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"Bruxa de Soalhães": o crime que chocou o país

"Bruxa de Soalhães": o crime que chocou o país

"Se o nosso espírito voar e nos transportar às longínquas épocas da Idade Média, não encontra uma cena tão selvagem e revestida de tanta preversidade como aquela que vamos narrar", relatava o JN em fevereiro de 1933. Pobreza, analfabetismo, crendice juntaram-se num crime no lugar da Oliveira, em Soalhães, Marco de Canaveses, que fez recuar o país até aos tempos da Inquisição.

Uma mulher, Arminda de Jesus Pereira, de 33 anos, mãe de dois filhos menores, morreu queimada, às mãos de quatro homens, seus familiares, por ter "o Diabo no corpo".

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Uma tragédia que começou com a doença de Joaquina de Jesus Couto, que tinha ataques de histerismo, a recusa do marido em consultar um médico e o diagnóstico de uma "bruxa" de Gaia, Olívia de Jesus, que a todos convenceu que a pobre mulher sofria com o Diabo que andava pela terra no corpo de Arminda Pereira, também ela achacada por doença misteriosa.

Naquela noite de 25 de fevereiro, durante mais um ataque, estavam em casa o marido, António Queirós Correia, e três familiares, Manuel Queirós Correia, Anastácio Pereira e Francisco de Queirós Correia, fazendo benzeduras com o "Livro de S. Cripiano", quando entra Arminda Pereira, que se lhes junta nas rezas.

Em má hora o fez. Em delírio, Joaquina grita: "Aí vem o espírito mau. Matem-na que traz o Diabo no corpo. Matem-na que ela ressuscita".

Perante o olhar estarrecido dos seis filhos de Joaquina, os quatro homens começam a espancar Arminda com cabos de sacholas.

Indiferentes aos gritos de dor e pedidos de misericórdia, as "quatro fêras sob o aspeto de homens", descreve o jornalista, arrastam-na para a eira e decidem "purificá-la" pelo fogo, convictos de que ressuscitaria.

Juntam caruma e sobre ela lançam a agonizante Arminda. Tentam pegar fogo à lenha, e "a infeliz Arminda Pereira, num colosssal esfôrço, ainda pode gritar: Não me queimem! Tenham dó! Os meus filhos!".

Um dos filhos de Joaquina vai a casa buscar um candeeiro a petróleo e lança o combustível para a caruma, que finalmente pega fogo e mata Arminda. O horror não terminou, pois durante a noite cães devoraram as pernas da vítima.

Os algozes passaram a noite a rezar, esperando pela ressurreição que nunca aconteceu. A Justiça terrena condenou-os a seis anos de prisão, seguida de 10 anos de degredo ou, em alternativa, uma pena fixa de degredo por 20 anos.

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