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SOS Racismo faz queixa de "ação terrorista" de extrema-direita

SOS Racismo faz queixa de "ação terrorista" de extrema-direita

Grupo fascista juntou-se à porta da organização em "parada à Ku Klux Klan", diz Mamadou Ba. Ativista leva aviso "a sério" e culpa Chega pela "escalada".

Cerca de 20 elementos de um novo grupo de extrema-direita denominado "Resistência Nacional" concentraram-se, na noite de sábado, em frente à sede do SOS Racismo, em Lisboa. Munidos de tochas e com máscaras a cobrir toda a cara, dizem ter ido homenagear "a memória dos polícias mortos". Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, afirmou ao JN que esta "parada à Ku Klux Klan" foi "um aviso" que deve ser "levado a sério". A organização vai apresentar queixa no Ministério Público.

"Tratou-se, no fundo, de uma ação terrorista de extrema-direita para tentar intimidar e coagir os ativistas do SOS Racismo", sustentou Mamadou Ba. O dirigente anti-racista garante que o episódio não constituiu "nenhuma surpresa", mas que foi "uma forma insidiosa e mais violenta de legitimar a negação do racismo". Esta "escalada", argumenta, é "consequência" da "reorganização da extrema-direita e do palco institucional que esta encontrou através de André Ventura".

"Não há como não temer"

Segundo Mamadou Ba, a concentração serviu também para a extrema-direita demonstrar "que está disposta ao confronto físico se insistirmos em levar adiante a agenda anti-racista".

O ativista diz que as recentes manifestações do Chega, que negaram a existência de racismo em Portugal, ajudaram a instalar a máxima "sou racista, e depois?". "Se chegámos a este ponto, o mais provável é que a escalada venha a subir".

Mamadou Ba assegura que vários membros da "Resistência Nacional" têm ligações a Mário Machado - conhecida figura da extrema-direita - e que, como tal, "não há como não temer consequências mais gravosas".

O dirigente do SOS Racismo foi à sede no sábado, mas saiu antes da concentração. "Tive sorte", diz. Esta terça-feira, garante, falou com vários moradores da zona que lhe disseram que os manifestantes "andaram a gritar o meu nome, a dizer que eu devia ser morto, espancado, expulso".

O episódio, bem como outros recentes, levou a que o SOS Racismo tenha decidido apresentar queixa no Ministério Público. A organização vai alegar ameaças à integridade física, incitamento ao ódio e à violência e, também, ameaça à ordem pública. "O que eles nos dizem é que não podemos existir, não podemos estar no espaço público", justifica Mamadou Ba.

A "Resistência Nacional" escreveu nas redes sociais que a concentração foi uma "vigília em honra das forças de segurança mortas por "jovens", mas que aos olhos do SOS Racismo nunca é racismo".

SOS Racismo sob fogo

Em julho, a sede do SOS Racismo foi vandalizada com a frase "Guerra aos inimigos da minha terra". Dias depois, a organização recebeu um email, assinado pelo grupo "Nova Ordem de Avis", onde se lia que "para cada nacionalista preso cairá um anti-fascista".

Governo "atento"

Mamadou Ba recebeu "telefonemas de líderes partidários" e o Governo disse-lhe que está "atento". Contudo, o ativista lamenta a falta de tomadas de posição institucionais.

Afasta comparações

O ativista defende ser "inaceitável" dizer que anti-racistas e fascistas são "farinha do mesmo saco": "não podemos combater o racismo sem admitir que ele existe".

62% dos portugueses manifestam alguma forma de racismo, segundo um estudo de junho do European Social Survey. Só 33,1% discordam que haja etnias naturalmente mais e menos trabalhadoras.

41% de quem só tem o ensino básico e 48,9% de quem tem rendimentos baixos discorda que há etnias naturalmente mais inteligentes; nos licenciados são 79,1% e em quem tem salários confortáveis 74,8%.

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