História

Aristides de Sousa Mendes recebe esta terça-feira honras de Panteão

Aristides de Sousa Mendes recebe esta terça-feira honras de Panteão

O antigo Cônsul-Geral de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, recebe esta terça-feira, em Lisboa, honras de Panteão Nacional. No início da II Guerra Mundial, à revelia de Salazar, o diplomata concedeu milhares de vistos a judeus e outros refugiados. "A justiça que não lhe foi feita em vida vai a Assembleia da República fazê-la agora", diz o deputado Pedro Delgado Alves.

"Soube estar do lado certo e salvar milhões de vidas", afirma ao JN o parlamentar socialista, coordenador do grupo de trabalho que preparou a cerimónia. "É um daqueles casos raríssimos de uma pessoa que consegue gerar um consenso quase unânime", acrescenta.

A cerimónia terá início às 11 horas. Contará com a presença do presidente da República, do primeiro-ministro e do presidente da Assembleia da República, bem como de membros da família de Aristides de Sousa Mendes.

Na agenda está o descerramento de uma placa simbólica na Sala 2, onde se encontram sepultados o general Humberto Delgado, a poetisa Sophia de Mello Breyner, o escritor Aquilino Ribeiro e o futebolista Eusébio da Silva Ferreira. Será a primeira homenagem do género feita pelo Parlamento no Panteão.

A decisão de não trasladar o corpo de Aristides de Sousa Mendes para Lisboa foi tomada pelo Parlamento, de modo a respeitar o desejo do próprio. "Quis ser sepultado na terra natal, junto da família", explica Delgado Alves. O diplomata, que morreu em 1954, está no cemitério de Carregal do Sal, distrito de Viseu.

"Reabilitação foi difícil e morosa"

O deputado lamenta que esta homenagem a Sousa Mendes só agora aconteça. "A reabilitação foi difícil e morosa", revela, lembrando que, em virtude da desobediência a Salazar, o antigo Cônsul apenas recebeu o devido reconhecimento após o 25 de Abril de 1974.

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Delgado Alves revela que a família do diplomata encarou a homenagem com um "grande sentimento de realização de justiça". Um dos familiares, Silvério Sousa Mendes, vai integrar a comitiva que ruma à sala onde será descerrada a placa.

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, farão discursos evocativos e, no final da cerimónia, assinarão o Auto de Honras de Panteão Nacional.

A homenagem inclui também a atuação do coro do Teatro Nacional São Carlos e a passagem de um filme alusivo à figura de Sousa Mendes.

Bordéus desdobra-se em homenagens

Não é só em Portugal que a atribuição de honras de Panteão ao diplomata tem merecido atenção. Em França - e, em particular, em Bordéus -, os últimos dias têm sido marcados "por um conjunto muito assinalável de eventos", segundo garante ao JN o atual Cônsul-Geral na cidade.

"A associação de tantas instituições - locais, políticas e representantes das confissões religiosas - às comemorações é bem demonstrativa do conhecimento e reconhecimento da sua figura e das suas ações", afirma Mário Gomes.

Esta segunda-feira, o arcebispo de Bordéus celebrou, na catedral local, uma missa em honra do antigo Cônsul. Na véspera, por iniciativa do Consistório Israelita e do rabi da cidade, tinha decorrido "uma cerimónia de evocação da memória de Aristides de Sousa Mendes" na Grande Sinagoga local, revelou o Cônsul.

Também a Câmara Municipal de Bordéus se associou à homenagem, tendo promovido, esta segunda-feira, uma receção nos salões nobres do município. No mesmo dia, reinaugurou uma rua com o nome 'Aristides de Sousa Mendes'". Já em Cenon, cidade dos arredores, será exibido o documentário "A herança de Aristides".

Na terça-feira, a ministra francesa delegada para a Memória e Antigos Combatentes, Geneviève Darrieussecq, preside a uma cerimónia de homenagem junto ao busto de Aristides, em Bordéus. Segue-se uma receção oferecida pelo presidente do Conselho Regional da Nova Aquitânia.

Enquanto Cônsul-Geral em Bordéus, em 1940, Aristides Sousa Mendes foi responsável pela atribuição de vistos a refugiados perseguidos pelo regime nazi, que invadiu e ocupou a França em maio desse ano.

Os vistos que permitiram aos refugiados entrar em Portugal e escapar à extrema-direita hitleriana foram concedidos durante o mês de Junho. Totalizam largas centenas ou mesmo milhares, embora os números sejam disputados.

A iniciativa da concessão de honras de Panteão a Aristides de Sousa Mendes partiu da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira, tendo sido aprovado pelo Parlamento de forma unânime. Em Julho, por iniciativa da Associação Lusa Portugueses por Israel (ALPI), a Assembleia da República recebeu um busto do diplomata.

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