
Associação de Editores da Europa e América Latina aprova Decálogo, que serve de guia para as redações que abraçam o futuro sem receio.
Ferramenta de trabalho nas redações ou candidata a eliminar postos de trabalho nos média? A Associação de Editores da Europa e América Latina (EditoRed) acredita que a inteligência artificial (IA) pode e dever ser uma importante aliada do jornalismo, mas para que tal suceda são necessárias regras. Nesse sentido, criou o Decálogo da IA e da Comunicação. Os seus membros estão otimistas, bem como os especialistas contactados pelo JN. Os benefícios ou malefícios da nova tecnologia dependerão do seu uso pelos próprios humanos.
"A IA não é uma ameaça que venha para nos substituir, mas um reflexo das nossas possibilidades - que nos convida a ser mais precisos, mais eficazes e, em última instância, mais humanos na nossa incansável busca pela verdade", afirma Alberto Barciela, vice-presidente e diretor de congressos da EditoRed. Opinião semelhante tem Fabiana Schiavon, jornalista com mais de duas décadas de experiência, tendo passado pela Folha de S. Paulo: "É urgente treinar os jornalistas para que todos saibam como tirar proveito dessas ferramentas. Com elas, podemos ter menos trabalho braçal e, assim, concentrarmo-nos em análises e investigações. Não vejo outro caminho senão abraçar essa nova tecnologia".

Os dez princípios, publicados no site da Associação e resumidos aqui em formato de infográfico, tocam aspetos que vão desde a deontologia e ética, passando pela inovação em termos de formatos a oferecer ao público e acabando na possibilidade de a IA ajudar a garantir a sustentabilidade económica e novos modelos de negócio. A responsabilidade estará sempre do lado humano. "A IA deve ser enquadrada como um suporte, quase um colega da redação que, contudo, precisa ser questionado constantemente, para prescindir do seu viés, que é o de sintetizar as questões através de uma lógica computacional e não crítica, e que visa agradar o interlocutor com raciocínios lisos, sabendo-se que, na verdade, a realidade está sempre cheia de crispações", alerta Vania Baldi, professor de Sociologia e Média no ISCTE e membro da comissão executiva do Observatório da Comunicação (Obercom), organismo que estuda a evolução do setor em Portugal.
Segundo Alberto Barciela, o Decálogo pretende ser um guia, uma manifestação de bom senso e de compromisso. Jesús González Mateos, presidente da EditoRed, define-o numa frase: "É a nossa promessa aos cidadãos e, porque não dizê-lo, um compromisso connosco próprios, os comunicadores, e com a viabilidade das nossas empresas". A esse propósito, David Caswell, consultor em IA no jornalismo e ex-executivo da BBC, sublinha que o Decálogo EditoRed está demasiado orientado para a manutenção da relevância dos jornalistas e das organizações de média tradicionais. "Precisamos de princípios jornalísticos nos quais as necessidades de informação dos públicos, dos cidadãos e das sociedades estejam sempre em primeiro lugar. Se a IA puder atender melhor a essas necessidades, então todos deveríamos adotá-la", explica o consultor, alertando que se os jornalistas optarem por não seguir esse caminho, mais virado para fora, "os tecnólogos fá-lo-ão no seu lugar".
Ao contrário do que se possa pensar, a IA no jornalismo abre espaço para a diferenciação nas matérias fundamentais, não afunilando o setor numa padronização que condenaria muitos média ao seu fim precoce. Pelo menos essa é a visão da Editored no seu Decálogo. Vania Baldi tende a concordar. "Haverá tempo livre para investigar e experimentar, caso contrário os jornais serão todos iguais", considera o responsável do Obercom.

