Entrevista

Marcelo não contactou viúva de ucraniano para "não abrir exceção" mas falou com Costa

Marcelo não contactou viúva de ucraniano para "não abrir exceção" mas falou com Costa

O presidente da República diz que não contactou a viúva do ucraniano assassinado por três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) porque entendeu que "não devia abrir uma exceção" quando estava "uma investigação criminal em curso". Mas falou "inúmeras vezes" com António Costa sobre esta matéria. Em entrevista, disse que há uma Direita em construção e admitiu dar posse a um Governo apoiado no Chega.

Marcelo Rebelo de Sousa falava numa entrevista à SIC, esta sexta-feira à noite, em que foi questionado sobre por que motivo não enviou uma nota de pesar à viúva daquele cidadão e confrontado com o contraste entre o facto de ter escrito notas de pesar sobre David Bowie ou sobre Prince e o silêncio neste caso do SEF.

"Sempre tomei como posição não me imiscuir quando há um processo criminal em curso" e "entendi que não deveria abrir exceção e ligar para a Ucrânia", respondeu o presidente e candidato a Belém em janeiro próximo. "Quando há um processo criminal não falo dele em público nem em privado", insistiu, assegurando que nunca contacta com vítimas nem com os respetivos familiares.

Falou "inúmeras vezes" com Costa

"Havia um problema pendente que era a reforma global do SEF, sobre a qual tinha discutido com o primeiro-ministro. E não tenho por hábito divulgar estas conversas com o primeiro-ministro", defendeu ainda, na sua primeira entrevista desde que anunciou a recandidatura.

Garantiu que se algum jornalista lhe tivesse colocado uma questão sobre o caso teria dito que "estava a tratar com o primeiro-ministro", com quem falou "inúmeras vezes sobre esta matéria".

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"Quero um novo SEF", disse ainda Marcelo, notando ainda que já existe a garantia de que o ministro Eduardo Cabrita irá continuar."

"A pergunta já foi respondida pelo primeiro-ministro, que tem confiança total, e o ministro não pediu a demissão", referiu quando questionado sobre se a manutenção do ministro estava em causa.

De resto, recusa "antecipar o julgamento dos tribunais".

Na véspera, o presidente da República defendeu a substituição do atual Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) por "outro", caso se confirme que as agressões contra o ucraniano Ihor Homenyuk, que resultaram na sua morte, correspondem a um "modus operandi" habitual deste órgão de polícia criminal.

Avisos sobre TAP e Novo Banco

Sobre a TAP, defendeu a continuidade daquele que é "um dos vínculos às comunidades portuguesas". Mas será preciso "fazer uma reestruturação e tem de se pagar o preço dessa restruturação", avisou Marcelo, que ainda não tinha recebido o plano.

O presidente concordou com António Costa ao considerar que a decisão da reestruturação cabe ao Governo e não à Assembleia da República. Mas esta poderá ter "uma palavra a dizer se comportar efeitos orçamentais".

Marcelo deixou depois recados ao Parlamento devido à auditoria ao Novo Banco que foi pedida ao Tribunal de Contas. "Foi uma deliberação tomada por quem a devia tomar. Não pediram a opinião do presidente da República" e "o Tribunal de Contas tem limites", avisou.

Atraso nas vacinas

Em seguida, Marcelo falou da pandemia, assumindo as suas responsabilidades."Fui eu que tive a iniciativa do primeiro estado de emergência", destacou. Perante a escassez de vacinas para a gripe após as garantias de que quem se quisesse vacinar o poderia fazer, o presidente disse que se baseou nas garantias da ministra Marta Temido.

Além disso, conta que falou com as farmacêuticas e voltou a defender que não deve haver expectativas excessivas quanto às vacinas contra a covid-19. "Há vacinas que estão atrasadas, não contemos com elas em janeiro", sublinhou. Quanto ao tempo da campanha de vacinação, pode demorar o ano todo devido à necessidade de duas doses por pessoa. "Não devemos criar expectativas elevadas, não basta tomar a vacina e o problema está resolvido."

"A vacina da Pfizer é um processo longo que pode ir até ao fim do ano", particularizou.

Ainda a propósito da pandemia, Marcelo admite estar preocupado com o impacto na afluência às urnas. "É uma questão que me preocupa", disse, lembrando ter viabilizado uma iniciativa legislativa que "aumenta a hipótese do voto presencial antecipado".

De resto, considerou que "todos os candidatos presidenciais" devem "assistir ao próximo encontro" no Infarmed, em Lisboa.

"Soares é irrepetível"

Marcelo acabou por baixar a fasquia para o sufrágio de 24 de janeiro. Pode "ter muitos defeitos" mas não é "burro" nem "louco", disse na entrevista. Daí que não espere os cerca de 70% que Mário Soares teve em 1991.

"É irrepetível, ninguém teve o passado dele antes da revolução e depois da revolução", disse sobre o antigo presidente da República.

"Direita em construção"

Entretanto, defende que, "olhando para as últimas sondagens, a Direita está em construção". E o centro-direita necessita de ter uma solução com "vigor".

De sua parte, diz que não é um "presidente de fação", da Direita contra a Esquerda, nem foi eleito para isso.

Além disso, criticou o protagonismo que os outros partidos dão ao Chega, cujo líder é candidato presidencial. As outras forças à direita e à esquerda "podem maximizar o peso desse partido se o converterem no centro do sistema das suas estratégias e depende do próprio partido", avisou.

Daria posse a Governo de Direita com Chega

Porém, admite viabilizar um Governo do PSD que tenha apoio do Chega. "Não vejo razão constitucional para não dar posse a um Governo apoiado no Chega", afirmou. E "o presidente da República não pode discriminar o Chega".

De resto, insistiu que não teve intervenção na solução de Direita verificada nos Açores, em que o partido de André Ventura se aliou ao PSD.

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