo o CoDiet, uniram forças no OBEClust (agrupamento europeu de projetos de investigação sobre obesidade). Esta colaboração reúne conhecimentos para compreender melhor os riscos, promover a prevenção e a mudança de comportamentos e desenvolver estratégias personalizadas para manter um peso saudável ao longo da vida.
"O cluster dá-nos uma visão mais ampla das atividades e pesquisas relacionadas com o tema, permitindo-nos criar mais sinergias", disse Tueros.
Uma abordagem multidisciplinar é essencial aqui, disse ela. "Se for sozinho, poderá ir mais rápido, mas não mais longe."
Riscos personalizados para os jovens
Outro projeto da OBEClust, o PAS GRAS, centra-se na avaliação personalizada dos riscos para crianças e jovens adultos. Coordenado por Paulo Oliveira, vice-presidente do Centro de Neurociência e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, o projeto tem a duração de cinco anos e decorrerá até 2028.
"É importante prever quem está em maior risco, porque a obesidade não é tão simples como as pessoas podem pensar", afirmou Oliveira. "Existe um estigma de que as pessoas obesas simplesmente comem demais e não se movimentam o suficiente. Na realidade, muitos fatores influenciam a obesidade."
Dezasseis organizações em sete países da UE e no Reino Unido estão a desenvolver novas ferramentas para prever o risco de obesidade e a probabilidade de complicações de saúde relacionadas.
"Embora a obesidade esteja associada a muitas complicações de saúde, cada paciente desenvolve-as de forma diferente - e ainda não sabemos porquê", afirmou Oliveira.
Dieta mediterrânica
Os investigadores do PAS GRAS também estão a conceber intervenções no estilo de vida, com foco na dieta mediterrânica. Os seus estudos estão a identificar quais moléculas nos alimentos tradicionais ajudam a acelerar o metabolismo, queimar gordura ou regular o apetite.
Por exemplo, eles estão a investigar as propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e digestivas dos cogumelos e do Za'atar, uma mistura de ervas e especiarias do Médio Oriente, para ver se ajudam a reduzir a gordura abdominal e a melhorar a saúde metabólica.
Partilhar essas descobertas com quem precisa delas é outro desafio. A equipa criou campanhas de alfabetização para crianças e jovens adultos, incluindo um livro para colorir, banda desenhada e um videojogo para ajudá-los a compreender como a sua alimentação e estilo de vida afetam o seu corpo.
Tal como o CoDiet, o PAS GRAS também irá fornecer orientações para a elaboração de políticas. Oliveira, que também preside a OBEClust, salientou que uma mudança real requer um esforço coletivo.
"Para mudar políticas, é preciso evidência de muitos projetos, não apenas de um. Trabalhar em conjunto ajuda-nos a estabelecer um terreno comum para políticas comuns."
Mudar o foco para a prevenção
A mensagem dos investigadores é clara: a prevenção deve assumir um papel central.
"Estamos a tratar a obesidade de forma reativa. Tentamos curar em vez de prevenir", afirmou Oliveira. "Precisamos de nos concentrar mais na prevenção e diminuir os riscos enquanto há tempo."
Tueros concorda. "Esperamos que uma colaboração internacional aberta nos ajude a alcançar o nosso principal objetivo: causar impacto no mundo real. Com novas soluções tanto para pacientes como para profissionais de saúde."
A ligação entre a obesidade e outras doenças crónicas está bem estabelecida. Um estudo recente publicado na revista Global Heart alertou que o aumento da obesidade está a contribuir para o aumento das doenças cardiovasculares (DCV) em todo o mundo.
Com as doenças cardiovasculares já a serem a principal causa de morte na Europa, a Comissão Europeia está agora a elaborar um Plano de Saúde Cardiovascular da UE.
O objetivo é reduzir as mortes prematuras por DCV, promovendo estilos de vida mais saudáveis, prevenindo a obesidade e melhorando a deteção precoce e o tratamento.
"A obesidade é uma das maiores preocupações de saúde do nosso tempo e precisamos de enfrentá-la", afirmou Dagbasi. "Ter uma compreensão holística das suas causas irá ajudar-nos a lidar melhor com o problema."
Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE.
