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Ventura descola-se de apoiantes: defende casamento gay e critica Salazar

Ventura descola-se de apoiantes: defende casamento gay e critica Salazar

Por várias vezes desvinculando-se das opiniões manifestadas por parte do eleitorado do Chega e chegando a contrariar o que consta do programa do partido, André Ventura defendeu, em entrevista à Lusa, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e assumiu-se, como a esquerda, favorável à despenalização do aborto. Desmentiu querer trazer para o presente a República de Salazar, e, sobre Belém, lançou críticas a Marcelo, Ana Gomes e Marisa Matias.

O pré-candidato presidencial do Chega mostrou-se favorável ao casamento entre homossexuais, adiantando que o próprio partido tem pessoas de várias orientações. "Estou em crer - não tenho dados sobre isso - que o Chega tem homossexuais entre os seus milhares de militantes. Entre os dirigentes, eventualmente. E quero que continue a ser assim",

"Eu, se tivesse um filho homossexual... (hesitação), pessoalmente - talvez algumas pessoas não gostem disto -, não teria nenhum problema com isso porque tenho muitos amigos homossexuais, alguns deles do mais brilhante que eu conheci na vida, que falam muito bem comigo e que percebem que nunca tive nenhuma onda de combatividade aos homossexuais ou à comunidade LGBT", respondeu à agência Lusa, quando questionado sobre qual seria a sua reação caso tivesse um filho gay, tendo em conta as várias posições assumidas contra os direitos das minorias. E se ele casasse nos mesmos termos em que casam os casais heterossexuais? "A minha posição pessoal é a de que um casal de homens ou de mulheres não deve ter menos direitos do ponto de vista da sua presença na sociedade do que um casal homem-mulher", respondeu, voltando a ressalvar que "talvez alguma parte do eleitorado" do Chega não esteja de acordo.

A direita com que sonhou, considerou, "é uma direita em que as pessoas se unem em torno de causas, convicções, e não de condições pessoais de cada um", porque "ser homossexual não desvaloriza em nada ninguém e não desvaloriza a capacidade de combate político".

O líder nacional-populista deu ainda como exemplo o aborto, tema sobre o qual também tem um posicionamento de possível "discordância com a base do partido". "Sempre disse que, eticamente, compreendo e sou contra o aborto, mas não vou propor a sua criminalização, porque não funciona, não resolve. Compreendo que a maioria no partido ache que deva ser crime, mas choca-me enquanto jurista e político", concluiu.

Ventura afirmou que a negociação que culminou na viabilização do novo Governo Regional dos Açores (PSD, CDS e PPM) foi um "processo de avanços e recuos". "O PPM creio que teve 2% dos votos, ou alguma coisa parecida. Nós tivemos quase 6%. Quem deveria estar no Governo seríamos nós, mas nós não quisemos", salientou, rejeitando que o apoio à formação do novo executivo regional açoriano tenha significado uma "muleta".

"Eu acho que o Chega não foi muleta de ninguém", defendeu, apontando que o partido "disse que não cedia se não houvesse uma convergência em alguns pontos, e que não ia para o Governo".

O presidente do Chega acrescentou que "não aceitaria que nenhum dos eleitos no Chega Açores participasse neste governo, por várias razões" e que deu indicações aos dirigentes regionais para que tal não acontecesse. Na ótica de Ventura, o Chega apenas tinhas duas opções: votar contra o governo do PS, o que "nunca permitiria", ou viabilizar um governo à direita, "com condições".

"Isto pode acontecer aqui na República? Poder, pode", admitiu, advogando porém que serão necessárias "reformas mais profundas, quer a nível da justiça, quer a nível do sistema político, quer do sistema fiscal". "Nós só aceitaremos viabilizar um governo à direita aqui se essas condições forem asseguradas, e se não forem, votaremos contra", salientou, admitindo que se assim não for "as pessoas vão dizer" que "o antissistema tornou-se numa distribuição de lugares do sistema".

Em setembro, na II Convenção Nacional do partido, André Ventura tinha prometido rejeitar coligações com outros partidos enquanto fosse líder do Chega - "Enquanto eu me sentar naquela cadeira ali do meio, coligações nem vê-las!", prometeu na altura.

O anunciado candidato presidencial do Chega recusa os rótulos de "extrema-direita, fascista, xenófoba e racista" que muitos atribuem ao partido e também qualquer simpatia relativamente ao regime do Estado Novo ou saudosismo pelo então ditador. "Não é preciso Salazar nenhum em esquina nenhuma", mas antes uma IV República, defendeu, descrevendo o Chega como um partido "antissistema". "É preciso é um André Ventura em cada esquina", disse, em tom humorístico.

"A República liderada pelo dr. António de Oliveira Salazar, a maior parte do tempo, também não resolveu [os problemas do país] e atrasou-nos muitíssimo em vários aspetos. Não nos permitiu ter o desenvolvimento que poderíamos ter tido, sobretudo no quadro do pós-II Guerra Mundial. Portugal poder-se-ia ter desenvolvido extraordinariamente e ficámos para trás, assim como os espanhóis", afirmou.

Curiosamente, antes do começo da entrevista no gabinete da sede partidária, em Lisboa, a zelosa assessoria de imprensa nacional-populista retirou da estante que estava atrás do líder partidário vários volumes sobre Salazar para que não aparecessem no enquadramento das imagens. "Comigo estão à vontade porque não tenho nenhum saudosismo de uma República que eu não vivi. Não é isso que me move. Vejo Salazar como vejo outras figuras da História. Não vou fazer juízos de qual é melhor ou pior: se Salazar ou Cunhal ou Hitler ou Estaline. Nós, em Portugal, para conseguirmos dar um avanço real na questão política, temos de deixar os fantasmas do passado", continuou.

André Ventura disse que vai sentir a sua "missão" cumprida "quando um jovem de 24 anos, que viva na Suíça ou em Inglaterra e os pais lhe perguntarem para que país quer ir viver, diga 'quero ir para Portugal'". "Enquanto houver um jovem de 24 anos que me diga que não tem trabalho em Portugal e que quer ir para a Suíça ou Alemanha, eu ainda não cumpri a minha missão. Durante o tempo de Salazar, nos anos de 1960, os portugueses emigraram como nunca para França, Suíça, Alemanha. Quando cumprir [a missão], este país vai ser o polo de atração da Europa, o eldorado da Europa", prometeu.

Na interpretação de Ventura, o Chega é "um partido de direita, na classificação clássica - com uma visão do país de valores, defesa das instituições e do mercado -, mas na lógica antissistema, que é uma classificação mais adequada do que extrema-direita, extrema-esquerda, esquerda, direita".

"O Chega tem zonas do país onde os militantes vêm predominantemente do espetro esquerdo, como Setúbal, Beja, Évora, Portalegre. Em Portalegre, é o segundo ou terceiro em termos de sondagens. O nosso eleitorado ali veio do PCP, do BE, algum do PS e, como acontece em todo o lado, do PSD e CDS", descreveu.

Durante a entrevista, o também candidato a Belém defendeu a realização de eleições legislativas "a breve prazo". Dando o exemplo da aprovação do Orçamento do Estado, o candidato considerou que um Presidente da República "nunca deve permitir que o Governo já em queda perca o apoio de um dos seus parceiros à esquerda, o Bloco de Esquerda, e ande a pescar apoios".

Na opinião de André Ventura, Marcelo Rebelo de Sousa tem de "parar e pensar que legitimidade ainda tem este Governo, que condições tem para governar", mas o atual chefe de Estado "quer tudo menos eleições", Primeiro, porque o Chega ia crescer muito. Segundo, porque ia criar "instabilidade no quadro parlamentar, e ele é quem mais é penalizado com isso": "Ele quer aparecer como árbitro, mas todos conhecemos Marcelo Rebelo de Sousa, ele é o árbitro do país onde não há problemas. Quando começa a aparecer algum problema, Marcelo Rebelo de Sousa é o árbitro que desaparece".

Para Ventura, Marcelo terá sido "provavelmente o Presidente mais cúmplice [de um Governo] da história da terceira República": "Cumplicidade com o Governo, acho que foi nisso que Marcelo Rebelo de Sousa apostou tudo desde o início do seu mandato".

O candidato lembrou que o chefe de Estado "já várias vezes tinha dito, enquanto comentador, que os portugueses nunca punham os ovos todos no mesmo cesto", e portanto decidiu "não hostilizar o Governo PS", porque se o Governo "muda para a direita, é mais difícil" ser reeleito.

Para André Ventura, "isso vê-se em várias coisas", por exemplo "no apelo sucessivo para aprovar os Orçamentos do Estado". "Aliás, eu nunca vi um Presidente tão entusiasmado com um Governo como Marcelo Rebelo de Sousa. (...) Muitas vezes serviu de para-raios ao Governo quando o tom subia na Assembleia da República, embora desde que Rui Rio entrou também nunca subiu assim muito, mas foi sempre o para-raios de António Costa", concretizou.

Espera o dobro do que mostram sondagens

Ventura reconheceu que as próximas eleições para a Presidência da República podem traduzir-se numa "luta difícil", mas salientou que se candidata porque acredita que é aquilo que deve fazer e que vai valer a pena. Mostrou-se também convicto de que vai conseguir "ter o dobro daquilo que as sondagens" antecipam e de que vai disputar uma segunda volta.

Sobre a campanha, que poderá não acontecer nos moldes habituais e com grandes ajuntamentos devido à pandemia, o candidato admitiu uma "reformulação dos modelos de campanha" devido às restrições que ainda poderão estar em vigor, mas garantiu que "a caravana vai sair", porque gosta de estar junto dos eleitores, recusando uma campanha através da internet.

"Vamos ter de nos adaptar, como se faz nos eventos, agora não vou deixar de ir aos sítios porque a nossa vantagem é essa", defendeu, exemplificando que os comícios poderão passar da rua para auditórios, com lugares marcados, e que os jantares poderão dar lugar a cocktails. André Ventura só admitiu "alguma espécie de modelo virtual de campanha" caso em janeiro ainda estejam em vigor as restrições à circulação, mas espera "que isso não aconteça".

Vai pedir suspensão do mandato de deputado

Questionado sobre a sua intenção de suspender o mandato de deputado para participar na campanha a tempo inteiro, o candidato indicou que vai pedir a suspensão "logo quando entregar o processo" para a oficialização da candidatura e que vai bater-se por ser aceite, "se for preciso até ao Tribunal Constitucional".

Sobre o anúncio de que abandona a liderança do partido caso Ana Gomes fique à sua frente, Ventura reiterou a intenção: "Sim, evidente, eu quando digo as coisas é para manter. O que eu quis dizer com isso foi que tenho de tirar responsabilidades e ilações do facto de a doutora Ana Gomes ter mais [votos] do que eu".

"Ana Gomes não gera nas pessoas a empatia necessária, o prestígio necessário, o entusiasmo necessário para ser uma boa candidata presidencial. Na minha opinião, tem-se rodeado de pessoas que também não ajudam na campanha dela, como é o caso do Paulo Pedroso, mas não só. E portanto, não há nenhum motivo para ela ficar à minha frente, significaria que eu fiz um mau trabalho e tenho de tirar consequências disso, mantenho o que digo", advogou.

Marisa Matias, a candidata apoiada pelo BE, "não traz nada de novo" e está a perder eleitorado para a socialista. André Ventura referiu igualmente que vai manter a postura crítica em relação aos restantes candidatos e que vai manter "o tom" e "o registo" que adotou até aqui, recusando que seja insultuoso.

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