Itália

Roma é já um cenário do "Ensaio sobre a cegueira"

Roma é já um cenário do "Ensaio sobre a cegueira"

Cidade Eterna transformou-se numa sombra com as medidas de quarentena nacionais.

O novo coronavírus parece ter adormecido a Cidade Eterna. Roma, três milhões de habitantes, fervilhava dia e noite. Hoje, contam-se as pessoas nas ruas desertificadas e nos transportes. Até ontem, ainda se conseguia comer num restaurante até às 18 horas. Hoje, já nem isso: a ordem é de clausura total, só ficam abertas vendas de alimentos e farmácias. A distância social interiorizou-se, todos se afastam, recusa-se um simples café.

O retrato da capital italiana é o do medo do contágio, ampliado pelos alertas médicos, que asseguram que a falta de capacidade dos hospitais se avoluma dia após dia. Faltam ventiladores para casos mais graves, as mortes multiplicam-se, já há médicos confrontados com a decisão de escolher quem tratar, as autoridades da região mais afetada - o Norte - avisam que os limites estão a ser atingidos.

Comprar alimentos é um desafio. "Tenho de abastecer de carne e peixe. Água já tenho muita", diz uma cliente num supermercado, junto à esvaziada estação de Trastevere. Na rua acumulam-se pessoas, em fila, cada um a um metro do outro, em frente ao segurança que garante que não está mais do que uma pessoas de cada vez no estabelecimento. É assim, agora. Aqui como no emprego, com turnos, uns saudáveis a proteger-se em casa para vir, a prazo, substituir eventuais contaminados. São uma espécie de reserva, a salvo.

E todos têm uma certeza: o pior está para vir. "Estas medidas existem só porque estão a gerir o colapso nos hospitais, porque os contaminados vão disparar", teoriza um cidadão. Como tantos outros, acredita que antes de melhorar, tudo irá piorar. E calcula uma semana, numa Roma que faz lembrar o "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Obra que os italianos bem conhecem: com isto do Covid 19, correram a comprá-la.

Doenças e idade contam na hora do tratamento

PUB

As diretrizes que permitem aos médicos fazer a triagem de doentes a tratar primeiro foram publicadas pelo Colégio Italiano de Anestesia, Analgesia, Reanimação e Terapia Intensiva (SIAARTI, sigla em italiano). O documento, divulgado a 6 de março, começa por deixar claro que há um desequilíbrio entre as necessidades clínicas da população e a disponibilidade de recursos intensivos, num cenário que se assemelha ao da "medicina de catástrofe".

Partindo do princípio que o objetivo é garantir tratamentos intensivos a pacientes "com maiores hipóteses de sucesso terapêutico", o documento sublinha que os médicos devem privilegiar os pacientes com maior probabilidade de sobrevivência. Assim, a necessidade de terapia intensiva deve ter em conta o "tipo e gravidade da doença, a existência de comorbidades (presença ou associação de duas ou mais doenças no mesmo paciente), o comprometimento de outros órgãos e sistemas e a sua reversibilidade". Pode também ser necessário estabelecer um limite de idade, numa tentativa de "reservar recursos que podem ser muito escassos para aqueles com maior probabilidade de sobrevivência" e também para aqueles que "podem ter mais anos de vida". Não se deve, portanto, seguir um critério de atender o primeiro a chegar.

Outras Notícias