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QAnon, a teoria da conspiração em que Donald Trump é o salvador

QAnon, a teoria da conspiração em que Donald Trump é o salvador

Na base do movimento QAnon está a crença de que Donald Trump luta para destruir uma "cabala global" encabeçada por pedófilos admiradores de Satanás pertencentes ao governo, ao mundo dos negócios e aos média. A teoria da conspiração encontrou nas redes sociais terreno fértil para crescer durante a pandemia. Foi classificada pelo FBI como uma "potencial ameaça de terrorismo doméstico", colhe cada vez mais seguidores, entre eles celebridades, e ganha força a três meses das eleições nos EUA.

Não é propriamente uma conspiração nova - a origem remonta a outubro de 2017, quando começou a circular em fóruns de mensagens na Internet sem moderação de conteúdo como o "4chan" ou o "8chan" -, mas marca uma tendência que se acentuou nos últimos meses. A QAnon registou "picos" de atividade nas redes sociais em março de 2020, mês em que a Organização Mundial de Saúde declarou a covid-19 como pandemia.

É pelo menos esta uma das conclusões do relatório "The Genesis of a Conspiracy Theory" ("A Génese de uma Teoria da Conspiração", em português) publicado há três semanas pelo Institute for Strategic Dialogue, em Londres, e agora consultado pelo JN, sobre a comunidade QAnon e que sugere um aumento da promoção e da propagação da conspiração a novos públicos durante esse período.

Na base da QAnon, cuja inicial remete para o primeiro utilizador que usou o pseudónimo "Q" na primeira publicação sobre a teoria, Donald Trump surge como o "salvador" na luta contra um mundo dominado por uma "cabala de pedófilos admiradores de Satanás", responsáveis por controlar os média, Hollywood e especialmente políticos do Partido Democrata, como é o caso de Hillary Clinton, ou do filantropo George Soros.

Os autores da investigação - que têm vindo a monitorizar a atividade deste movimento, desde 2017 até aos dias de hoje, no Facebook, Twitter e Instagram - revelam que o interesse na comunidade QAnon cresceu não apenas quando os média deram alguma atenção ao assunto - o que aconteceu quando pela primeira vez, em junho de 2018, os seguidores deste movimento foram vistos num comício de Trump, em Tampa, na Florida - ou então quando, por exemplo, se deu a prisão e subsequente morte de Jeffrey Epstein, acusado de tráfico sexual de menores, no ano passado.

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Neste caso em específico, entre julho e agosto de 2019, Epstein foi o segundo indivíduo mais mencionado, apenas atrás de Donald Trump, entre os seguidores QAnon no Twitter. No foco das conversas estiveram, especifica o relatório, "verdades e conspirações sobre a doença de Epstein, crimes antigos e aqueles associados a ele, incluindo menções a viagens de Bill Clinton no Lolita Express (jato de Epstein), doações recebidas pelo político americano Chuck Schumer de Epstein e listas de celebridades que supostamente visitaram a ilha de Epstein", lê-se no documento.

Entre a "série de sub-narrativas" que o documento associa à QAnon destaca-se o impacto que teve os protestos resultantes após o falecimento de George Floyd na teoria. Para este movimento de extrema-direita, a morte do afro-americano, asfixiado à data por um polícia branco, foi encarada como uma encenação, em que Floyd foi até cúmplice, para "prejudicar a campanha de reeleição de Trump".

Também o movimento Antifa, com ligações à extrema-esquerda, é considerado por este grupo como uma "organização terrorista e fantoche da elite" e mesmo o anúncio de Tom Hanks, quando revelou em março estar infetado com covid-19, foi usado como pretexto para estabelecer uma ligação entre as elites de Hollywood e o vírus.

Além de realçar o papel que as celebridades têm no crescimento do movimento, seja "como alvos" ou "apoiantes", a investigação nota que "há algumas evidências" de que a conspiração QAnon está cada vez mais a colher adeptos internacionalmente, sobretudo em países como o Reino Unido, o Canadá e a Austrália.

Segundo o que Travis View, coautor do podcast "QAnon Anonymous", explicou à rede de televisão norte-americana PBS o objetivo da comunidade será alcançado quando forem atingidas duas fases, um tanto o quanto "utópicas": a primeira, designada de "Tempestade", quando se der uma "prisão em massa" das "mais de 100 mil pessoas dos mais altos níveis do poder e entretenimento", e a segunda, apelidada de "Grande Despertar", quando se chegar à conclusão de que a teoria esteve "certa o tempo todo", o que permitirá entrar numa "grande e nova era."

Marianna Spring é repórter especialista em desinformação da BBC e lida diariamente com teorias da conspiração. Ouvida pelo JN, descreve o QAnon como "um hobby, uma comunidade, uma perigosa teoria da conspiração que fornece respostas bizarras para grandes questões" e que está cada vez mais a "engolfar outras teorias em torno do coronavírus, das vacinas ou do 5G."

De acordo com a sua experiência, o sentimento de pertença a uma comunidade pode ajudar a explicar a adesão a estes movimentos. "As teorias da conspiração são fascinantes e populares. As pessoas gostam de explorá-las e sentem que possuem algum tipo de conhecimento superior. E, neste caso, as pessoas tornam-se parte de um grupo de pessoas que acreditam em coisas semelhantes e com uma abordagem semelhante", desenvolve. E vai mais longe: "Este é o momento perfeito para estas teorias recrutarem mais seguidores".

Sergio Denicoli, especialista nas áreas da Economia Política da Comunicação e da Comunicação Digital, acrescenta que as teorias da conspiração, "por se organizarem através de bolhas de informação", chegam às pessoas como se estas tivessem um "segredo" em mãos. "As pessoas sentem-se parte integrante de um movimento que alegadamente pretende descortinar uma verdade, mas que não a é", adianta.

Inês Amaral, diretora do curso de Jornalismo e Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, relembra que, por norma, estes escândalos envolvem sempre questões associadas a crianças, a pornografia ou a pedófilos. "Ou é o George Soros ou algum outro judeu cheio de dinheiro ou determinadas figuras que, para algum eleitorado norte-americano, representam qualquer coisa do mal. E no caso desta teoria, que não é de agora, são os pedófilos satânicos", diz.

"As pessoas vão partilhando nas redes aquilo que lhes é próximo ou que choca inteiramente com os seus valores", resume a docente. Associado a tudo isto, continua, "há um certo analfabetismo funcional e iliteracia digital, e depois um misticismo em torno da religião", esclarece.

"Consistentemente" proveniente dos EUA, a teoria QAnon ganhou um novo destaque esta semana após Marjorie Taylor Greene ter vencido a nomeação republicana para o 14.º distrito da Geórgia e estar a um passo de conseguir um lugar na Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA, já em novembro.

Greene é apoiante da teoria QAnon, mas não será a única no Partido Republicano. No passado, defendera-a como sendo "algo que vale a pena ouvir e prestar atenção". Este é, aliás, o modus operandi da conspiração que convida as pessoas a assistir a vídeos no YouTube (uma outra conclusão do relatório que revela que a plataforma de vídeos desempenha "um papel importante na partilha de conteúdo") e a conversar com outros apoiantes.

"Desgostosa" com quem lança "um esforço para se livrar do presidente Trump", a candidata republicana Marjorie Taylor Greene, conhecida por assumir posições racistas, antissemitas, islamofóbicas ou antiaborto - e que já motivou críticas dentro do próprio partido - garante que vai "trabalhar arduamente" contra aqueles que a veem como uma "ameaça muito séria".

Em 2019, um documento do FBI incluía a QAnon como uma das "potenciais ameaças de terrorismo doméstico", capaz de gerar "atos criminosos ou violentos", como aquele que levou Anthony Comello a assassinar Francesco Cali, um dos principais rostos da máfia de Nova Iorque no ano passado. Tudo porque estaria convicto de que, ao fazê-lo, estaria a ajudar o presidente Donald Trump.

No quadro das ameaças encontra-se ainda a conspiração "Pizzagate", uma outra teoria que afirmava que Hillary Clinton e outras figuras democratas geriam uma pizzaria de Washington, onde teriam lugar crimes de pedofilia. Aliás, escreve-se que a QAnon deriva deste "boato" que assombrou as eleições presidenciais americanas de 2016 e que alguns acreditam que esteja apenas "adormecido".

Nas últimas semanas, várias redes sociais tomaram medidas contra a QAnon. O Facebook, por exemplo, chegou mesmo a excluir um grupo, com quase 200 mil membros, dedicado às teorias desta conspiração. No mês passado, também o Twitter (ao desativar contas) e o TikTok (ao impedir o uso de alguns hashtags) reprimiram conteúdo sobre o assunto.

Para a investigadora Inês Amaral, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, estes mecanismos de controlo são bons em teoria, mas, quando aplicados, são altamente falíveis. "São instrumentos que criam a ideia da perseguição. Estas plataformas são vistas, infelizmente, como os média tradicionais, ou seja, como sistemas que manipulam os utilizadores. Quantas mais contas apagarem, mais contas vão aparecer", explica ao JN.

Para a jornalista da cadeia de notícias pública britânica, banir contas parece ser a abordagem mais eficaz. "O bloqueio de hashtags não remove nenhum conteúdo. Para evitar o bloqueio, o QAnon adapta-se rapidamente com novas hashtags", diz Marianna. No entanto, admite que cada vez mais é difícil lidar com estas teorias: "As crenças são totalmente infundadas e muitos crentes são totalmente doutrinados. A melhor maneira é cobrir as alegações bizarras e investigar a anatomia de como elas surgiram", sugere.

Sergio Denicoli é perentório ao afirmar que as empresas de redes sociais nunca tiveram como bandeira o controlo do conteúdo. "As redes sociais nunca quiseram ser reguladas. Elas tentam responsabilizar o próprio utilizador pelo que ele publica porque elas próprias também não conseguem controlar o fluxo de informação gigantesco", reitera.

Em Portugal, o crescimento do Qanon tem sido aparentemente mais tímido. No entanto, uma pesquisa rápida no Facebook permite-nos chegar até ao grupo "Patriotas Qanon Portugal O Grande Despertar". De acordo com o histórico, a página já conheceu várias designações desde a sua criação a 20 de abril de 2020 e reúne, essencialmente, teorias infundadas sobre o coronavírus ou a sua vacina bem como algum discurso de ódio e partilha de desinformação.

Conta atualmente com mais de 2400 membros, entre eles Pedro Quartin Graça, professor universitário, ex-líder do MPT - Partido da Terra e fundador de partidos como o "Nós, Cidadãos!" ou o "Aliança". Questionado pelo JN sobre o tema, o ex-deputado, que foi eleito pelas listas do PSD nas legislativas de 2005, refere que aderiu ao grupo "instintivamente, por curiosidade, por convite de pessoa conhecida" e que não se apercebeu "ainda do seu conteúdo": "Caso o mesmo não me agrade, sairei. Por favor não me considere como parte integrante desta opinião porque não o sou", referiu.

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