Sondagem diária: Seguro, Gouveia e Melo e Ventura separados por quatro décimas. Mendes cai para quinto, atrás de Cotrim
Análise de Rafael Barbosa e gráficos de Inês Moura Pinto.
Faltam menos de duas semanas para as presidenciais e tudo pode acontecer, com cinco candidatos em empate técnico, de acordo com a primeira das 12 entregas de uma sondagem diária da Pitagórica para o JN, TSF, TVI e CNN. António José Seguro (19,3%) segue em primeiro nesta reta final, mas a diferença para Henrique Gouveia e Melo (19,2%) e André Ventura (18,9%) é estatisticamente irrelevante. Na verdade, as duas maiores surpresas vêm logo a seguir: João Cotrim Figueiredo já não é apenas um "outsider" (18%) e Luís Marques Mendes cai do primeiro para o quinto lugar (15,4%). Note-se, no entanto, que há 13,7% de indecisos e que o social-democrata é apontado como o candidato com maior probabilidade de passar à segunda volta (32%). Apenas 5% acreditam que o liberal seja capaz de ultrapassar essa primeira barreira.
Já se escreveu algumas vezes que estas eleições serão as mais renhidas de sempre e a primeira vaga da sondagem diária não faz mais do que confirmá-lo. Entre os três primeiros, há apenas quatro décimas de diferença, num estudo em que a margem de erro é de mais ou menos 4%. Embora a tendência de cada um dos três que estão agora no pódio seja diferente: Seguro e Ventura até perdem umas décimas face à sondagem "clássica" de dezembro, enquanto o almirante cresce quatro pontos (mas continua quase nove pontos percentuais abaixo do que registava na sondagem de outubro do ano passado).
A subida repentina de Gouveia e Melo não pode ser dissociada da queda de Marques Mendes (perde cinco pontos). O trabalho de campo da sondagem de dezembro terminou antes do frente a frente em que o almirante na reforma acusou o ex-líder do PSD de ser um "lobista e facilitador". Os inquéritos deste estudo diário (todos os dias serão acrescentados 200 novos inquéritos e retirados os 200 mais antigos) foram recolhidos entre 2 e 4 de janeiro, quando o confronto ainda estava bem vivo na memória. O outro beneficiário parece ter sido Cotrim, que, de dezembro para janeiro, sobe três pontos, e de outubro até agora duplica a sua percentagem de votos.
Empate técnico com cinco candidatos à segunda volta
As próximas vagas dirão quem mantém ou altera o rumo, mas, entretanto, insista-se no essencial: o que há é um empate técnico em que qualquer um dos cinco primeiros poderia, se as eleições fossem hoje, passar à segunda volta. Vejamos os números: Mendes (em quinto) está a quatro pontos de Seguro (em primeiro), mas quando o ângulo incide sobre o patamar máximo (18,3%) do ex-presidente do PSD, concluímos que poderia até ficar dois pontos acima do ex-secretário-geral do PS, cujo patamar mínimo é 16,1%. Note-se que o contrário tem o mesmo grau de probabilidade: Seguro chegar aos 22,2% e Mendes ficar-se pelos 12,5%.
O racional é o mesmo para os outros três favoritos a seguir em frente: Gouveia e Melo oscila entre os 16% e os 22,4%; Ventura ficaria entre os 15,7% e os 22,1%; e Cotrim teria entre 14,9% e 21,1%. Acresce a toda esta incerteza que ainda há 13,7% de indecisos, que a Pitagórica redistribui de forma proporcional, mas cujo comportamento é ainda imprevisível.
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Seguro não é capaz de conquistar voto útil à Esquerda
Com resultados tão apertados, será importante perceber se haverá movimentos no sentido do chamado voto útil. No que diz respeito à Esquerda, e apesar da insistência de Seguro nesse tema, não há alterações. Nem o socialista é capaz de crescer, nem a soma dos três candidatos mais à Esquerda (cerca de oito pontos) sofre grande alterações: a bloquista Catarina Martins marca 2,9%, o comunista António Filipe 2,8%, e o deputado do Livre Jorge Pinto 1,8% (perde um ponto relativamente a dezembro).
Mas também à Direita a questão do voto útil se coloca. Luís Montenegro arrancou aliás a campanha oficial ao lado de Marques Mendes, no domingo, apelando ao voto útil de socialistas e liberais, para impedir que a segunda volta seja disputada por dois "populistas", referindo-se a André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. A sondagem diária da Pitagórica confirma esse "risco", mas acrescenta-lhe um elemento novo: João Cotrim Figueiredo está quase três pontos acima do social-democrata, o que lhe permite argumentar que o voto útil, na área do centro-direita, talvez seja afinal num liberal.
Dinâmica de vitória de Mendes, boa imagem de Cotrim
Quando se analisam os dados sobre a dinâmica de vitória, no entanto, quem tem melhores argumentos no sentido da concentração de votos é mesmo Marques Mendes. Quando se pergunta aos portugueses quem pensam que está em melhor posição para passar à segunda volta, é o social-democrata que se destaca, com 32%, dez pontos acima do líder do Chega (22%), que fica em segundo lugar nesta tabela. O ex-líder da Iniciativa Liberal fica a uns distantes 5%.
Só que, ao contrário, é Cotrim o candidato que mais tem beneficiado da exposição mediática. Quando se faz as contas à percentagem de inquiridos que responde que a sua opinião sobre o liberal melhorou ou piorou, consegue um saldo positivo de 31 pontos, com Seguro também no verde (18 pontos). Abaixo da linha de água ficam Mendes (saldo negativo de 22 pontos), Gouveia e Melo (24 pontos) e Ventura (29 pontos).
Ventura vence nos homens, socialista nas mulheres
A proximidade nas intenções de voto dos cinco favoritos desta primeira volta das eleições presidenciais disfarça diferenças, por vezes substanciais, quando se analisam os resultados entre os diferentes segmentos da amostra (género, idade, classe social, geografia e voto partidário). Por exemplo, André Ventura é o candidato com maior pendor masculino e venceria, se fossem apenas os homens a votar (19,1%), com uma vantagem de três pontos sobre Gouveia e Melo e Seguro. Entre as mulheres, o equilíbrio é maior, com Seguro na liderança (16,6%) e o líder do Chega em quinto (13,1%).
Se o ângulo for o das três faixas etárias (sempre sem distribuição de indecisos), Cotrim Figueiredo venceria de forma destacada entre os que têm 18 e 34 anos (26,3%), com dez pontos de vantagem sobre Ventura, que por sua vez segue na frente na faixa dos 35/54 anos (19,5%), quase cinco pontos à frente do liberal. Ambos têm os seus piores resultados entre os mais velhos (de 55 anos em diante), onde "reinam" candidatos mais centristas como Seguro e Gouveia e Melo (ambos com 21,7%) e Mendes (15,4%).
Cotrim destacado entre os mais ricos e em Lisboa
Na divisão por classes sociais, Cotrim volta a destacar-se entre os que têm maiores rendimentos (22,6%), com mais sete pontos do que Seguro. Na chamada classe média o equilíbrio é muito maior, com Gouveia e Melo em primeiro (17,8%), com uma vantagem de menos de um ponto sobre Ventura, que lidera entre os que têm menores rendimentos (19,1%), mas com pouco mais de um ponto de vantagem sobre o almirante e o socialista.
No que diz respeito às principais regiões, destaca-se a perda da liderança a Norte por parte de Marques Mendes, que agora fica a quase quatro pontos de Seguro (18,5%). Mas onde o social-democrata está de facto em maus lençóis é na Região Centro, uma vez que, além do quinto lugar, está a quase 14 pontos do almirante na reserva (22,1%). Na capital comanda Cotrim (20,4%), com cinco pontos de vantagem sobre Gouveia e Melo e Mendes. Finalmente, no resto do país (Oeste, Alentejo, Algarve e ilhas), é Ventura que parte na frente (22%) e com cinco pontos de vantagem sobre Seguro.
Eleitorado da AD disperso e o do Chega fiel a Ventura
E como se distribuem os votos das legislativas pelos atuais candidatos presidenciais? Um dado destaca-se em particular: é entre o eleitorado da AD que a dispersão é maior. O candidato apoiado pela coligação de centro-direita só consegue reter três em cada dez eleitores de Luís Montenegro. Exatamente metade dos que votaram na AD distribuem-se pelos quatro principais rivais de Marques Mendes, com destaque para Cotrim, que atrai, nesta altura, um quarto desses eleitores.
No caso do PS, a preponderância de Seguro é um pouco mais evidente: conquista quatro em cada dez eleitores socialistas das legislativas, mas também é essa a proporção dos que se distribuem pelos restantes quatro rivais, com o almirante a destacar-se, também com um quarto dos eleitores do PS. No Chega, a situação é bastante diferente: quase sete em cada dez seguem Ventura nas presidenciais, com Gouveia e Melo a conquistar um em cada dez desses eleitores.
Tracking poll: Sondagem diária até 16 de janeiro
O JN publicará uma "tracking poll", diariamente, até 16 de janeiro, último dia em que é permitida a publicação de sondagens. Poderá seguir a evolução das intenções de voto na edição online, sempre às 20,30 horas, ou na edição impressa. Um estudo de opinião que funciona de uma forma diferente do habitual. Arranca como qualquer outra sondagem, com uma amostra de cerca de 600 inquéritos, que representam o nosso universo eleitoral. A cada dia, acrescentam-se 200 entrevistas, retirando-se as 200 mais antigas. Ao fim de três dias, a amostra estará completamente renovada, relativamente ao dia de arranque. E assim sucessivamente até às vésperas da ida às urnas que, para usar uma frase feita, mas nem por isso menos verdadeira, é a "sondagem" que conta.
Ficha técnica
Durante 3 dias (2, 3 e 4 janeiro de 2026) foram recolhidas diariamente pela Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF e JN um mínimo de 202 a 203 entrevistas (dependendo dos acertos das quotas amostrais) de forma a garantir uma sub-amostra diária representativa do universo eleitoral português (não probabilístico). Foram tidos como critérios amostrais o género, três cortes etários e 20 cortes geográficos (Distritos + Madeira e Açores). O resultado do apuramento dos três últimos dias de trabalho de campo, resultou numa amostra de 608 entrevistas que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±4,06%. A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de "telemóvel" mantendo a proporção dos três principais operadores móveis. Sempre que necessário foram selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através de entrevista telefónica (CATI- Computer Assisted Telephone Interviewing). O estudo tem como objetivo avaliar a opinião dos eleitores portugueses, sobre temas relacionados com as eleições presidenciais, nomeadamente os principais protagonistas, os momentos da campanha, bem como a intenção de voto dos vários candidatos. Foram realizadas 1244 tentativas de contacto, para alcançarmos 608 entrevistas efetivas, pelo que a taxa de resposta foi de 48,87%. A distribuição de indecisos é feita de forma proporcional. A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva. A ficha técnica completa, bem como todos os resultados, foram depositados junto da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizará para consulta online.

