Distribuição de jornais no interior leva VASP e ERC a sentarem-se à mesa em fevereiro

Em dezembro, a VASP adiantou a intenção de cortar rotas de distribuição de jornais em oito distritos do interior, alertando para prejuízos recorrentes na operação diária
Foto: Leonel de Castro
Reunião com a ERC foi solicitada pela distribuidora numa fase crítica para o setor. A VASP admite estar na iminência de cortar rotas e alerta para a impossibilidade de continuar a suportar prejuízos na distribuição diária em oito distritos do interior do país.
A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) vai reunir-se com a VASP no início de fevereiro de 2026, confirmou à Lusa fonte oficial do regulador. O encontro foi agendado a pedido da distribuidora de jornais e revistas, num momento em que a empresa admite dificuldades crescentes para manter a distribuição diária de imprensa em várias zonas do interior do país.
De acordo com a ERC, o pedido de reunião foi rececionado a 12 de janeiro. O encontro acontece depois de a administração da VASP ter sido chamada ao parlamento, onde foi ouvida na comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, no âmbito de um requerimento do grupo parlamentar do Chega.
A audição teve como pano de fundo a anunciada possibilidade de suspensão da distribuição diária de jornais em oito distritos do interior, uma decisão que a empresa admite estar a avaliar devido à pressão financeira acumulada nos últimos anos.
"Não é viável distribuir jornais no interior"
Perante os deputados, o presidente do Conselho de Administração da VASP, Marco Galinha, afirmou que a empresa "está na iminência de cortar rotas", sublinhando que a distribuidora "está ao lado dos editores", mas já não consegue suportar resultados negativos recorrentes. "Estamos preocupados com as pessoas no interior" e "não é viável distribuir jornais no interior do país", declarou.
Na mesma audição, o administrador Rui Moura reforçou que os custos associados à distribuição têm sido absorvidos pela própria empresa. Segundo o gestor, "desde 2019" que a distribuição de jornais no interior deixou de ser viável do ponto de vista económico.
A posição da administração foi reiterada num contexto de quebra continuada das vendas de imprensa, agravada pelo aumento significativo dos custos operacionais, nomeadamente nos combustíveis, na logística e na manutenção das rotas diárias.
Interior sob risco de ficar sem jornais diários
A situação tornou-se pública no início de dezembro, quando a VASP informou que estava a avaliar ajustamentos na distribuição diária nos distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança.
Na altura, a empresa explicou que atravessava uma "situação financeira particularmente exigente", reafirmando, ainda assim, "de forma inequívoca o seu compromisso com o acesso universal à informação", entendido como um pilar essencial da coesão territorial, da igualdade de oportunidades e do exercício pleno da cidadania democrática.
A VASP é responsável por uma operação logística de dimensão nacional, que começa nas gráficas, onde os jornais diários são recolhidos e organizados em maços com quantidades precisas de vários títulos. Estes são depois distribuídos por mais de 6.600 pontos de venda em todo o país, incluindo quiosques, papelarias, supermercados e gasolineiras.
A operação de expedição decorre apenas no Cacém e na Maia e está sujeita a uma forte pressão de tempo. A partir destes centros, as publicações seguem para os restantes polos, de onde partem as rotas de distribuição.
Uma operação nacional com 14 polos
A empresa opera atualmente a partir de 14 polos distribuídos pelo território nacional, em cidades como Braga, Vila Real, Maia, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Évora ou Palmela. Nem todos os pontos de venda estão abertos diariamente, o que faz variar o número de jornais entregues e as próprias tiragens.
A possível redução da distribuição no interior está a gerar preocupação entre os editores. Para a presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, Cláudia Maia, "o que é importante é que haja uma solução para a distribuição da imprensa, seja ela qual for".
A associação será ouvida no parlamento na próxima terça-feira, depois da audição da administração da VASP. "A expetativa é voltar a pôr o assunto em cima da mesa porque ainda não aconteceu nada", afirmou, sublinhando que desde o comunicado da VASP, em dezembro, "ainda não temos nenhuma resposta do Governo".
Cláudia Maia recordou que não existem respostas desde outubro de 2024, quando foi apresentado o Plano de Ação para a Comunicação Social, que incluía uma medida destinada a garantir a distribuição de imprensa nas zonas de baixa densidade populacional.
"O importante é ter uma solução", insistiu, defendendo que esta pode passar por concurso, concurso público internacional ou um acordo entre o Governo e a VASP. Caso contrário, alertou, "corremos o risco de não ter distribuição diária em oito distritos" e de privar as populações do interior do "direito à informação", colocando em causa a coesão territorial.
A dirigente evocou ainda exemplos internacionais, "sobretudo nos Estados Unidos", de regiões que ficaram sem jornais, com impactos negativos na qualidade democrática. "Não gostava de ver o mesmo acontecer cá", rematou.
Na sequência do comunicado de dezembro, a VASP reuniu-se com a Associação Nacional de Municípios Portugueses. Contactada esta semana, fonte oficial da ANMP disse estar a aguardar pelas medidas que o Governo está a preparar para os media antes de fazer uma ponderação definitiva sobre a situação da distribuição.
A administração da VASP garante que tem feito um "grande esforço" para manter os pontos de venda tradicionais, como quiosques, papelarias e tabacarias, apostando na diversificação de produtos, na modernização e em iniciativas como o primeiro encontro nacional de pontos de venda, realizado em 2025.
A distribuidora espera agora que surja uma "solução concreta" num curto espaço de tempo que permita assegurar a continuidade da distribuição de imprensa no interior do país.

