Liberdade

A vitória temporal da Democracia: Portugal ultrapassa o tempo vivido em ditadura

A vitória temporal da Democracia: Portugal ultrapassa o tempo vivido em ditadura

Esta quarta-feira, Portugal assinala 17 499 dias vividos em democracia - igualando o tempo vivido em ditadura - e começam também as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril. O Coronel Vasco Lourenço, um dos principais rostos de Abril, não esconde a felicidade "de estar vivo" e ter a possibilidade de vivenciar este momento. "Isso dá-me uma realização, um sentimento de orgulho, de sentir que o 25 de Abril trouxe para Portugal uma situação de paz e de democracia e de liberdade como nunca um período tão grande teve", contou ao JN.

"Hoje é um dia histórico", escreveu António Costa no Twitter. O primeiro-ministro vai estar presente na sessão solene desta tarde, no Pátio da Galé, em Lisboa, para assinalar o inicio das comemorações oficiais dos 50 anos da Revolução dos Cravos. Estará também presente o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que vai condecorar mais 30 militares de Abril. Este vai ser o primeiro momento das comemorações: condecorar quem participou na revolução, "uma obra coletiva que é única na história universal", afirmou o coronel Vasco Lourenço.

Esta quinta-feira, 24 de Março de 2022, Portugal supera por um dia o tempo vivido em ditadura. Depois do "período de escuridão que atravessámos", como descreve Vasco Lourenço, o país chega à meta de 17 500 dias de democracia. É a vitória temporal da democracia.

A seguir à aprovação da Constituição portuguesa, em 1976, que previu que "nós continuássemos num processo de consolidação da democracia", e depois do período de transição democrática, com o regresso dos militares aos quartéis, em 1982, este marco "é uma terceira realização", assinalou o coronel, presidente da Associação 25 de Abril desde a sua fundação, em 1982.

A herança de Abril e o presente

É com "alguma desilusão" que Vasco Lourenço olha para o estado atual da democracia portuguesa. "É a abstenção, é o egoísmo, é o individualismo. Eu acho que os cidadãos têm que lutar pelos seus interesses. Dentro de um princípio, que eu também acho que é extraordinariamente importante: aos direitos há que juntar os deveres. Há que ter sempre presente que o cidadão não tem só direitos, também tem deveres. Se está inserido numa sociedade, ele também tem de cumprir com os deveres que a sociedade lhe implica".

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Vasco Lourenço salienta a "liberdade, a democracia, o Estado de Direito, a paz" como as principais heranças de Abril, mas considera que se podia ter atingido mais. Refere a "ação dos partidos, que falharam a sua missão de servirem e não de se servirem". Lamenta também os elevados números da abstenção e o crescente afastamento dos eleitos em relação aos seus eleitores, mas são o Estado social e a desigualdade que mais o preocupam - mais ameaçado pela guerra que se trava na Ucrânia. É o "que mais me choca, hoje", o fosso entre ricos e pobres, transmitiu. "A sociedade deve ser o mais justa possível".

Não se pode permitir que haja espaço para populismos, disse, apontando o que considera ser uma das fraquezas da democracia: "poupa os seus inimigos". "Se o Governo continuar a dar tiros nos pés, se a maioria der tiros nos pés, cada vez há mais espaço para o populismo, para o descontentamento". Contudo, e sem menosprezar o fenómeno da ascensão da extrema-direita, confessa que, até agora, é algo que não o preocupa muito.

Celebrações de Abril até 2026

Vasco Lourenço vê com bons olhos as comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos - que se estendem até 2026 -, embora ainda não esteja bem definida que participação terá a Associação 25 de Abril nessas celebrações.

Ao JN contou que o presidente da República está à espera que o Governo tome posse para voltar a abordar o tema das comemorações com o coronel e delegar responsabilidades, se for caso disso. Vasco Lourenço salientou o "ótimo entendimento" que tem tido com Pedro Adão e Silva, comissário executivo das comemorações, que o vai mantendo a par dos preparativos. Quanto ao seu contributo e da Associação, ainda está tudo por definir, disse. "A associação fará sempre as suas comemorações, se se envolve ou não nas comemorações oficiais, tudo aponta para que sim".

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