
Série estreia esta noite
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Minissérie de seis episódios chega hoje à RTP1 e RTP Play, acompanhando quatro mulheres que tentam reconstruir-se numa casa de acolhimento, inspirada numa triste realidade.
Algumas histórias deixam marcas invisíveis, mas que se sentem em cada gesto, silêncio ou olhar. É este peso que "Casa-abrigo" transporta para o ecrã, acompanhando mulheres que tentam reconstruir-se depois da violência.
A série estreia hoje, às 22.30 horas, na RTP1 e RTP Play, protagonizada por Maria João Pinho, Leonor Silveira, Filomena Gigante, Rita Cabaço e Ana Sofia Martins.
Cada episódio centra-se numa protagonista - Vera, Madalena, Conceição e Gabriela - e na psicóloga Joana. Embora cada história seja singular, as trajetórias cruzam-se, revelando medos, pequenas conquistas e a força de quem procura retomar o controlo da própria vida.
Dor e reconstrução
"Estive em casas de abrigo, procurei pessoas e houve várias histórias que me foram contadas. Toda a gente tem uma espécie de história ou conhece alguém, é como se estivéssemos todos ligados pela violência doméstica neste país", revelou Márcio Laranjeira, criador da série, em maio, no IndieLisboa.
A experiência pessoal de Laranjeira também inspirou o guião: histórias reais de mulheres, incluindo a sua mãe, ajudaram-no a orientar a narrativa de forma sensível. Segundo ele, "Casa-abrigo" vai além da dor, destacando a força e resiliência das mulheres e sensibilizando para a importância de espaços de acolhimento e apoio.
O realizador explicou ainda que quer "chegar às pessoas que não estão a ir ao cinema", reforçando a ideia de que a televisão é o meio para tocar diretamente o público.
O projeto confirma que não é necessário mostrar agressões físicas para sentir o peso da violência. O trauma acompanha as protagonistas nos olhares, gestos e silêncios, vincando que fugir do agressor é apenas o primeiro passo. Márcio Laranjeira sublinha que a série mostra também o que vem depois: a perda de identidade, o esforço de reconstruir rotinas e a busca de segurança. Afinal, "são mulheres que precisam de recuperar a sua vida e segurança, mesmo num sítio que as acolhe".
Trabalho de campo
Trabalhou em estreita colaboração com a APAV e ouviu dezenas de histórias. Sobre a forma como retrata as casas-abrigo, quis ser socialmente responsável: mostrar a realidade sem exageros, nem transformá-la em pesadelo ou paraíso. O objetivo é transmitir os desafios e pequenas conquistas de forma fiel.
O impacto da violência nas relações familiares também é explorado. O filho de Madalena, por exemplo, revela com gestos e hesitações a dor de uma infância marcada pelo medo e pela perda de referências.
Entre lágrimas, sorrisos tímidos e gestos de cuidado, o público acompanha a coragem e resiliência destas mulheres, enquanto pequenas vitórias surgem, como uma refeição preparada em conjunto, um abraço inesperado e a confiança que cresce.
As personagens foram construídas em diálogo com as atrizes. Conceição é o "coração da série", Vera simboliza a perda de identidade, Gabriela a energia para continuar e Madalena a ferida que precisa de cicatrizar. Cada casting e visita às casas-abrigo permitiu que as atrizes assumissem as histórias de forma sensível.
As gravações decorreram em Lisboa e arredores, sem referências geográficas explícitas, para que a história pudesse acontecer em qualquer ponto de Portugal.
Em 2025, e ainda faltando mais de dois meses para o ano terminar, a APAV já apoiou mais de 14 mil pessoas, 75% em casos de violência doméstica. A maioria das vítimas são mulheres entre 25 e 54 anos. Estes números lembram que a violência doméstica não é um assunto privado: denunciar e apoiar fazem toda a diferença.
"Casa-abrigo" não é apenas uma história de dor. É uma narrativa de sobrevivência, coragem, esperança e união, destinada tanto a quem sofre como a quem assiste no sofá, reconhecendo sinais de violência que, por vezes, passam despercebidos.

