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Pandemia

Ventiladores adaptados por médico do SNS podem salvar vidas

Ventiladores adaptados por médico do SNS podem salvar vidas

É possível adaptar um ventilador não invasivo para que seja possível utilizá-lo em doentes com Covid-19. O projeto é de um médico do SNS. "É fácil de conceber, pode estar disponível de um dia para o outro e as peças existem todas nos hospitais", garante.

Aproveitar um sistema que existe, que é o de Ventilação Não Invasiva (VNI), que se utiliza nos doentes com dificuldade respiratória e que há muitos nos hospitais, é a ideia central do projeto desenvolvido por Paulo Roberto, médico anestesiologista de um hospital público no norte do país.

O protótipo já existe, já foi utilizado no passado e funcionou para um doente que precisava de ventilador e não havia disponível. "Sem ventilador na altura não teria sobrevivido", garante ao JN Paulo Roberto, também estudante de doutoramento em Biomedicina na Universidade de Aveiro.

Este modelo "é fácil de conceber, pode ficar disponível imediatamente de um dia para o outro e as peças existem em qualquer bloco operatório ou unidade de cuidados intensivos dos hospitais", sublinha. "Ter mais ventiladores invasivos é a solução ideal mas até essas condições serem conseguidas podemos enfrentar a necessidade de ter equipamentos que, mesmo não sendo os ideais, cumpram a função eficazmente", explica. E dias, "infelizmente, olhando para a evolução da pandemia noutros países, é o tempo que temos disponível".

O relato dramático dos médicos em Itália, a terem de optar por quais os doentes que são ventilados devido à falta de ventiladores, não deixou ninguém indiferente. O facto de a Covid-19 poder causar insuficiência respiratória grave torna estes equipamentos vitais.

Os VNI são os ventiladores mais simples que são ligados a uma máscara para auxiliar em caso de dificuldade respiratória. "O ar sai não filtrado para o ambiente, por isso não são adequados para o caso particular da Covid-19, cujo vírus se propaga por via aérea", salienta o médico anestesiologista. Os ventiladores invasivos são os mais complexos, que auxiliam na inspiração e expiração, em circuito fechado.

O modelo criado por Paulo Roberto consiste numa adaptação dos VNI que permite "um circuito semi-fechado. O ar que vai sair pela válvula expiratória [para o ambiente] passa por um filtro HEPA (antiviral), os poros do filtro são demasiado pequenos para os vírus passarem por lá, ficam retidos", descreve. Outra vantagem: "esta adaptação permite rapidamentemais que duplicar a capacidade de ventilação mecânica disponível no país".

O protótipo foi testado, no passado dia 16, como prova de conceito. "Falta apenas uma peça de conexão que faça a adaptação porque o problema são os diâmetros dos tubos" - VNI e ventiladores invasivos têm tubos de diâmetros diferentes.

E para ajudar a encontrar uma solução, Paulo Roberto lançou o desafio numa plataforma online ("Slack") com o nome "Project Tube Connector". Mais de 200 pessoas estão a colaborar com ideias e conhecimentos em diversas áreas, como medicina, engenharia, design, manufatura, etc. Um deles é Pedro Duarte, estudante da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). O objetivo é que "um médico, numa situação de urgência, tendo este adaptador disponível, possa fazer qualquer ligação". E esse adaptador precisa de responder a três requisitos: "tem de ser de material elástico para se adaptar aos diâmetros; selar o circuito de ar e passar pelo processo de esterilização médico", explica.

"Encontramos uma possível solução que consiste num tubo de silicone que vai ser testado em breve", disse ao JN. E como se trata de um produto comercialmente existente, "vai facilitar o processo de fazer chegar o produto mais rápido aos hospitais".

"Caso passe nesse teste, faremos o contacto com a Administração Regional de Saúde (ARS) para que seja possível disponibilizar o adaptador para os hospitais", acrescenta.

"É um projeto promissor", na opinião de Ana Bernardino, anestesiologista no Hospital de Coimbra (CHUC). "Já o guardei e já mostrei a alguns colegas que estão na primeira linha de gestão deste momento difícil", disse ao JN. "Nunca experimentei, só vi o vídeo", ressalva, mas "se realmente funcionar é uma arma brutal porque nós temos imensos VNI em Portugal".

Por agora o foco é a proteção dos profissionais de saúde. Este projeto de ventilador está "no bolso" como um recurso a ponderar caso se atinja um pronto crítico. "Acho que tomámos medidas mais cedo do que Itália e espero que não cheguemos ao mesmo ponto, em que se tem de decidir entre quem sobrevive, mas temo que possamos chegar. É uma incógnita", confessa.

No mesmo sentido, Tiago Sá, pneumologista do Centro Hospitalar Lisboa Central, sublinha que "o que nós queremos todos é evitar que alguma vez tenha que ser necessário recorrer a uma alternativa como esta" mas, "do ponto de vista teórico o protótipo faz sentido desde que a capacidade e a autonomia do ventilador a usar o permita".

"Fala-se muito de ventiladores mas se calhar o maior problema que vamos ter é de recursos humanos para conseguir tratar doentes que estejam com ventiladores, pois têm de ter monitorização muito apertada e estar sob vigilância", salienta.

"Sem recursos humanos, podem chegar milhares de ventiladores de onde quiserem... mas não podemos ter um doente ventilado invasivamente que não tenha a vigilância que exige", acrescenta. "Primeiro recursos humanos e, ainda antes disso, que as pessoas continuem em casa, a protegerem-se e a terem cuidados máximos".