Entrevista JN/TSF

Francisco Rodrigues dos Santos: "Não somos uma Direita fofinha nem radical"

Francisco Rodrigues dos Santos: "Não somos uma Direita fofinha nem radical"

Presidente do CDS quer que o partido continue a ser uma fronteira para o extremismo.

Francisco Rodrigues dos Santos, presidente do CDS-PP, foi eleito há pouco mais de um ano. É o oitavo líder do partido desde a sua fundação, em 1974, uma liderança que já foi contestada internamente. Na entrevista JN/TSF, feita ainda antes de ser conhecido o teor do despacho de pronúncia da Operação Marquês (em relação ao qual entretanto o líder centrista já tomou posição), explica os objetivos para as eleições autárquicas e o espaço que acredita haver para o partido apesar da reconfiguração da Direita.

Quando se candidatou à presidência prometeu uma liderança, e estou a citá-lo, "acutilante, carismática e agregadora". Considera que está a falhar no cumprimento desses objetivos?

Não sinto que esteja a falhar enquanto presidente do CDS. Pelo contrário, creio que as lideranças se avaliam por resultados eleitorais, esses sim os verdadeiros barómetros da acutilância do partido. Tive dois embates eleitorais. O primeiro foi nos Açores, no ano passado, em que o CDS, pela primeira vez, conseguiu chegar à presidência do governo regional, ocupando uma vice-presidência, tendo uma participação influenciadora da governação como nunca tinha acontecido. Depois, nas eleições presidenciais, o CDS, ainda não sei com que percentagem, contribuiu para a formação da maioria presidencial que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da nossa família política, ser eleito à primeira volta.

E a capacidade de agregar, considera que está a ser cumprida?

Aí confesso que tem sido um objetivo mais difícil de atingir, pese embora não tenha sido por falta de iniciativa da minha presidência. Ao longo do último ano, tenho procurado manter a unidade e a coesão do partido. A verdade é que nem sempre tenho conseguido merecer esta reciprocidade por parte dos meus adversários políticos...

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A quem é que aponta responsabilidades por essa falta de reciprocidade?

Há uma coisa em que me farão justiça. Publicamente nunca teci críticas a militantes do CDS, sejam atuais ou ex-dirigentes, porque entendo que o exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros, é a única. Somos um partido com 47 anos de história, fundador da democracia, que sempre soube albergar as direitas sob o chapéu da democracia cristã, que é fundamental e insubstituível na nossa democracia. Nós precisamos de continuar a ser uma fronteira para o extremismo, seja à Esquerda ou à Direita, apresentando uma voz ponderada, sensata e moderada, que vá ao encontro do eleitorado tradicional do centro-direita, um partido que defenda valores de forma intransigente. Não somos uma Direita fofinha nem simpática, mas também não somos uma espécie de Direita ultramontana, radical, carregada de preconceitos.

Tem somado demissões e são conhecidas divergências, tanto em elementos da sua direção como em estruturas concelhias e distritais. O que falha: a mensagem ou o relacionamento?

Fiz um esforço para que houvesse estabilidade, compromisso e paz interna, o que passou por convidar pessoas afetas à lista do Filipe Lobo d"Ávila e do João Almeida na formação dos órgãos nacionais, que vieram incluir neste esforço coletivo as minhas equipas diretivas. No entanto, por questões de ordem interna que creio se prendem mais com a matemática eleitoralista e com o jogo de poder puramente interno, houve cisões, que foram debeladas por uma maioria confortável que esta direção continua a ter nos órgãos nacionais.

Continua a rejeitar a hipótese de, para ter mais visibilidade como líder, vir a substituir Cecília Meireles na bancada parlamentar do CDS?

Afasto essa hipótese porque o compromisso que fiz com os militantes é que procuraria fazer das ruas de Portugal o meu escritório e trabalhar no terreno junto dos portugueses para trazer novamente esta magia do PP ao CDS. Um partido que trabalha com o seu mérito, que é empreendedor, que não depende do Estado nem de subsídios, quer vencer na vida e ter oportunidades.

Já decidiu quem será o número dois da lista à Câmara de Lisboa, liderada por Carlos Moedas, e para a presidência da Assembleia Municipal? Está a contar com João Gonçalves Pereira, que acaba de deixar o Parlamento?

Eu já esperava essa pergunta. Quero que fique muito claro: aquele tempo no CDS em que se discutiam pessoas em primeiro lugar em vez dos projetos políticos e das ideias acabou, pelo menos enquanto eu for presidente.

Portanto, esta pessoa em concreto não se enquadra no projeto.

Não, não foi isso que eu disse. O que estou a dizer é que nesta fase nós estamos, juntamente com a candidatura de Carlos Moedas, a definir um plano para Lisboa. Depois procuraremos pessoas que se enquadrem no espírito do projeto e com o perfil indicado para executá-lo. Mas há uma coisa que quero deixar claro: é que no CDS não há lugares cativos, isto não é como no futebol e por isso a última palavra relativamente à escolha dos candidatos pertence à direção do partido.

Uma vez que Assunção Cristas conquistou 20% dos votos nas últimas autárquicas, em Lisboa, esse poder não chegou para equacionar a possibilidade de ser o CDS a liderar a coligação?

Essa possibilidade chegou a ser colocada em cima da mesa. Inclusivamente, propus ao PSD que Assunção Cristas pudesse liderar uma coligação de centro-direita, mas sucede que foi a própria Assunção Cristas a excluir-se da corrida e, por isso, a hipotecar a chance de o CDS poder encabeçar.

O CDS não teria outro nome ao nível do de Assunção Cristas?

Não, o primeiro nome que nos assaltou o pensamento foi naturalmente o de Assunção Cristas, porque ela, sim, é a principal responsável pelo resultado eleitoral histórico que tivemos há quatro anos.

A verdade é que a Câmara de Lisboa tem atualmente quatro vereadores do CDS e apenas dois do PSD. E na coligação que agora se candidata, dos seis primeiros lugares da lista apenas dois serão do CDS. Isto é um bom acordo?

Parece-me um acordo bastante satisfatório. Aliás, daquilo que percebi internamente, logrou obter um agrado e um júbilo por parte das estruturas do partido, inclusivamente dos nossos autarcas em Lisboa. Em posição elegível, no caso de vitória, nós teremos três vereadores e lideraremos nove freguesias.

O CDS concorre coligado com o PSD em Lisboa mas separadamente no Porto, onde apoiará a previsível recandidatura de Rui Moreira. Como é que se explica?

É perfeitamente natural que nuns sítios optemos por ir coligados, de acordo com a estratégia de que em todas as câmaras em que juntos pudermos derrotar a Esquerda devemos ir coligados. No caso do Porto, apoiámos há duas eleições, portanto há oito anos, Rui Moreira. Sendo ele uma pessoa respeitável, credível, que tem liderado um projeto mobilizador e refrescante para a cidade, não vemos motivo nenhum para agora retrairmos este apoio.

Vai fazer campanha ao lado de Adolfo Mesquita Nunes, na Covilhã, ou ao lado de João Almeida, em São João da Madeira?

Claro que sim. Aliás, muito nos orgulha que o CDS tenha conseguido liderar ambas as coligações, uma na Covilhã e outra em São João da Madeira. Em ambos os casos, da minha parte, só me resta fazer aqui uma nota especial, que me apraz registar, a disponibilidade de ambos para serem candidatos autárquicos e, da parte do presidente do CDS, como de toda a estrutura autárquica do partido, contam com a mobilização de meios, com o empenho, com a disponibilidade para que essas duas câmaras possam ser ganhas nas listas lideradas pelo CDS.

Admite que alguns dos seus adversários internos estejam à espera de que obtenha um mau resultado nestas autárquicas?

Não quero acreditar que seja verdade.

E se correrem mal? Admite demitir-se? Ou seja qual for o resultado ficará presidente do partido até ao congresso de 2022?

As lideranças estão sempre sujeitas a resultados eleitorais. E eu reservarei uma avaliação desses resultados para o dia das eleições e depois tirarei as devidas ilações. Ninguém pode dizer que está colado ao lugar ou que tem mandatos perpétuos.

Pode quantificá-los em número de câmaras? Manter as seis é o objetivo?

Esse é o objetivo conservador. E não nos podemos esquecer que o CDS, quer em listas próprias, quer em listas conjuntas, pode aumentar a sua influência na governação municipal. Portanto, eu admito que o centro-direita, PSD e CDS, venham a conquistar câmaras à Esquerda. Esse é o meu objetivo.

Já falámos aqui um pouco na recomposição da Direita, sabemos que há projetos como a Iniciativa Liberal e o Chega que estão a mudar muito esse espaço. Continua a haver espaço para a matriz do CDS? As sondagens parecem indicar o contrário.

Sobre sondagens não gosto de perder muito tempo porque já estou vacinado contra elas. O CDS é importante para defesa dos idosos, cuidar de quem cuidou de nós. Eu defendo que seja criado um vale farmácia para pagar na totalidade os medicamentos aos idosos que recebem pensões mais baixas, para que não sejam confrontados com a escolha desumana entre comprar medicamentos ou alimentos. Foi o CDS que defendeu a inclusão dos idosos com mais de 80 anos na primeira fase do plano de vacinação. Para os nossos jovens, para a escola, defendemos em abril do ano passado a criação de um vale tecnológico que atribuísse às famílias carenciadas um cheque para comprar um computador ou um tablet. Se isso tivesse sido feito, não tínhamos esta confusão de haver crianças que não têm ligação à Internet para ter o ensino à distância.

O presidente da República iniciou o segundo mandato. Observa em Marcelo Rebelo de Sousa uma maior exigência em relação ao Governo?

Observo-a e no atual contexto justifica-se que assim seja, uma vez que nós já estamos na terceira vaga da pandemia e o Governo não pode continuar a cometer os mesmos erros e a falhar por falta de planeamento ou de previsão.

Em janeiro, deu indicação ao Grupo Parlamentar do CDS para se abster na votação do estado de emergência. De então para cá o CDS tem votado favoravelmente as renovações. Avaliou mal aquele voto em janeiro?

O CDS chegou a um determinado ponto em que não sabia qual era a receita que o Governo ia aplicar e não queria passar cheques em branco. E algumas das propostas que o Governo veio a implementar, ao nível do controlo da pandemia, não nos pareceram sensatas. Quando regressou mais uma vaga, não havendo alternativa nenhuma que não fosse aplicar a "bomba atómica" de confinar, o CDS teve uma postura responsável e decidiu apoiar o Governo.

Se fosse líder do Governo, o que faria de diferente nas respostas à pandemia?

Em primeiro lugar, mudaria os apoios à economia que o Governo está a atribuir. Os nossos empresários estão a ser esmagados por uma propaganda mentirosa do Governo. Nota-se um preconceito para com quem vive do trabalho. O PRR, em vez de ser um plano de recuperação e resiliência, mais parece um plano de relançamento da recandidatura de António Costa a primeiro-ministro.

Acusou o ministro de ser um purista das regras orçamentais por ter recorrido ao Tribunal Constitucional por causa do reforço dos apoios sociais aprovados no Parlamento. Se liderasse o Governo aceitaria que a Assembleia da República o obrigasse a violar a lei-travão?

Em apoios à economia, o Governo gastou 2,3% do PIB. O Reino Unido gastou cerca de 16%. Portanto, é evidente que todo aquele dinheiro que nós não gastámos agora, quer ao nível dos apoios à economia ou apoios sociais, vamos gastar muito mais à frente a título de prestações sociais, porque não fomos capazes de manter as empresas vivas, de apoiar os trabalhadores independentes, os empresários em nome individual, os sócios gerente e, até, os nossos profissionais de saúde. Se isto fosse mais um caso para enfiar dinheiro na TAP ou no Novo Banco não havia problema jurídico relativamente nenhum.

Ou seja, se liderasse o Governo, aceitaria que o Parlamento o obrigasse a violar a lei-travão?

Aceitaria, claro. O Governo tinha outra opção, e é a isto que eu desafio o António Costa: que apresente um orçamento retificativo no Parlamento. Mas António Costa não o quer fazer, está com uma vendeta contra o Parlamento, fez uma birra política porque perdeu a mão aos seus parceiros de "geringonça" e está demonstrado que a sua base de sustentação na governação está bastante enfraquecida.

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