
O antigo ministro da Cultura francês Jack Lang
Foto: Bertrand Guay/AFP
O antigo ministro da Cultura francês Jack Lang declarou, esta segunda-feira, que "reconhece plenamente" a sua passada relação com Jeffrey Epstein, mas que desconhecia os seus crimes do abusador sexual condenado.
O nome de Lang, atual presidente do Instituto do Mundo Árabe (IMA) em Paris, e o da sua filha mais velha Caroline, surgem num novo lote de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano, referentes, nomeadamente, a uma transação imobiliária offshore em Marrocos e a uma empresa estabelecida num paraíso fiscal. "Aceito plenamente as relações que possa ter formado, numa altura em que nada sugeria que Jeffrey Epstein pudesse estar no centro de uma rede criminosa", afirmou Lang, de 86 anos, num comunicado enviado à AFP.
Lang foi ministro da Cultura (1981-1986 e 1988-1993) durante os dois mandatos de sete anos do governo de esquerda de François Mitterrand.
Em 2013, tornou-se presidente do IMA, que divulga a cultura árabe, e o seu mandato foi renovado no final de 2023 por mais três anos.
De acordo com uma investigação publicada na segunda-feira pelo site francês Mediapart, baseada nestes documentos, Caroline Lang, profissional da indústria cinematográfica, fundou em 2016 com Epstein uma empresa, a Prytanee LLC, sediada nas Ilhas Virgens Americanas.
Embora Jack Lang afirme ter ficado "completamente surpreendido" ao descobrir os crimes sexuais de Epstein, que morreu na prisão em 2019, as trocas de e-mails publicadas detalham discussões comerciais diretas entre a família Lang e o criminoso sexual.
Em março de 2015, conforme as mensagens, a família de Lang, incluindo a mulher Monique, negociou com Epstein a venda de um riad em Marraquexe, o "Ksar Masa", como intermediária.
Questionado pelo Mediapart sobre este episódio, Jack Lang indicou que não se lembrava bem da história, acreditando que tinha simplesmente passado as exigências do vendedor, sem comentários.
Na sua declaração à AFP, na segunda-feira, Jack Lang não abordou estas ligações financeiras da sua família, mas enfatizou o contexto da sua relação com o Epstein, que conheceu "há cerca de quinze anos" através do cineasta Woody Allen.
"Um generoso mecenas das artes, [Epstein] era uma figura constante na alta sociedade parisiense da época. Ficámos encantados com a sua erudição, a sua cultura e a sua curiosidade intelectual", explicou.
"Quando desenvolvo uma boa relação com alguém, geralmente não pergunto sobre os seus antecedentes criminais", defendeu-se.
"Os valores humanos que prezo, particularmente a dignidade e a integridade, são totalmente estranhos a estas práticas hediondas", adiantou.
Caroline Lang é mencionada num testamento assinado por Epstein dois dias antes da sua morte, prometendo-lhe 5 milhões de dólares, quantia que alega não ter recebido, a par de ter solicitado a liquidação da sociedade conjunta.
A filha do ex-ministro reconheceu ao Mediapart que não tinha declarado às autoridades fiscais francesas a empresa com Epstein, mas declarou que "não investiu qualquer dinheiro nela" e que não tinha "compreendido as implicações".
A publicação, na sexta-feira, de mais de três milhões de ficheiros relacionados com o milionário e criminoso sexual condenado norte-americano Jeffrey Epstein incluem nomes do mundo das artes, de empresas e desporto e da política, como o secretário do Comércio, Howard Lutnick.
Lutnick, de acordo com estes documentos, planeou em 2012 visitar com a mulher a ilha de Epstein, desconhecendo-se se a visita realmente aconteceu.
Outra figura pública que reaparece nos documentos é Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Carlos III do Reino Unido caído em desgraça ao surgir no centro de um escândalo, quando uma das vítimas de Epstein afirmou que o ex-príncipe mantivera relações sexuais com ela quando era menor, com 17 anos.
Andrew Windsor interpôs-lhe um processo judicial e chegaram a um acordo antes do início do julgamento num tribunal de Nova Iorque.
O documentos divulgados na sexta-feira incluem uma lista de pelo menos 12 acusações contra o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump --- que já tinha sido associado a Epstein ---, por abuso sexual de menores, juntamente com o multimilionário e Maxwell.
Estas acusações, coligidas pelo FBI (a polícia federal dos Estados Unidos) no ano passado, carecem, contudo, de provas que as sustentem.
Jeffrey Epstein foi encontrado morto na sua cela de uma prisão federal em Nova Iorque, com um lençol atado ao pescoço, em 2019, enquanto aguardava julgamento por acusações de exploração sexual.
