
Foto: Direitos Reservados
Um vídeo do momento em que Alex Pretti é empurrado por um agente federal antes de ser baleado e morto em Minneapolis, no sábado, mostra que o enfermeiro de 37 anos estava a segurar um telefone, não uma arma, quando foi abordado, contradizendo diretamente as alegações de altos funcionários do governo Trump de que teria ameaçado "massacrar" os polícias.
Depois do assassinato de Alex Pretti, o Departamento de Segurança Interna dos EUA divulgou a imagem de uma pistola, que Donald Trump chamou de "a arma do atirador" numa publicação nas redes sociais. Em conferência de imprensa, Kristi Noem, secretária do Departamento de Segurança Interna, afirmou que Pretti "abordou agentes da patrulha da fronteira dos EUA com uma pistola semiautomática de nove milímetros", embora posteriormente se tenha recusado a dizer se Pretti chegou a apontar a arma.
Greg Bovino, um comandante sénior da patrulha da fronteira, também disse aos jornalistas que Pretti tinha abordado os agentes com a mesma arma. "Os agentes tentaram desarmar o indivíduo, mas ele resistiu violentamente. Temendo pela sua vida e pela segurança dos colegas, um agente da patrulha da fronteira disparou em legítima defesa", disse Bovino, citado pelo jornal britânico "The Guardian". "Parece ser uma situação em que um indivíduo queria causar o máximo de danos e massacrar as forças da lei."
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No entanto, esta versão dos acontecimentos é contrariada por um vídeo do incidente analisado pelo mesmo jornal. As imagens gravadas por uma testemunha mostram Pretti parado na rua, com o telemóvel na mão, quando um agente o empurrou. Pretti recuou, mas pareceu continuar a filmar o polícia. Os disparos dos tiros que mataram o enfermeiro aconteceram poucos minutos depois.
Video appears to show Alex Jeffrey Pretti interacting with federal agents prior to his fatal shooting pic.twitter.com/849AEmjIPo
- BensonNewsHub (@BensonNewsHub) January 24, 2026
Um outro vídeo, obtido pelo "Drop Site News", mostra que Pretti continuou a filmar a operação de fiscalização de imigração. O enfermeiro interveio para defender outra observadora que foi empurrada por um agente federal, que depois borrifou Pretti com um agente químico repetidamente, antes de o derrubar na rua com outros dois agentes. Sete polícia cercaram o enfermeiro. Enquanto o imobilizavam e o agrediam, um agente levou a mão à parte inferior das costas de Pretti e afastou-se com o que parecia ser uma arma. Nesse momento, um dos agentes gritou: "Arma! Arma!". De seguida, outro agente parece disparar contra Pretti à queima-roupa. Enquanto os agentes recuavam, outro agente apontou uma arma a Pretti, disparando mais dez tiros.
BREAKING:
- The Middle East (@A_M_R_M1) January 24, 2026
Drop Site has obtained harrowing footage of the latest killing, filmed from the perspective of the woman in pink recording from the sidewalk. https://t.co/XNJWzejLr9
Assim, os vídeos sugerem que os agentes podem ter aberto fogo contra Pretti momentos depois de ter sido desarmado da arma que tinha permissão legal para portar, mas que não tinha exibido em nenhum momento do confronto.
"Não o vi atacar os agentes"
Duas testemunhas do incidente negaram, no sábado à noite, que Pretti tivesse sequer segurado uma arma, em declarações juramentadas apresentadas num tribunal federal.
"Não o vi atacar os agentes nem brandir qualquer tipo de arma", disse o médico, sob pena de perjúrio.
"O homem não abordou os agentes com uma arma", testemunhou a mulher. "Abordou-os com uma câmara."
Pais pedem "verdade" sobre o filho
Os pais de Pretti falaram ao canal de notícias local "Kare 11", dizendo estar "com o coração partido, mas também muito zangados". "As mentiras repugnantes contadas sobre o nosso filho pelo governo são repreensíveis e nojentas. Alex claramente não estava armado quando foi atacado pelos capangas covardes e assassinos do ICE de Trump", sublinharam.
"Ele estava com o telemóvel na mão direita e a mão esquerda vazia estava erguida acima da cabeça enquanto tentava proteger a mulher que o ICE acabara de derrubar, tudo isso enquanto era atingido por spray de pimenta. Por favor, revelem a verdade sobre o nosso filho. Ele era um bom homem, apelaram.
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"Graças a Deus que temos vídeo"
A Administração Trump lançou no estado do Minesota uma operação anti-imigração - "Metro Surge" - em dezembro, que o inquilino da Casa Branca justificou com a alegação de um aumento da criminalidade nesse estado. Ações dos agentes, como a morte de Renee Good ou a detenção de uma criança de cinco anos, provocaram indignação entre a população do Minesota.
Quando a administração Trump culpou a vítima, o governador Tim Walz reagiu, dizendo: "Graças a Deus, graças a Deus que temos o vídeo". É que, segundo a CNN, as próprias autoridades de Minnesota, percebendo que os moradores se sentem relativamente impotentes com o aumento da presença do ICE no estado, incentivaram a população a testemunhar, sugerindo que os telemóveis são uma forma de poder. "Levem sempre os telemóveis com vocês", disse Walz num discurso na semana passada. "E se virem agentes do ICE na vizinhança, peguem nos telemóveis e gravem. Ajudem-nos a criar um banco de dados das atrocidades contra os cidadãos de Minnesota - não apenas para deixar um registo para a posteridade, mas também para reunir provas para futuros processos judiciais".

