
Carlos III dirigiu-se pela primeira vez aos britânicos, num discurso transmitido pela televisão
EPA/Tolga Akmen
A proclamação do monarca com "inabalável devoção". Carlos III, a causa ambiental e o Aston Martin que "anda a aditivos de vinho branco".
Do alto de uma varanda do Palácio de Saint James, em Londres, um alto funcionário do chamado Conselho de Ascensão, proclamará oficialmente, em voz alta, o rei Carlos III. Após a cerimónia e até ao funeral da mãe, previsivelmente no dia 19, o monarca tem uma semana com a agenda cheia, desde logo com uma viagem de luto pelas capitais das restantes nações do Reino Unido. Se pudesse, o filho de Isabel II, tão dado como é à causa ecológica, era capaz de fazer a digressão no velho Aston Martin, que tanto estima e que anda a "aditivos de vinho branco inglês".
A anedota corre pela Internet e foi contada pelo próprio Carlos em outubro de 2021, nas vésperas da COP26, a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, decorrida em Glasgow. Conta-se que o então príncipe de Gales se gabou do Aston Martin que conduz há 50 anos e cujo motor foi modificado para "andar a aditivos de vinho branco inglês e de soro de queijo de produção artesanal", "uma mistura 85% biológica e 15% de gasolina sem chumbo".
A brincar, o agora rei britânico pediu aos participantes na COP que evitassem "o impacto catastrófico" das alterações climáticas. Demagogia? Nada disso. A ecologia é um dos cavalos de batalha do tetraneto da rainha Vitória. Carlos até lançou recentemente, no Amazon Prime Video, um canal de televisão dedicado à causa.
Ares do campo
Nada que espante no homem de 73 anos - o mais velho de sempre a chegar à Coroa britânica -, amante do "countryside", das quintas, dos espaços livres, dos cavalos e do polo. Este é, de resto, um dos poucos assuntos que o fazem sair da habitual reserva.
Apaixonado pela botânica, tem uma quinta biológica há quase quatro décadas. Comprou-a em 1985, bem antes do evento dos grandes combates pela defesa do ambiente, e instalou uma reserva de terras cultivadas sem pesticidas e com a criação de bovinos ao ar livre. Foi então que a imprensa britânica, o satirizou com o título de "Príncipe das Batatas".
Avançado no tempo, foi o primeiro lavrador britânico a anunciar a renúncia aos fertilizantes químicos. Uma dedicação que não deixou de ter uma dose de "business": em 1990, lançou a própria marca, "Duchy Originals", que ainda hoje é uma referência na agricultura biológica da Albion, com um volume de negócios de vários milhões de euros.
Pois é todo este mundo rural da chique província britânica, frequentado a galochas deliberadamente despojadas, que Carlos III terá, se não de abdicar, pelos menos de descurar, "na promessa de vida" ao serviço da Coroa, como o próprio referiu, ontem, para milhões de telespectadores, no primeiro discurso já em funções, proferido em Londres, após o regresso de Balmoral, onde tratou das formalidades da trasladação e do funeral da mãe.
"Para além da tristeza pessoal que toda a minha família sente, também partilhamos com muitos de vós no Reino Unido, em todos os países onde a rainha foi Chefe de Estado, na Commonwealth e em todo o mundo, um profundo sentimento de gratidão pelos mais de 70 anos em que a minha mãe serviu o povo de tantas nações", disse o novo monarca, no primeiro discurso dirigido aos súbditos.
O eterno herdeiro, colocado logo à nascença na primeira linha de sucessão, toma, assim, o trono britânico. Um destino para o qual desde sempre foi educado e de quem mais se encarregou o pai, o príncipe Philip, porque a mãe estava já demasiado ocupada nas funções para que fora investida e coroada, desde 1952.
Triângulo de alcova
Rompendo com a tradição de um ensino assegurado pelos precetores do Palácio de Buckingham, Isabel II mandou o filho para uma escola de Londres. Só depois das primeiras letras ingressou no internato escocês que o preparou para a entrada na Universidade. Carlos foi o primeiro diplomado (História e Arqueologia) da família real e seguiu o caminho tradicional da época, com uniforme. Foi piloto da Royal Air Force e também serviu na Royal Navy.
Em 1976, com 28 anos, concluiu a carreira militar e, um ano mais tarde, encontrou Diana Spencer. O casamento foi transmitido pela televisão e seguido por mais de mil milhões de telespectadores de todo o mundo. O casal teve dois filhos, o príncipe William, nascido em 1982, e o príncipe Harry, em 1984, mas depressa se desfez, com a infidelidade de Carlos, que manteve a relação de juventude com Camila Parker Bowles, agora também investida rainha consorte.
O divórcio foi tumultuoso. Após a morte trágica de Diana - falecida num acidente de viação, em Paris, em 1997, quando, juntamente com o namorado, fugia aos paparazzi -, Carlos exigiu ao protocolo que a urna da ex-mulher fosse coberta com a "Union Jack", numa última homenagem, essencial para o príncipe de Gales e para os filhos. A 9 de abril de 2005, após várias décadas de uma paixão clandestina, Carlos pôde, finalmente, contrair matrimónio com Camila.
São todas estas vivências que assaltarão Carlos III na proclamação oficial. "Servirei a nação com inabalável devoção", disse o 41.º monarca após Guilherme I, o Conquistador.

