
O Consultório Sustentabilidade desta semana por Joana Guerra Tadeu, ativista pela justiça climática e autora de "Ambientalista Imperfeita".
Porque é que as casas portuguesas são tão frias no inverno? Já vivi noutros países da Europa, onde o inverno é muito mais rigoroso, e nunca passei tanto frio dentro de casa.
Sofia Almeida
Porque, paradoxalmente, Portugal construiu casas como se o frio não fosse um problema. Tecnicamente, o que falha é o desempenho térmico dos edifícios: a capacidade de manter o calor no inverno (e o fresco no verão) sem gastar energia em excesso. Em grande parte do parque habitacional português, essa capacidade é baixa. Aliás, cerca de 30 por cento da energia final no país é consumida nos edifícios, o que significa que uma parte enorme dessa energia está literalmente a escapar pelas frestas das janelas e pelas paredes finas como papel.
Em Portugal, o desconforto térmico não é exceção - é a regra. O Sistema de Certificação Energética define 18 °C no inverno (e 25 °C no verão) como referência de conforto térmico. No entanto, 29% da população afirma não conseguir aquecer a sua habitação, e mais de 1,7 milhões de pessoas vivem em desconforto térmico. Portugal é o quinto pior país da União Europeia neste indicador, apesar de ter um clima mais ameno do que muitos dos seus vizinhos.
A razão é estrutural. A maioria das casas foi construída antes de existirem normas de isolamento térmico, com paredes finas, janelas de vidro simples e tetos sem proteção. Entre 70 e 80 % das habitações portuguesas são energeticamente ineficientes. O calor escapa no inverno e entra no verão, e o que fica é humidade, bolor e contas de energia elevadíssimas para tentar compensar o problema a jusante. Não é por acaso que um quarto da população vive em casas com infiltrações e fungos, problemas que agravam doenças respiratórias e aumentam o risco de pneumonia.
A isto chama-se pobreza energética: a incapacidade de manter a casa a uma temperatura saudável sem comprometer o orçamento. Em Portugal, estima-se que entre 660 e 680 mil pessoas vivam em pobreza energética severa, e cerca de uma em cada cinco enfrenta o inverno com temperaturas interiores abaixo dos 16 °C, um valor associado a riscos acrescidos para a saúde, sobretudo em idosos, crianças e pessoas com doenças respiratórias. Os números, aliás, têm vindo a piorar. Quem tem menos rendimento vive, regra geral, nas casas menos eficientes, e a pagar mais por menos conforto.
A boa notícia é que isto tem solução técnica conhecida: isolamento de paredes e coberturas, janelas eficientes, ventilação adequada e reabilitação térmica podem reduzir o consumo de energia em 30 a 60 por cento e transformar casas geladas em espaços habitáveis. Num clima cada vez mais extremo, ter uma casa quente no inverno não pode ser um luxo; tem de ser uma questão de saúde pública, dignidade e adaptação às alterações climáticas.
A NM tem um espaço para questões dos leitores nas áreas de Direito, jardinagem, Saúde, finanças pessoais, sustentabilidade e sexualidade. As perguntas para o Consultório devem ser enviadas para o email magazine@noticiasmagazine.pt
