Relatório alerta para o impacto da IA no jornalismo e defende compensação aos editores

Relatório sugere rótulos e licenciamento para proteger leitores e jornais na era da Inteligência Artificial
Foto: Lionel Bonaventure/AFP
Plataforma de investigação britânica alerta que as empresas tecnológicas estão a tornar-se os novos "porteiros" da informação e propõe regras para garantir a transparência, o pluralismo e a sustentabilidade económica dos órgãos de comunicação social.
As notícias produzidas por inteligência artificial devem passar a indicar de forma clara as fontes utilizadas, e as empresas tecnológicas devem compensar financeiramente os editores pelos conteúdos jornalísticos que utilizam. É esta a conclusão de um relatório do "Institute for Public Policy Research" (IPPR), uma organização de investigação britânica de centro-esquerda, que alerta para os efeitos crescentes da IA no jornalismo e para os riscos que representa para a diversidade informativa.
O IPPR defende que as empresas de tecnologia estão a assumir um papel determinante na mediação do acesso às notícias, condicionando o que o público lê e como se informa. Para responder a este novo cenário, o relatório recomenda a criação de rótulos informativos para conteúdos produzidos por IA, indicando que tipo de informação esteve na base das respostas, desde estudos científicos revistos por pares até artigos de órgãos de comunicação social profissionais, assim como a implementação de um regime de licenciamento que permita aos editores negociar o uso dos seus conteúdos.
Pagamento justo e risco de exclusão
"Se as empresas de IA vão lucrar com o jornalismo e moldar o que o público vê, devem ser obrigadas a pagar de forma justa pelas notícias que usam e a operar sob regras claras que protejam o pluralismo, a confiança e o futuro a longo prazo do jornalismo independente", afirmou Roa Powell, investigadora sénior do IPPR e coautora do relatório.
O "think tank" considera que este processo pode começar com a autoridade britânica da concorrência, que dispõe agora de novos poderes de fiscalização sobre a Google. A Competition and Markets Authority propôs recentemente dar aos meios a possibilidade de impedir a recolha automática dos seus conteúdos para os resumos de inteligência artificial apresentados nos resultados de pesquisa. Segundo o IPPR, acordos de licenciamento coletivo ajudariam a garantir que um maior número de meios fosse abrangido, evitando que apenas os grandes grupos beneficiem deste modelo.
Dados do Reuters Institute for the Study of Journalism citados no relatório indicam que os resumos de IA da Google chegam atualmente a cerca de dois mil milhões de utilizadores por mês e que aproximadamente um quarto da população já recorre à inteligência artificial para obter informação. O IPPR defende que a legislação sobre direitos de autor deve manter-se inalterada para permitir o crescimento de um mercado de licenciamento, ao mesmo tempo que o Governo deve incentivar novos modelos de negócio para os meios que não dependam exclusivamente das empresas tecnológicas, incluindo o apoio à "BBC" e ao jornalismo local.
Fontes e robôs testados
Para avaliar o funcionamento destas ferramentas, o instituto testou o ChatGPT, os resumos de IA da Google, o Google Gemini e o Perplexity, introduzindo 100 perguntas relacionadas com notícias e analisando mais de 2.500 ligações apresentadas nas respostas. O estudo concluiu que o ChatGPT e o Gemini não citaram conteúdos da "BBC", que bloqueou os bots usados para recolher informação, enquanto os resumos da Google e o Perplexity recorreram a conteúdos da emissora pública apesar da oposição do serviço público.
A análise revelou ainda que títulos como o "Telegraph", "GB News", "Sun" e "Daily Mail" surgiram em menos de 4% das respostas do ChatGPT, enquanto o "Guardian", que tem um acordo de licenciamento com a OpenAI, foi utilizado como fonte em quase seis em cada dez respostas. O "Financial Times", também com acordo de licenciamento, apareceu com frequência elevada, e o "Guardian" foi igualmente a fonte mais citada pelo Gemini.
O relatório sublinha que a utilização de resumos de IA no topo dos resultados de pesquisa está a reduzir o tráfego para os meios, com impacto direto nas receitas dos editores, uma vez que muitos utilizadores se ficam pela síntese automática. O IPPR alerta ainda para o risco de dependência financeira dos media em relação às empresas tecnológicas e defende financiamento público para novos modelos de jornalismo investigativo e local, bem como para que a "BBC" possa "inovar com IA".
Contexto em Portugal
Em Portugal, a integração da inteligência artificial no jornalismo é ainda incipiente, mas os desafios começam a surgir. Estudos recentes, como o Livro Branco sobre Inteligência Artificial no Jornalismo, indicam que 83,8% dos jornalistas portugueses nunca receberam formação específica em IA e que cerca de dois terços não têm códigos de conduta internos sobre o tema.
A utilização de ferramentas automáticas é maior nos meios online e mais rara na televisão, e apenas 11,9% dos meios mantêm colaborações com universidades ou centros de investigação. Investigadores alertam que, sem regulamentação e atenção, resumos de IA podem reduzir o tráfego e as receitas dos meios, afetando sobretudo jornais regionais e pequenas publicações, ao mesmo tempo que colocam desafios éticos e de pluralismo.

