Rússia

Quem é Alexei Navalny, o opositor que Putin quer travar?

Quem é Alexei Navalny, o opositor que Putin quer travar?

O líder da oposição russa Alexei Navalny foi detido à chegada a Moscovo, este domingo. O crítico do Kremlin chegava de Berlim, onde esteve a convalescer durante quase cinco meses, após ter sido envenenado com uma substância neurotóxica de uso militar.

Aos 44 anos, Navalny é um dos principais opositores de Vladimir Putin. Há anos que se bate contra ameaças e ataques. Em 2019, foi hospitalizado por suspeita de envenenamento e, em 2017, sofreu queimaduras químicas num olho, após um segundo ataque com um corante anti-séptico verde à porta do seu escritório. Também foi preso várias vezes.

A 20 de agosto de 2020, durante um voo doméstico na Rússia, Navalny sentiu-se mal e desmaiou. Foi transportado dois dias depois em coma para a Alemanha para ser tratado.

Laboratórios na Alemanha, França e Suécia, assim como a Organização para a Proibição de Armas Químicas demonstraram que fora exposto a um agente neurológico Novichok da era soviética, mas as autoridades russas têm rejeitado todas as acusações de envolvimento no envenenamento.

Mas afinal quem é Alexei Navalny e porque razão incomoda tanto o regime de Vladimir Putin? Fazemos uma caraterização do ativista em cinco pontos.

1 - Luta anti-corrupção

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Foi através do seu blog que Navalny ganhou destaque, ao demonstrar práticas ilícitas e de corrupção por parte de detentores de cargos públicos e de grandes corporações controladas pelo Estado, na Rússia. Uma das suas táticas foi tornar-se accionista minoritário em grandes empresas de petróleo, bancos e ministérios para fazer perguntas incómodas sobre buracos financeiros. Ultimamente, tem usado o blog para expor as suas teorias relativas ao último ataque sofrido.

Em 2011, fundou a Fundação Anticorrupção, que também publicou relatórios sobre condutas lesivas para o Estado levadas a cabo por altas figuras. Entre os alvos das suas investigações, estavam o ex-procurador-geral Yuri Chaika e o ex-primeiro-ministro Dmitry Medvedev.

Navalny ampliou a sua base de apoiantes através da criação de um canal no Youtube, onde já tem quase 5 milhões de subscritores. Na rede social Twitter, acumula mais 2,4 milhões de seguidores.

2 - Detenções sofridas

Navalny foi já várias vezes detido, tendo passado já centenas de dias na prisão. Em 2014, foi condenado por peculato, num caso considerado político, que também envolveu o seu irmão, que não escapou à prisão. Neste processo, Alexei foi também condenado, mas poupado à cadeia. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou o caso "arbitrário e injusto" e o julgamento foi repetido.

Alexei Navalny foi condenado pela segunda vez. Cumpria os cinco anos de pena suspensa, quando procurou em 2020 o tratamento em Berlim, razão pela qual foi detido agora no regresso a Moscovo, por violar o controlo judicial que lhe tinha sido imposto no âmbito da pena. A condenação também tinha sido usada pelo Kremlin para o afastar de uma candidatura à Presidência russa em 2018.

3 - Nacionalismo russo

Embora Navalny seja colado ao Ocidente pelo Kremlin, há muito que o também jurista se alia aos nacionalistas russos, o que suscita críticas entre os grupos da Oposição. É isso que o torna difícil de retratar como um fantoche dos EUA, apesar de ter frequentado uma universidade naquele país.

Antes de se tornar conhecido pelas suas denúncias de corrupção, Navalny passou pelo partido liberal Yabloko, entre 2000 e 2007, ano em que foi expulso por manter atividades nacionalistas. Chegou a participar em marchas dos nacionalistas russos contra os imigrantes e a defender pontos de vista anti-imigrantes.

Em 2006, apelou às autoridades municipais de Moscovo para que a Marcha Russa (de extrema-direita) fosse permitida. Em 2007, fundou o "The People" (O Povo), um movimento político classificado de "nacionalismo democrático", que em 2008 se aliou a dois grupos nacionalistas: o Movimento Contra a Imigração Ilegal e a Grande Rússia.

Também expressou apoio público à Rússia durante a guerra russo-georgiana de 2008. Em 2014, numa entrevista em que foi questionado sobre a anexação da península da Crimeia pela Rússia disse que, apesar de a Crimeia ter sido anexada em violação do direito internacional, "a verdade, é que a Crimeia agora faz parte da Rússia". "A Crimeia é nossa", acrescentou.

4 - Protestos que liderou

Uma investigação ao então primeiro-ministro Medvedev, pela Fundação Anticorrupção, desencadeou, em 2017, os maiores protestos antigovernamentais vistos em muitos anos, na Rússia, sob a liderança de Navalny. Mais de mil manifestantes foram detidos, incluindo, uma vez mais, Navalny.

Também a decisão das autoridades de impedir o opositor do regime de concorrer à Presidência em 2018 gerou mais protestos. Ainda em 2019, Navalny esteve preso durante um curto período por encorajar um protesto que pedia eleições livres.

5 - Sem experiência em cargos públicos

Embora Alexei Navalny seja reconhecido como uma importante figura da Oposição russa, nunca ocupou um cargo público.

Nas eleições legislativas de 2011, às quais não concorreu, apelou no seu blog ao voto em qualquer partido que não o Rússia Unida, de Putin, que classificou de "partido de vigaristas e ladrões".

Em 2013, concorreu à Câmara de Moscovo, ficando em segundo-lugar. Perdeu para Sergey Sobyanin, aliado de Putin. Ainda assim, o resultado eleitoral alcançado de 27% foi melhor do que o inicialmente previsto, o que o consolidou como uma ameaça ao Presidente russo. Navalny tinha sido inesperadamente autorizado a sair da prisão para fazer campanha, mas não teve acesso à televisão estatal, contando apenas com a internet e o boca a boca.

Em 2018, tornou-se líder do partido Rússia do Futuro (ainda não formalmente registado), mas foi impedido de concorrer à Presidência contra Putin devido à anterior condenação por peculato, altamente contestada.

Estava em campanha pelo "voto tático" contra os candidatos apoiados pelo presidente russo nas eleições regionais quando, ao voltar de uma viagem, a 20 de agosto de 2020, se sentiu mal. Navalny foi transportado dois dias depois em coma para Berlim, onde foi tratado.

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